Fright Like a Girl

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Eu sou apaixonada por Shakespeare. Acho o velho bardo um sacana safado da mais alta qualidade. Macbeth e Hamlet são duas das minhas coisas favoritas, e, sendo uma criança do teatro, como fui, esse cara com certeza foi uma grande influência quando eu era jovenzinha.

Você sabia que o nome Jéssica apareceu pela primeira vez no livro O Mercador de Veneza? Jéssica é um nome hebraico, Yiskāh, e a primeira adaptação para o inglês, Jessica, foi feita por Shakespeare. 

Nessa mesma peça, Shakespeare fala sobre lobisomens. 

Tá, não exatamente sobre lobisomens. Shylock, judeu, é constantemente descrito com características caninas. Para entrar nesse mérito eu teria que fazer uma ampla pesquisa histórica e falar sobre como judeus foram ligados a diversas características abomináveis e repugnantes por causa de preconceito, e deveria me aprofundar no antissemitismo, e discursar sobre esse problema nessa peça em questão, mas não vou fazer isso. (Mas estive lendo esse artigo aqui, se alguém se interessar.)

"Jéssica, mas o que isso tem a ver??? Do que você tá falando? Que relação uma coisa tem com a outra?"

Nenhuma, mas eu gosto de coincidências, então comecei a introdução desse texto dessa forma, pra que vocês tenham uma ideia de como minha cabeça funciona (pista: é uma gritaria aqui dentro, vocês não acreditariam).

Eu comecei a pensar em lobisomens de novo, recentemente, não apenas por causa do novo filme do Kit Harington, nem por causa da música do Motionless in White que eu estive viciada, mas também porque me dei conta da quantidade de filmes que existem sobre lobisomens em Londres e na Inglaterra. 

Pra falar a verdade, mesmo, os lobisomens nunca saem completamente da minha cabeça. Mas às vezes eu penso neles com mais furor.


Então, aos lobisomens. Estive pensando neles quando me deparei com o filme de 1935 O Lobisomem de Londres. É um filme de lobisomens, no começo da era dos Monstros Clássicos da Universal, mas não é O filme de lobisomens da Universal. O representante da classe lupina desse grupo é o Talbot, de O Lobisomem, de 1941. O Lobisomem de Londres, na verdade, foi abandonado ali na esquina do tempo. Mas por quê?

Não sei, realmente, e nem foi isso que mais me chamou a atenção quando voltei quase 90 anos no tempo para refletir. Minha reflexão se concentrou em: Por que tantos lobisomens em Londres? O que tem na água (ou na lua) londrina? Nós temos pelo menos quatro filmes que apontam esse caso: Um Lobisomem Americano em Londres, A Mulher-Lobo de Londres, Carnivore - O Lobisomem de Londres, e o próprio O Lobisomem de Londres. Isso seria retroalimentação ou tem algo mais aí?

Uma das histórias de lobisomens mais famosas da era moderna é a da Besta de Gévaudan, ou La Bête du Gévaudan, porque ele é francês. 

A imagem avisa que esse é o monstro que tem desolado Gévaudan, que ataca principalmente mulheres e crianças. 

Entre os anos de 1764 e 1767, uma criatura ameaçava os prados franceses na região da província de Gévaudan, onde hoje se encontra Lozère e Haute-Loire. Nesses dois anos, em uma área de cerca de 80 quilômetros, cerca de 82 a 124 pessoas foram atacadas. Um estudo em 1987 ampliou esse número para 210, com 113 mortos e 49 gravemente feridos (os outros ataques provavelmente foram de ferimentos mais leves). Desses 113 mortos, 98 foram comidos parcialmente. 

O que chama a atenção no ataque de Gévaudan nem é a quantidade de mortos, ou o interesse especial da coroa em descobrir o que estava acontecendo (apesar desses dois elementos serem, sim, interessantes de se pensar; pensem aí e depois me contem). O que me fascina nessa história toda é o período em que ela aconteceu. 

Em 1764 fazia cerca de 30 anos que aconteceram os ataques de Arnold Paole na Sérvia. Paole, uma das minhas figuras históricas favoritas, faleceu em 1726 e, dizem, se reergueu do túmulo cinco anos mais tarde condenando toda a sua cidadezinha ao vampirismo. As autoridades europeias ficaram putas da cara com a repercussão do que estava acontecendo. Foram enviados emissários de vários cantos da Europa; o Papa da época, Clemente XII, já no final da vida, ficou aflitíssimo com essa bagunça toda. Até Voltaire escreveu sobre vampiros (metaforicamente e factualmente).

[Desculpem, não temos imagens do Paole]

Querendo ou não, Arnold Paole nos brindou com um frisson necessário para dar uma força na literatura de vampiros que surgiria ali no século seguinte. Assim como a Besta de Gévaudan. Histórias de vampiros e lobisomens sempre existiram, mesmo que com outros nomes (vamos citar aqui os gregos tipo Ovídio e Plínio e a maravilhosa história nórdica de Bera e Björn, para citar os amigos antigos dos lupinos), mas foram esses dois episódios, e mais a mente muito criativa das pessoas dos recantos mais longínquos da "sociedade civilizada" londrina e parisiense, que principalmente ajudaram a moldar essas criaturas e prepará-las para a literatura do século XIX.

Mas a produção de verdade dessa literatura ficou nas mãos justamente das pessoas da "sociedade civilizada" londrina e parisiense (e alemã, com seus poemas onde mortos buscam donzelas indefesas no além-túmulo, mas vamos focar apenas em Inglaterra e França por um momento).

Então, existiram muitas lendas de lobisomens na Inglaterra, correto? Errado, caros amigos, pelo menos é o que nos conta O Livro dos Lobisomens, de Sabine Baring-Gould. Agora vamos lá: o Sabine era um padre anglicano que viveu no século XIX. Antiquário, ele colhia histórias por aí. E aí ele escreveu um livro reunindo vários folclores de lobisomens. Excelente, né? Apesar da minha pesquisa mais extensa ser concentrada em vampiros, os lobisomens compartilham uma ou duas coisinhas com eles, então eu fui atrás desse livro, e essa maravilha tem uma edição traduzida, lançada pela Aleph em 2008, com tradução de Ronald Klymse. 

Sabine, que além de lobisomens pesquisava danças e músicas folclóricas. Vejam suas feições animadas. 

No livro, o Sabine narra a longa história dos nossos peludinhos favoritos. Mas o que me chamou a atenção dessa vez foi o parco capítulo sobre a Inglaterra. Nele, Sabine conta que a Inglaterra não teve muito folclore envolvendo lobos, canibalismos, essas coisas todas, porque a maioria dos lobos foi morta pelos anglo-saxões quando eles chegaram àquela terra. Tanto que, no folclore inglês, bruxas frequentemente se transformam em lebres e gatos, não em lobos, o que era mais comum em outras partes. (Estou falando da Inglaterra em si, não da Grã-Bretanha. A Escócia, o País de Gales e a Irlanda [que não está na Grã-Bretanha, mas vocês entenderam] não faz parte dessa coisa de morte aos lobos.)

Houve um período de julgamento de bruxas que ficou conhecido como "werewolf witch trials" (julgamento de bruxas lobisomens, ou algo assim) porque uma coisa levou a outra na cabeça daquela galera. Na mesma época em que as bruxas eram caçadas, surgiram muitas histórias de transformações em lobisomens. Bruxas, constantemente, eram "avistadas" montadas em lobos (e cabras, também, mais comumente). Mas isso aconteceu em somente uma parte da Europa. Na Inglaterra, até onde se tem notícias, não. 

Se você assistir A Bruxa de novo, vai ver que a lebre é o animal mais ligado a ela. Lobos, não. Não apenas pela falta de lobos nos Estados Unidos, mas principalmente porque aquelas pessoas no filme de Eggers eram puritanas, eram colonos. Eles vieram da Inglaterra. 


Agora eu retorno a Shakespeare. Como comentei, sem me aprofundar, Shylock era um judeu constantemente comparado aos lobos por suas piores características. Ligando esse querido ao Drácula, de pouco mais de 300 anos depois de O Mercador de Veneza, o Conde é ligado ao vampirismo (objetivamente dessa vez; não apenas uma comparação, ele É um vampiro) utilizando todas as suas piores qualidades e sendo um cara estrangeiro. É no mínimo curioso, vai me dizer?

O horror tem essa característica inerente de lidar com nossos piores medos, individuais e de sociedade, utilizando essas figuras para explicá-los e dar uma cara a eles, e isso para o bem ou para o mal. Sabine fala sobre isso em O Livro dos Lobisomens, e o cara, no século XIX, consegue ser muito direto sobre a questão:

Deve-se observar que a principal sede da licantropia foi a Arcádia, e a causa disso foi atribuída, muito plausivelmente, a uma circunstância específica: os nativos de lá eram um povo pastoral, e por consequência sofriam muito intensamente com os ataque e as depredações dos lobos.

Shakespeare não é terror, mas ele fez isso incontáveis vezes. O fantasma do pai de Hamlet que o avisa que tem algo muito errado acontecendo, dando uma explicação sobrenatural para algo que psicologicamente, em seu coração, ele já sabia. As bruxas de Macbeth que o avisam que o pau vai torar logo menos, algo que já estava com ele, mas que ele precisou de um empurrãozinho sobrenatural para dar vazão. Os lobisomens, os vampiros, bruxa, fantasmas e outras criaturas, como as fadas, os changelings e afins, cumprem esse papel em muita literatura (e oralidade) dos séculos passados: são rostos que podem ser perseguidos. Você atribui sobrenaturalidade para um problema real que você muitas vezes não consegue explicar, dados seus devidos contextos.

A Inglaterra foi um berço muito prolífico para muitas dessas figuras na literatura mais moderna. King comenta sobre os três grandes arquétipos do terror: o monstro, o vampiro, e o lobisomem. Os maiores representantes desses três vieram da ficção inglesa (Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro). Nós bebemos muito dessa tradição para criar o que hoje sabemos sobre terror. Os tentáculos do imperialismo inglês tiveram muitos desdobramentos, incluindo nosso gênero favorito.

Retorno a pergunta sobre os lobisomens em Londres: retroalimentação? A chamada "câmara de eco cultural", que King comenta em Dança Macabra? Pura coincidência? Enfim, isso é um texto mais de reflexão do que de resposta. Não tenho respostas. Às vezes eu gosto de escrever alguns pensamentos malucos pra poder abrir espaço no meu cérebro e pensar em outras coisas (por exemplo, meu fascínio agora é com os direitos autorais do Ursinho Pooh e o Poohniverso, e como a nova tendência para esses filmes ultraviolentos, tipo Terrifier, ecoa as obras de torture porn dos anos 2000, mas isso fica pra outra hora).

A maior questão que fica é: os lobisomens habitam os prados ingleses ou foram esquecidos?

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Não foi por demanda popular — a não ser que contemos as vozes da minha cabeça —, mas eu voltei. 

Passei muitos meses longe da minha casa na internet, mas estava com saudade de escrever bobagens longas por aqui. Só as bobagens curtas (e obrigatoriamente acompanhadas de imagens) no instagram não eram suficientes. Eu precisava de um lugar para expor meus pensamentos (nem sempre bons) e meus sentimentos (nem sempre com sentido). Então recuperei esse lugarejo aqui, hoje uma cidade fantasma, mas que já foi polo de muita produção divertida.

E voltei com a alegria da não obrigatoriedade e sem um domínio, ou seja: isso não é mais uma locação por cnpj, estou aqui somente como cpf. 

Não esperem também que o blog volte com o mesmo formato de antes. Eu voltei para escrever sobre minha relação com o terror, textos esporádicos e quando eu tiver vontade. Só uma diversão de vez em quando, pra falar de algumas obsessões — como os livros da Anne Rice, as séries ruins adaptadas dos livros da Anne Rice, e coisas desse tipo. :)

Pensem nisso como o O Novo Pesadelo - O Retorno de Freddy Krueger. Muito meta, até muito bobo, mas fruto do meu conhecimento (que é bem mediano) e do meu mais profundo sentimento de amor pelo gênero (que hiberna por meses, às vezes, mas resiste firme e forte).

É ótimo estar em casa, mesmo que ela esteja com algumas paredes demolidas.


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Lendo textos e ensaios e livros sobre a história do terror (na literatura e no cinema), é impossível, praticamente, não encontrar menções ao livro Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson. Considerado um dos grandes clássicos do gênero do século XX, o livro inspirou uma série de outros autores e de tendências nos anos após seu lançamento. 

Quando tive que escolher um livro apocalíptico para o Desafio Fright das 5 às 7 de junho, eu logo pensei nele. Como vocês, fiéis seguidores, podem ter percebido, tenho escrito pouco aqui, porque, na verdade, tenho lido pouco. Tenho dormido mais cedo e lido menos, então pensei em escolher um livro que já estava há muitos anos na minha lista de leitura e que ainda não tinha tido a oportunidade.

Eu sou a Lenda (li na edição da Aleph, com tradução de Delfin) conta a história de Robert Neville, um homem que se vê sobrevivendo sozinho em um mundo assolado por uma praga que transformou a todos em mortos-vivos vampiros. Ao longo do livro, através da narração em terceira pessoa, descobrimos aos poucos o que aconteceu com o mundo que o fez chegar a esse ponto, como são esses vampiros, quais são suas características especiais e o que faz deles uma ameaça tão potente. 

Neville era um cara que tinha esposa, tinha uma filhinha, e tudo lhe foi tomado por essa terrível realidade que se abateu sobre ele. Nós acompanhamos o dia a dia de um homem alquebrado, mas espantosamente são (apesar de seus momentos de devaneios e raiva), visto que por muito menos outros teriam perdido completamente a cabeça (eu teria).


A narrativa de Eu Sou a Lenda também não pega leve com Neville. Ele não é exatamente um cara legal, ótimo, boa pinta. Ele é um cara que tem seus defeitos (e vários) e isso fica muito claro pela forma como ele pensa nas mulheres e seu instinto sexual diante de estar sozinho no mundo, na forma como ele lida com determinadas situações, na forma como ele se sente quando está completamente sozinho e afunda a cara na bebida. 

Se isso é bom ou ruim, aí vai do leitor. Mas é interessante ver como isso é colocado ao longo da história. Para mim, o fato de ele ser um cara extremamente humano diante de uma situação tão catastrófica e essas sensações extremamente humanas dele serem expostas da forma que estão conforme avançamos no livro deixa as coisas ainda mais críveis.

Em um mundo de horror monótono, não podia haver salvação, nem nos sonhos mais loucos. Ao horror, ele se ajustou.

Um dos pontos altos do livro de Matheson, para mim, foi o desespero que emana repetidamente dessas páginas. O começo é morno, mas conforme avançamos em direção ao final nosso próprio desânimo enquanto leitores, pessoas que acompanham essa história, aumenta junto ao do personagem. Há uma situação mais ou menos no meio do livro que leva esse sentimento doloroso ao ápice para que, no final, a gente solte um suspiro pesado de terror que ficou entalado na garganta desde aquele momento.

É bacana acompanhar essa derrocada. É uma descida ladeira abaixo com uma sensação de vazio constante que preenche a gente. É, um vazio que preenche, sim. A gente fica meio desacreditado, mas completamente ciente daquilo tudo. E uma coisa que o Matheson coloca ao longo da narrativa, mais de uma vez aliás, é essa capacidade do ser humano de se adaptar a quase qualquer coisa, por pior que seja. 

É bastante deprimente, sim, mas muito crível. Não crível do tipo "meu deus, os vampiros vão dominar o mundo". Mas crível do tipo "caramba, os seres humanos podem sim ser, e sempre que tiverem a chance serão, horríveis".

Não quero dar spoilers, mas também preciso mencionar que adorei a forma como ele quis lidar com a tradição dos vampiros. Nessa realidade de Eu Sou a Lenda, as histórias de vampiros existem. Ele cita Drácula e alguns outros, e essas histórias chegam a auxiliar nosso protagonista a entender o que pode estar acontecendo. Mas, na verdade, é tudo extremamente científico. É um toque bem bacana.

Conforme os anos se passam eu fico mais interessada de ler algumas dessas histórias. Talvez, se eu tivesse lido esse livro há alguns anos, eu não teria gostado dele tanto quanto gostei hoje. Então acho que meu instinto de dar tempo ao tempo tem sido muito útil para mim.

Ainda não assisti o filme com o Will Smith de 2007. Na verdade, só vi a adaptação com o Vincent Price. Queria ter assistido ambas antes de fazer o texto, mas não tive tempo (passei meu final de semana inteiro assistindo Terrifier), então esse complemento vai ter que ficar para outra hora. Mas foi uma leitura que eu gostei bastante de fazer, e finalmente posso tirar esse livro da minha lista de leitura.

Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, está disponível na Amazon* em formato físico ou ebook.



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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
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Em junho do ano passado li Rinha de Galos, da María Fernanda Ampuero. Foi meu primeiro contato com a literatura da autora, que já tinha sido extremamente recomendada para mim. Comentei algumas vezes aqui no blog do quanto gosto da literatura da América Latina, principalmente da escrita por mulheres, então é claro que assim que me foi possível eu fui atrás de Rinha de Galos.

O livro é um chute na cara e um soco no estômago extremamente bem dados. Falei um pouco dessa leitura aqui no blog. Então, quando a Editora Moinhos trouxe outro livro da autora, Sacrifícios Humanos, eu logo adicionei na minha lista. Aproveitei para lê-lo esse mês, no Desafio do Conforto Literário, que organizei com a Michelle e estou participando desde janeiro.


 Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero (Editora Moinhos, com tradução de Silvia Massimini Felix), é, assim como Rinha de Galos, uma antologia de contos curtos, com 12 contos no total. O livro, também, é bem curtinho, com menos de 120 páginas, mas passa na sua vida como um furacão dos mais potentes.

Ao longo dos contos nos deparamos com histórias dramáticas e cruéis, histórias de violência e horror, de imigração e de raízes e tradição, de mulheres que caem nas histórias de homens que, logo em seguida, lhes mostram a verdadeira face. De trabalhadores e trabalhadoras e sofrimento e suor e sangue. Há também uma certa inocência e ironia em algumas personagens dos contos.

Mulheres desesperadas são a carne da moenda. Nós, imigrantes, além disso, somos os ossos que trituram para que os animais comam.

A maioria das histórias reunidas em Sacrifícios Humanos se apoia no dia a dia, na humanidade e na sua própria podridão mas há uma inclinação sobrenatural em alguns deles, como em "Irmãzinha" e "Sacrifícios". Mas isso é apenas um pequeno artifício para o terror palpável, para o terror de carne e osso que se esconde nas narrativas de Ampuero.

Meus contos favoritos do livro foram "Biografia", "Irmãzinha" e "Invasões". Senti que Sacrifícios acaba sendo "mais leve" que Rinha de Galos, ainda que ambos tenham leituras pesadíssimas. Mas, de alguma forma, mesmo que ambos falem dos mesmos temas, a leitura me pareceu menos tenebrosa. Como comentei na resenha do outro livro, em que eu tive que parar vários momentos para consertar meu rosto, que estava retorcido de nojo, esse eu não tive tantos momentos assim.


Me pareceu que a violência aqui era muito mais direta, muito mais mundana. Não era tão absurdo como Rinha. Como assistir a um noticiário, sabe? Não é apatia, é só que você meio que conhece algumas daquelas histórias, você espera que elas se desenrolem da forma que se desenrolam. E isso não é uma crítica negativa. Ver certas narrativas de abusos e horror narradas dessa forma, no livro, expõe diversos sentimentos nossos, todos de uma vez. Sabemos que são histórias de ficção, mas são histórias que poderiam ser reais (e que acabam sendo, em diversos lugares), e isso sempre mexe muito com a minha cabeça.

Eu acho que se eu fosse recomendar um livro para começar a ler María Fernanda Ampuero, seria esse aqui. E, depois, seguir com Rinha de Galos. Acho que funciona bem, ainda mais para quem não está acostumado com a literatura absurda e estranha da América Latina.

Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero, pode ser comprado em formato físico ou ebook na Amazon* ou no site da Editora Moinhos.

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Afinal, o que é um cientista fascinado pelo poder dando à vida uma Criatura a partir do zero perto da total e completa maldade e preconceito do ser humano?

Perdi as contas de quantas vezes li e reli Frankenstein, de Mary Shelley. A ocasião mais recente foi a trabalho. Parece que todas as vezes que leio esse livro eu saio dele com uma coisa nova no coração. A grandeza dos detalhes, a forma como Mary inseriu tantas referências de sua vida ao longo da narrativa que escreveu tão jovem — isso, por si só, um enorme feito, seja hoje em dia, seja em 1816. 

Frankenstein é um dos meus livros favoritos não por acaso. Acho que ele tem uma alma tão profunda, tão decente, tão honesta e ainda assim tão simples, que faz dele mais do que completo: para mim (e para muitos, ainda bem) ele é uma obra-prima de primeira qualidade. Uma das maiores criações humanas, um dos maiores elogios ao ato de saber ler e poder encontrar razão (e um sem-número de emoções) em suas linhas.

Uma coisa que nunca muda, para mim, desde a primeira vez que li esse livro, há alguns anos, é a forma como a Criatura é um ser incompreendido. Abandonado e solitário, a Criatura de Frankenstein é um dos maiores exemplos de como o ambiente e os agentes externos podem alquebrar uma alma, transformar o coração. 

Como uma jovem com tão pouca idade conseguiu expressar em palavras como é se sentir extremamente só, abandonado e desiludido? Se sentir completamente diferente de todos os seus pares, mesmo que eles não fossem iguais a eles, transformando-o em um pária antes mesmo que ele tivesse seus arroubos violentos contra seu criador?

Talvez ela mesma tenha passado por situações em que se sentiu um espírito forasteiro. A história de Mary Shelley é cheia de detalhes tristes, onde ela teve que se diminuir tantas e tantas vezes para caber em lugares menores. Filha de dois gênios da literatura política do final do século XVIII, não digo que ela estava fadada ao sucesso, ou que grandes coisas esperavam por ela. Mas como caber em lugares tão pequenos quando se tem uma alma, um espírito e uma vida tão grandes?

O que eu tiro dessa centésima leitura de Frankenstein, dessa vez, é como a solidão e o abandono são alguns dos verdadeiros horrores que encontramos nessas páginas. 

A narrativa já se inicia com as cartas de Walton contando à sua irmã, Margareth, como este se sente sozinho e como deseja, ardentemente, um companheiro a quem dividir seus momentos felizes e seus momentos tristes. Em sua empreitada pela glória, em um experimento científico que espelha, de certa forma, o do próprio Victor Frankenstein, Walton se encontra solitário. 

Victor, também, ao se encontrar com Walton, se sente solitário, mas por motivos mais complexos. Através do remorso e da miséria que sente em seu coração por ter criado algo tão sacrílego quanto uma Criatura a partir do zero, longe das concepções aceitas por Deus e pela sociedade de dar à vida, Victor se afasta da convivência. Primeiro, se tranca em seu quarto ao longo de seus estudos; em seguida, retornando para a casa de seus parentes, passa três dias, já se avizinhando de sua cidade natal, para ficar sozinho. Quando acontece o incidente de Justine, novamente Victor se recolhe à solidão.

Mas quem mais sofre com a solidão e com o abandono, sem ter escolhido por isso, é a própria Criatura.

Yet mine shall not be the submission of abject slavery. I will revenge my injuries; if I cannot inspire love, I will cause fear.

A solidão da Criatura, entretanto, vem de um lugar completamente diferente da solidão sentida por Walton e Victor. Enquanto os dois, jovens que sonham (e já sonharam, antes) em buscar a grandeza, se sentem sozinhos um por se estimar demais, e outro por se estimar de menos, a Criatura é só porque lhe foi negada qualquer tipo de companhia. Longe de ser um estado que escolheu, ele está ali por imposição.

Walton acredita piamente, como podemos ler através de suas cartas, que os marinheiros que ele escolheu (e alguns até que levou até a morte) não eram dignos de sua amizade. Pessoas simples, até rudes, são meros servos em sua empreitada. Victor, por outro lado, desde que começou sua investigação sobre como fazer vida através do que já está morto, se colocou no lugar de solidão por pura comiseração que sente por si mesmo. Pobre Victor, o jovem rico que, graças a atitudes irresponsáveis, agora se vê seguido por aquilo que não deveria ter feito. 

A Criatura, ao contrário, sonha em ter companhia. Qualquer uma. Ele procura incansavelmente qualquer companhia que possa lhe querer. Vaga por diversos lugares, sendo maltratado e escorraçado por onde quer que passe. Ele só quer alguém para ter com quem aproveitar a vida, que ele, que a ganhou de forma tão a contragosto, acha maravilhosa. 

E desse sentimento de solidão da Criatura nasce sua revolta. Novamente, se comparado a Walton ou a Victor, a Criatura é muito mais humana. Walton e Victor, ao se negarem essa companhia, essa amizade, caem em um lugar de autopiedade que, às vezes, soa ridícula aos ouvidos. Não querem compartilhar seus fardos e suas alegrias com seus iguais, os dois por seus próprios motivos, mas se sentem os seres mais tristes que já pisaram na Terra. 

Enquanto isso, a Criatura é acusada de ser um monstro vil e perigoso. Culpado dos maiores ultrajes (até daqueles que ele não fez), o que resta a ele a não ser pedir uma igual, para que possa ter, também, qualquer um para desfrutar da companhia? E até isso lhe é negado, porque Victor acredita firmemente, desconhecendo completamente aquilo que criou, que a Criatura é realmente um poço de destruição. E é desse lugar que nasce a raiva mais profunda da Criatura. É aqui, também, que a solidão dos três fica tão evidentemente diferente.

Am I to be thought the only criminal, when all humankind sinned against me? (...) I, the miserable and the abandoned, am an abortion, to be spurned at, and kicked, and trampled on. Even now my blood boils at the recollection of this injustice.

Ao longo dos anos, Frankenstein foi interpretado (e reinterpretado e utilizado) de diversas formas. Em sua primeira e mais óbvia camada, vemos uma história de um homem inebriado por poder, que lida com coisas que não deve, e acaba criando um "monstro terrível". Em suas camadas mais profundas, porém, existem tantos temas e detalhes, tantas pequenas belezas e situações aterrorizantes, que poderia gerar conversas por mais quatrocentos anos. Frankenstein, assim, também se torna atemporal. 

Ao longo de sua vida, Mary também se sentiu sozinha diversas vezes. Não por escolha, na maior parte delas. Quando se casou com Percy, por mais feliz que estivesse, Mary foi atirada porta a fora de sua própria casa por seu pai. Ao longo dos anos, com as aventuras do marido e falta de dinheiro, Mary também deve ter sentido o peso da solidão sobre os ombros algumas vezes. E, aos poucos, foi perdendo aqueles que eram mais caros a ela: filhos que não nasceram, ou que nasceram mortos, ou que morreram pouco tempo depois, irmã, Percy, amigos.  

Não posso dizer com certeza que tudo que Mary escreveu em Frankenstein foi totalmente premeditado, se minha leitura dessa solidão que toma as páginas do livro é algo que eu mesma quis ver, que me saltou aos olhos, em um momento em que eu me sinto solitária. Entretanto, se eu pudesse me encontrar com a Mary Shelley uma única vez, eu perguntaria a ela se sua criação monstruosa lhe trouxe algum tipo de acalento. Se ela deixou, pelo menos um pouco, de se sentir sozinha.

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O que acontece quando um cara entendido de terror se propõe a fazer um filme com diversos elementos e características de casas assombradas, reunidos em um único lugar?

Rose Red é uma minissérie de 2002, escrita por Stephen King e dirigida por Craig R. Baxley. Diferente da maioria esmagadora de outras obras do King, essa aqui não foi adaptada de um livro do autor (não confundir com Rose Madder, que não tem nada a ver com essa história). Rose Red é, na verdade, criada especialmente para as telas. 

Isso tem uma história por trás: dizem por aí que King queria fazer um remake de Desafio do Além, lançado em 1963 e dirigido por Robert Wise, que adapta o livro Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. King é um grande fã de Jackson, então apresentou a ideia para o Spielberg. Ninguém sabe bem o que houve, mas o Spielberg não se interessou muito. Não sabemos se era porque ele estava em outra vibe ou o que aconteceu. O roteiro do King ficou guardado, e três anos depois da Dark Castle surgiu com A Casa Amaldiçoada, dirigido pelo grande Jan de Bont que errou demais a mão nessa farofa.

Aí, em 2002, King apareceu com Rose Red. Na história, a mansão amaldiçoada Rose Red foi construída no centro de Seattle como presente de casamento de John Rimbauer para sua esposa Ellen. Desde cedo a casa era bastante estranha, tudo bem, mas as coisas começaram a piorar com os anos: os homens eram mortos pela casa, e as mulheres desapareciam. Em uma atividade semelhante à da casa Winchester, Ellen começou a construir quartos em Rose Red. Quando Ellen morreu, a casa começou a se construir sozinha.

Muitos anos depois, a professora de psicologia dra. Joyce Reardon (Nancy Travis) reúne um grupo de paranormais para irem até Rose Red. A casa está adormecida, afirma ela, então não há perigo para aqueles que aceitarem ir. Ela promete um pagamento de $5 mil dólares para cada um deles, e ca\da um deles tem um talento especial: Emery Waterman (Matt Ross), um vidente com retrocognição que consegue ver espíritos; Nick Hardaway (Julian Sands), um telepata poderosíssimo; Pam Asbury (Emily Deschanel), que tem habilidades psicométricas e, quando toca em algo, consegue sentir as vibrações e estados pelos quais o objeto ou pessoa passou; Cathy Kramer (Judith Ivey), que tem habilidades de psicografia; e Victor Kandinsky (Kevin Tighe), que tem precognição. O grupo é quase como os Vingadores dos médiuns. 


Mas Joyce está interessada particularmente em uma outra pessoa: Annie Wheaton (Kimberly J. Brown), uma adolescente com poderes que deixa todos os outros médiuns no chinelo. Depois de muito insistir e de oferecer ainda mais dinheiro a ela, sua irmã, Rachel (Melanie Lynskey), aceita levá-la para o experimento em Red Rose.

Além desse grupo no mínimo excêntrico, está também Steven Rimbauer (Matt Keeslar), único herdeiro da família Rimbauer e atual proprietário da mansão Rose Red.

Se você tem algum contato com histórias clássicas de casas assombradas (principalmente aquelas feitas ali pelos anos 1960 e 1970) e/ou com as histórias do Stephen King, você deve imaginar que as coisas aqui não terminam muito bem para uma parte dos envolvidos. Joyce é, na verdade, uma mulher que tem perseguido a fama e quer, a todo custo, volta a fazer sucesso. Os membros de sua comitiva mediúnica são somente peões em seus vontades. E isso fica claro a nós desde muito cedo no filme. 

Mas o ponto alto da trama não está em seus personagens, infelizmente. King consegue criar personagens cativantes sempre, ao mesmo tempo que consegue criar aqueles personagens que a gente tem vontade de dar um chute no traseiro, é verdade (mesmo com todos os tropos que o autor segue em seus personagens, que eu já mencionei no texto de Joyland); mas aqui, em Rose Red, eu acho que o grande e maior triunfo de King é em sua casa assombrada, a própria Rose Red.

Dentre as casas assombradas, a mais assombrada

Uma das coisas que eu mais gosto no Stephen King é a forma como ele conhece o terror, independente que eu concorde com as opiniões dele ou não. Já contei algumas vezes que comecei a ler King com os livros de não ficção dele, e acho que isso pesou demais em delinear minhas coisas favoritas no autor. Então, quando vejo pequenas referências, quando entendo de onde ele tirou suas inspirações e, principalmente, quando ele faz uso e até subverte alguns tropos clássicos do gênero, eu fico encantada.

Talvez por isso Salem's Lot seja meu livro favorito dele. Mas isso é tema pra outro texto. 

O ponto aqui é que o King conhece casas assombradas, e Rose Red é um enorme reflexo disso.


A começar pela ideia de reunir um grupo paranormal e ir até um local assombrado. Durante os anos 1960 e 1970 (alguns anos para mais, alguns para menos), onde alguns dos maiores clássicos do gênero foram feitos, a citar Assombração da Casa da Colina (1959), Hell House (1971) e Golgotha Falls (1984), a parapsicologia estava em alta. Seja pelo envolvimento de Lorraine e Ed Warren em suas peregrinações assombradas pelos Estados Unidos, seja pelos casos de possessão que estavam pipocando mais que nunca em diversos lugares (Enfield, Amityville, o caso de Anneliese Michel e até mesmo o surgimento do livro O Exorcista, que narra uma experiência do final dos anos 1950 mas vê a luz e a popularidade nos anos 1970), o fato é que a parapsicologia ficou um tempo na moda. E, nessa, a literatura e até mesmo o cinema se aproveitaram para colocar grupos liderados por algum parapsicólogo para investigar fenômenos paranormais em locais assombrados.

E, é claro, aí temos a casa. Rose Red é uma força sobrenatural por si mesma. Ela é o amálgama de todas as casas assombradas que Stephen King consumiu avidamente ao longo dos anos e resultado de uma extensa pesquisa, isso é notado facilmente. Cenas que espelham esses romances consagrados que citei, além de referências óbvias como Shirley Jackson mencionada por um dos personagens e a casa Winchester, sempre com novos quartos, só comprovam que Rose Red é quase um parque de diversões para os fãs de terror: ela é o conjunto da obra, a casa assombrada final.


Se Rose Red tivesse tido um pouco mais de investimento, talvez uma mão mais firme na direção, um pouco mais de cuidado na produção e um roteiro mais limpo, ela poderia ser a maior casa assombrada de Stephen King — quiçá competindo diretamente com as maiores casas assombradas do terror.

Rose Red poderia ser ainda mais assustadora que o Overlook.

Para mim, a força de O Iluminado reside principalmente na ligação de Torrance com a bebida, e como isso o transformou em uma pessoa aberta aos horrores do Overlook. Um local assombrado, sim, mas mais ainda para aqueles que eram suscetíveis a ele. Muitas coisas horríveis aconteceram ali, como bem sabemos através do livro, e como, imagino, muitos fãs adorariam saber mais sobre o passado do hotel horripilante. Overlook tem seus fantasmas e é uma construção aterrorizante, com suas vontades próprias. Mas, e apesar de tudo, o Overlook é menos vivo, por assim dizer, do que uma Casa da Colina, ou uma Hell House. 

Diferente de Rose Red. 

Rose Red se constrói e desconstrói a seu bel prazer. Mais fascinante e perigosa (e com mais graduações na arquitetura e construção civil) do que a Casa Winchester, Rose Red se sobressai entre as casas mais perigosas da ficção.


Por que, então, ela falhou tanto em se fixar no imaginário dos fãs?

Infelizmente, pelos motivos citados anteriormente: sendo uma obra criada somente para as telas, eu tenho para mim que o roteiro não ficou da forma como poderia ter sido com as mãos do King em uma narrativa longa, por exemplo. Isso, é claro, é só especulação. Mas sinto que essa casa tinha um potencial absurdo, que ela poderia ser muito mais do que foi. A história da sua criação poderia e deveria ter sido melhor construída, seus fantasmas poderiam ser muito mais aterrorizantes com um carinho a mais pelo roteiro. 

Com a falta (ou mesmo a preguiça de detalhar, talvez) desses personagens base, desse background da história, dos motivos que levaram a casa até ali, a história se torna vazia. Independente do esforço para criar essa mansão assustadora, que pode fazer um milhão de coisas, como construir quartos e sumir pessoas, ela acaba perdendo sua força. 

Rose Red é um filme até chato de achar (mas tem no youtube do Cine Antiqua). Não é ruim, mas não é bom. Fica ali no eterno meio termo do que poderia ter sido, mas não foi. O que é uma pena. Rose Red é uma casa assombrada das mais interessantes, mas duvido que veremos mais dela, com uma melhor construção ou um melhor pano de fundo.


Observação post scriptum: há, sim, um livro sobre Rose Red. O livro se chama The Diary of Ellen Rimbauer: My Life at Rose Red, e foi escrito por Ridley Pearson, utilizando o pseudônimo da doutora Joyce. Houve uma adaptação mais tarde, em 2013. Mas não aumenta muito o lore principal da coisa toda. E, tecnicamente, não é do King, então não sei até que ponto podemos considerar canônico. 

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A Silvia Moreno-Garcia é uma das grandes autoras da atualidade quando falamos de horror e assuntos afins, e tem feito um sucesso considerável entre os fãs de histórias de mistério. Seu primeiro livro publicado em português, Gótico Mexicano, conta a história sobre uma jovem que viaja ao interior do México, para resgatar uma prima que está em um relacionamento fadado ao fracasso. 

É uma leitura tensa e cheia de características sobrenaturais e estranhas que torna a leitura um prato cheio. O repertório de Moreno-Garcia, quando falamos de terror, é excelente. Além disso, as origens latinas da autora aparecem em suas histórias e isso deixa tudo mais interessante. 

Este ano, a Editora Melhoramentos trouxe a tradução de um dos livros mais recentes de Moreno-Garcia, A Filha do Doutor Moreau (com tradução de Bruna Miranda) e carinhosamente me enviou o livro para resenha. Fiquei muito feliz com o envio, e agradeço muito a Editora Melhoramentos. 

Primeiro contexto: literário

Li A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells (na tradução de Laurent de Saes e na edição da Via Leitura) ano passado, alguns meses depois do lançamento do livro da Silvia. Já era um livro que eu queria ler há muito tempo, mas até então tinha adiado essa leitura. É um daqueles projetos que a gente inventa e que nunca consegue cumprir, do tipo "nossa, precisava ler mais coisas do H. G. Wells". Um dia vai dar certo.

Em A Ilha do Doutor Moreau, um náufrago acaba sendo resgatado por um navio onde conhece um homem estranho, chamado Montgomery, que tenta ajudá-lo mas se nega a dar abrigo a ele. Sem ter lugar pra onde ir e sem conseguir nenhum tipo de carona para o continente, esse náufrago vai parar na ilha para onde Montgomery está indo — muito a contragosto de Monty, devemos admitir. E logo a gente descobre o motivo: Montgomery trabalha para Dr. Moreau, um homem ainda mais estranho e isolado do mundo, e que faz experiências, criando híbridos de homens e animais.

O Dr. Moreau é um baita megalomaníaco que acha que a ciência pode explicar tudo e por ela vale tudo. Existem poucas pessoas vivendo na ilha, porque além de tudo ele é paranoico. Montgomery é seu braço direito e faz o trabalho sujo por ele. Um cara bem pocas ideias mesmo.

Nosso náufrago se vê em uma situação complicada quando começa a conviver com esse cenário, essas criaturas, e esses dois homens tão diferentes mas que carregam seus próprios demônios sobre os ombros. 

A releitura

Já em A Filha do Doutor Moreau, de Silvia Moreno-Garcia, as coisas são um pouco diferentes: Vivendo em um local isolado no México, em Yaxaktun, que fica em Iucatã, Carlota Moreau passa seus dias convivendo com seus amigos, Lupe e Cachito, com Ramona, uma mulher que vive na casa e lida com várias questões, para além da cozinha, e com seu pai, Dr. Moreau. Após a demissão de seu antigo ajudante, Moreau precisa de um novo trabalhador em sua propriedade. Montgomery chega até ele apresentado pelo sr. Lizalde, dono da propriedade. 

A propriedade de Yaxaktun é cedida a Moreau por Lizalde para que o homem faça seus experimentos longe de sua terra natal, Paris, pois as pessoas lá não reconheciam seus ideais científicos e ficavam alarmadas quanto a suas experiências. Então, em recompensa, Moreau realiza seus experimentos para Lizalde afirmando que irá recompensá-lo com o que ele precisa: trabalhadores.

E é aí que entra Montgomery e os híbridos. O experimento de Moreau nada mais é do que misturar os genes humanos e animais e criar criaturas a partir disso. Sua propriedade que, para o restante das pessoas, é um hospital para tuberculosos, na realidade é o centro científico de uma tarefa insana. 

Quando Montgomery chega ao local ele logo percebe a estranheza disso tudo, mas uma antiga dívida faz com que ele aceite o trabalho. Montgomery é um cara inglês, que viajou para as Honduras Britânicas atrás de serviço depois de ser abandonado pela esposa e do suicídio da irmã. Lá, ele ficou conhecido após um incidente em que esteve caçando uma onça. Gastando o que tinha e o que não tinha com bebida, acabou caindo nas (des)graças do jogo e devendo uma fortuna. Lizalde comprou sua dívida e, a partir desse momento, Monty trabalharia para onde ele o mandasse. 

A primeira parte do livro se passa em 1871, e a segunda e terceira em 1877, seis anos depois. Na primeira parte Carlota tem cerca de 14 anos, e na segunda próxima dos 20. Monty deve ter ali por volta dos 30, não sei dizer exatamente apesar de me recordar que, em algum momento, ele diga a idade dele. 

O grande ponto de ruptura do que se acredita ser uma vida pacífica em Yaxaktun se concentra na chegada de algumas pessoas estranhas: o filho de Lizalde, Eduardo, e seu primo, Isidro, com alguns homens, enquanto caçam indígenas que fugiram do trabalho escravizado que vinham realizando. Esses indígenas são considerados perigosos pelos herdeiros de Lizalde. Mas logo que veem Carlota, eles desistem das ideias de caça e se interessam pela moça.

Daí em diante, temos diversos pequenos problemas: a descoberta dos híbridos por essas pessoas estranhas, a paixão de Carlota por Eduardo, e as ameaças que Moreau vem recebendo do dono da propriedade pela falta de resultados em sua pesquisa. 


Segundo contexto: histórico

Aqui eu preciso fazer um mea culpa e aceitar minha ignorância sobre a história mexicana. Sei pouco dos conflitos internos e externos daquela parte do continente, e apesar de ter planejado aprender mais, ainda não cheguei nessa parte do planejamento. Adoro estudar, mas como eu disse esses dias no twitter, sou uma mistura difícil de curiosidade, impulsividade e despreparo. Meus planejamentos sempre vão por água a baixo, ou demoram aí seus anos pra acontecerem.

Mas, na edição da Melhoramentos, há uma breve contextualização do que estava ocorrendo no México nesse momento e logo podemos entender como isso foi incorporado na história. Apesar de ficar um pouco óbvio, porque, na base, o que aconteceu no México não é tão diferente do que aconteceu no Brasil, eu sugiro que o leitor leia primeiro esse contexto histórico, em formato de posfácio na página 277.

Em um resumo muito rápido e sem a profundidade que eu gostaria de trazer: o México foi um território disputado desde sua invasão pelos espanhóis em 1518. Com ilhas e territórios cheios de matéria-prima, os espanhóis dizimaram uma quantidade aterrorizante de povos com doenças que, até então, a população local desconhecia. Mesmo depois da suposta "independência" mexicana, com muitas aspas, que aconteceu tecnicamente entre 1810 e 1821, as disputas territoriais continuaram, e as disputas políticas avançaram de forma destrambelhada.

Vou reproduzir abaixo dois parágrafos do posfácio do livro que ajudam a entender melhor o cenário em que ele se passa:

A Guerra das Castas de Iucatã começou em 1847 e durou mais de cinquenta anos. Os maias, povos originários da península, se rebelaram contra os mexicanos, os descendentes de europeus e a população miscigenada. 
Os motivos do conflito foram complexos e ligados a hostilidades de longa data. Os donos das terras expandiram suas haciendas para criar gado e cultivar açúcar. O povo maia era sua principal mão de obra, e os donos das terras tinham sistemas violentos e dívidas e castigos para controlá-los. Outros aspectos de tensão eram os impostos, assim como a violência e a discriminação contra os maias.

Essa parte da principal mão de obra é um dos pontos mais importantes do texto: é graças a isso que Lizalde quer uma mão de obra dócil, e vê nos experimentos de Moreau uma forma de conseguir força e falta de inteligência para manter suas haciendas trabalhando. 

Já Moreau, assim como no livro original, se baseia no princípio científico tão presente no século XIX (e XVIII, também) da criação da vida. Como a vida aparece? O que acontece para criar vida? Frankenstein é um excelente objeto de comparação. Ambas as histórias se apoiam em experimentos científicos reais, ideias que levaram a outros experimentos e assim por diante. A vida, e a fagulha do que se criava vida, era constante objeto de discussão entre rodinhas acadêmicas. 

O que achei do livro (sem spoiler)

Para começar, já quero dizer a você, leitor, que não tá muito afim de ler A Ilha do Doutor Moreau agora, mas que quer muito ler o novo livro da Silvia: tudo bem. A história é uma releitura, e as ligações com o livro original são sempre explicadas (os experimentos, etc). Não há, realmente, nada que você vá perder muito em relação a referências. As obras podem ser lidas de maneira independente. 

Se você já leu A Ilha do Doutor Moreau: eu acho que, pra mim, esse livro se encaixa como um prequel. Tem até uma parte no final que eu diria que é pra se encaixar nessa ideia, mas não vou dizer aqui. Caso alguém queira discutir o final comigo, favor entrar em contato ali no formulário, que eu vou adorar falar um pouco sobre minhas ideias. 

No geral, gostei bastante. É um livro que te prende, te dá vontade de conhecer mais, de saber aonde essa história está indo. Os personagens são interessantes. Eu gostaria de conhecer mais sobre os híbridos. Minha única reclamação é sobre um tipo de interesse que há entre Monty e Carlota (de Monty em Carlota, na verdade), pela diferença de idade entre eles. Mas gostei muito em como a autora transformou o personagem entre o livro clássico e esse. Ele se tornou muito mais humano e muito mais interessante do que o Wells o fez.


Tenho que dizer, também, que a adição do contexto histórico na história original, também, me deixou muito feliz. Eu não sou a maior fã de dramas e romances históricos, mas amo quando outros tipos de narrativas (principalmente terror e mistério) conseguem inserir esses elementos reais ao longo de suas histórias. Isso é, na verdade, um atrativo para mim. E gosto muito quando essas histórias clássicas são recontadas adicionando esses elementos.

A Carlota é uma garota meio ingênua e inocente, até irritante às vezes, mas eu desculpo isso pelo isolamento em que ela vive, sendo paparicada desde cedo pelo pai, com sentimentos conflitantes pelo mundo lá fora. No livro original não temos uma presença feminina, e adicionar uma filha nessa ideia toda de geração de híbridos, isolamento em uma fazenda destinada a pesquisas científicas e como isso é parte da personalidade da personagem também é um ponto extremamente positivo do livro.

Eu gosto muito de ler o que a Moreno-Garcia escreve, e tenho vontade de ler tudo dela, porque gosto das ideias. Mas acho que ainda não encontrei meu favorito dela. Um sentimento de "Adorei isso aqui, mas ainda não é meu favorito, e tenho certeza que vai ter um favorito que vai desbancar todas as leituras"? Estranho né, mas eu tenho essas coisas de vez em quando. Acho que há grandes chances de ser Silver Nitrate, o novo novíssimo que ela lançou esse ano, e que tenho expectativas enormes para ele. 

Agora, uma recomendação. Se você se interessa pela história do México como eu mas conhece pouco e gostaria de ler outras coisas nesse tema, eu não posso deixar de recomendar o excelente As Lembranças do Porvir, livro de realismo mágico de Elena Garro (mesmo que ela, em si, não gostasse muito dessa denominação). É um livro que se apoia fortemente no contexto político pós-década de 1920 no México, um livro triste mas interessantíssimo. Fiz uma resenha dele aqui no blog, caso vocês tenham curiosidade.
 
Tanto A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells, quanto A Filha do Doutor Moreau, de Silvia Moreno-Garcia, podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto em ebook. 

Gostaria de agradecer novamente o envio do exemplar à Editora Melhoramentos. Muito obrigada. 

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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
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Em 2021 eu estava numa vibe meio O Exorcista. Li o livro que deu origem ao filme, do William Peter Blatty; Li Exorcismo, do Thomas B. Allen, que é a história real por trás do caso que inspirou Blatty a escrever o livro, e assisti aos filmes da franquia. Quer dizer, o primeiro e o terceiro eu tenho certeza que vi — o quarto eu cochilei, não porque o filme estava ruim, mas gosto muito de cochilar no sofá enquanto alguma coisa passa, e eu estava cansada nesse dia. O segundo e o quinto acho que não assisti até hoje.

O ponto é, alguns anos depois, estou aqui novamente falando sobre Exorcista. Não exatamente sobre Exorcista, mas sobre Legião. Recebi esse livro esses tempos atrás, junto de O Dicionário dos Demônios, e esse mês foi o momento e pegar ele para ler. Ouvi ele me chamando da estante, e foi uma leitura muito bacana.

Lançado pela DarkSide com tradução de Eduardo Alves, Legião acompanha a história do Detetive Kinderman, enquanto ele investiga uma série de assassinatos. Com as mesmas assinaturas de um antigo caso em que Kinderman trabalhou, o homem acaba ficando transtornado com a possibilidade daquele assassino, chamado Geminiano, ter sobrevivido quando todos achavam que ele estava morto. Kinderman parte, então, em busca de desvendar esse mistério. 

O plot é bem simples e o livro se parece muito mais com uma narrativa policial tradicional do que um livro de terror em si, apesar dos elementos sobrenaturais que estão inseridos aqui e ali. Aqui, apesar do horror, as coisas giram em torno da tentativa de Kinderman de achar o culpado dos assassinatos. Gosto dessa coisa de misturar elementos de vários tipos de narrativa, e acho que o que o Blatty fez aqui foi bem legal.

O assassino Geminiano lembra bastante o Zodíaco. Não tanto por suas assinaturas e seu modus operandi, mas tem alguns detalhes ali que tornam as histórias parecidas. Sua primeira vítima nessa nova leva de matança é um garotinho, seguido por padres. E aqui o caldo entorna um pouco, e as maiores reviravoltas se dão por causa desse motivos. É aqui, também, que está a ligação com O Exorcista, e alguns personagens da história anterior aparecem aqui também.


A história guarda muitas surpresas. Eu li extremamente atenta cada virada de página, porque a cada momento tinha algo novo que poderia acontecer. Quando você pensa que sabe o caminho que o livro está tomando, acontece uma coisa que te deixa até meio desnorteado das ideias. Me pegou muito de surpresa mesmo. Apesar de ter assistido o filme que adapta a obra, me lembro de pouca coisa, e também não poderia dizer se é uma adaptação fiel ou não.

Acho que o Detetive Kinderman merece um parágrafo a parte. De início, suas filosofias e seus pensamentos sobre a maldade presente no mundo estavam me tirando um pouco a paciência. Pensamentos longos, discussões consigo mesmo sobre o papel de Deus, suas intenções e afins, eu estava mesmo de saco cheio. Mas, chegando ao final, acho que tudo valeu a pena. Faz sentido, e fiquei emocionada com os últimos acontecimentos do livro, principalmente as últimas linhas. Não achei que o livro fosse me pegar tanto, mas me pegou.

Legião é o terceiro livro na trilogia de Blatty chamada "Trilogia da Fé", que começa com O Exorcista, segue para A Nona Configuração e encerra com este aqui. Apesar de Legião e Exorcista dividirem alguns personagens, eu não posso afirmar que A Nona Configuração também tenha essa ligação. Ainda não li e ainda não assisti o filme. Mas soube que Blatty considerava que A Nona Configuração era a verdadeira sequência de O Exorcista. Depois de escrever o livro, ele mesmo dirigiu o filme. Em seguida, também dirigiu Legião. Se você quiser saber mais sobre isso, tem esse texto aqui. Eu não li inteiro porque queria evitar spoilers, então fica o aviso.

Quero tentar assistir os três filmes em sequência, depois que eu ler o segundo. Acho que vai ser interessante. Gosto das questões levantadas por Blatty, ainda que, às vezes, eu perca um pouco a paciência.

Os livros O Exorcista, A Nona Configuração e Legião de William Peter Blatty podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto digital.


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Há uma recomendação de que a gente não deve comprar livros (ou julgá-los, tá) pela capa. Eu não ligo tanto para recomendações ou ditados populares. Ainda mais depois de ver a capa de Não Toque No Gato, de Mary Stewart, lançado pelo Círculo do Livro (com tradução de A.B. Pinheiro de Lemos), e ser completamente arrebatada por ele. (A melhor curiosidade sobre essa capa, sem dúvida, é que ela foi usada também para uma edição de Amityville, do Jay Anson.)

Quando vi essa capa pensei "que horror! parece péssimo. vou comprar". A Michelle já tinha comprado, então comprei também e decidimos pagar para ver — eu, no caso, paguei 7 reais. Eu já tinha visto alguns exemplares dele em sebos por aí. Pode se pensar que um livro com tantos exemplares disponíveis no sebo, sendo da década de 1970, não fosse lá grandes coisas. Mas eu estava tremendamente enganada. Eu devorei o livro. É uma delícia de leitura. 

Na história, narrada em primeira pessoa, conhecemos Bryony Ashley, uma jovem de 22 anos que descende de uma antiga família que chegou à Inglaterra há muitos anos. No momento em que o livro começa, Bryony está morando e trabalhando em Portugal, enquanto seu pai, Jon Ashley, está hospedado em um hospital. Logo então Bryony recebe a notícia que seu pai está gravemente ferido.

Mas nossa personagem não recebe essa mensagem por meio convencionais, como um fax ou um telefonema (o livro se passa nos anos 1970). Não, ela recebe essa mensagem telepaticamente. É nesse ponto, logo no início da narrativa, que descobrimos que Bryony possui esse dom especial, herdado há gerações pela família Ashley. O ponto, entretanto, é que Bryony não faz ideia quem seja seu interlocutor, que fala com ela desde que ela era criança. O perigo!


Bryony desconfia que seja algum de seus primos, ou os gêmeos, James ou Emory, ou o mais novo, Francis. Todos cresceram juntos em Ashley Court, uma imensa propriedade que era de Jon Ashley. Ao lado deles, Rob Granger, que se tornou o zelador (e faz tudo) do local, as crianças cresceram e cada um seguiu para seu canto.

Com a morte de Jon, entretanto, por causa de um documento assinado há tantos anos antes, não é Bryony quem herda a propriedade, mas sim Emory, que é o rapaz mais velho na família. A propriedade está arrendada pra uma família norte-americana — que tem uma passagem rápida mas importante pela história. 

Intrigas, picuinhas familiares, tretas, romance, breguice, figuras encapuzadas, mistérios, registros alterados, uma carta no leito de morte que leva a mais mistérios, Romeu e Julieta, livros antigos, mansão velha e decadente tal qual a vida aristocrática inglesa já na década de 1970, e uma narrativa que se liga ao passado conforme é contada, um cheirinho de história gótica... Tudo que a gente mais gosta, reunidos em um só livro! Eu não conseguia parar de ler. Se não fosse uma pessoa responsável, eu teria passado pelo menos duas noites até a madrugada agarrada ao livro. Mas resisti, e consegui terminá-lo sem prejudicar meu sono.

O título do livro é um show a parte, e foi um detalhe que eu amei. Tem uma ligação profunda com a história sim, mas a parte que mais me chamou a atenção é que Stewart usou um lema real de um clã escocês das highlands, o clã Chattan (que é uma união de doze famílias), para inserir na história da família Ashley. No original, o lema é "Touch not the cat bot a glove", algo como "não toque no gato sem uma luva", que tem várias interpretações. A insígnia do Clã, a mesma que Stewart usou para a família Ashley, mencionada no livro, com o gato selvagem, é essa abaixo:


Eu fiquei encantada com a história que Mary Stewart escreveu. Às vezes, a única coisa que precisamos é de uma aventura neo-gótica com uma jovem em busca daquele que ela ama e com quem consegue conversar telepaticamente. 

Adoraria ler mais livros desse tipo da autora. Já parti em pesquisas na Estante Virtual e espero conseguir adquirir outras obras dela em breve. Além do mais, soube pelo amigo e escritor Fabio Fernandes que a Stewart tem trilogia de histórias arturianas, e fiquei empolgadíssima para conhecer. Descobri, também, que ela escreveu um livro que foi adaptado em filme pela Disney. O filme se chama O segredo das esmeraldas negras, em português, e o livro recebeu o nome de Terror a Meia-Noite.

Não Toque no Gato, de Mary Stewart, pode ser encontrado em edição física na Estante Virtual ou em vários outros sebos por aí. 


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Obra: The Martyrdom of Saint Sebastian, de Guido Reni

Violino, de Anne Rice, foi o nosso livro escolhido para o Desafio do Conforto Literário agora de fevereiro. A Mi tinha decidido ler ele já, e aí eu aproveitei uma promoção e comprei ele por 12,00, pensei poxa, então vai ser ele mesmo. Mas eu não fazia ideia do que me esperava.

Antes de tudo eu vou dar um breve resumo do que se trata o livro: Violino, escrito por Anne Rice, é um livro de 1997 e foi lançado aqui no Brasil pela Editora Rocco em 1999, com tradução de Mario Molina. No livro, conhecemos Triana, uma mulher com 54 anos, que vive em Nova Orleans em um casarão herdado de sua família e que perdeu demais na vida: seus pais, sua filha, e seu marido acaba de falecer também. Ela tem uma profunda ligação com a música, principalmente a clássica, e é fascinada por violinos. 

Então, enquanto está de luto por seu marido, com o cadáver ainda na casa em que ocupavam juntos, ela ouve uma estranha música, envolvente, delicada, e conhece Stefan, que tem tocado violino pelos arredores. Quando ambos têm um primeiro contato, Triana descobre que Stefan é um fantasma. 

A música de Stefan não é somente encantadora. Ela também é capaz de despertar sentimentos há muito escondidos em quem a escuta. Triana, que já está de luto há anos e tem essa relação tão próxima com a morte, acaba se lembrando de momentos terríveis de seu passado. Mas Triana não é de desistir sem lutar, e quando descobre que o violino dá poder a Stefan, ela o toma dele. 

Isso faz com que Triana seja levada à vida de Stefan, ao seu passado, e descubra tudo sobre ele. Lá, ficamos sabendo que Stefan foi aprendiz de Beethoven e outras figuras históricas ligadas à música aparecem. Mais adiante, Triana também chega a visitar o Rio de Janeiro, e descobre muito sobre si mesma no processo.


Até aqui podem ficar despreocupados que não contei nenhum spoiler do livro. Isso é basicamente um resumo da trama que, sendo muito sincera, não faria diferença se eu contasse tudo o que acontece. 

Tudo isso faz o livro parecer muito interessante, mas ele infelizmente não é. Ele é chato e tedioso, com diálogos sem pé nem cabeça, situações um pouco até embaraçosas, o que torna toda a leitura um porre. As coisas melhoram um pouco quando voltamos ao passado de Stefan, a história se torna mais interessante, as motivações e ideias dos personagens se tornam mais claras, mas ainda assim é uma leitura extremamente lenta e com pouquíssima fluidez. 

Eu refleti muito antes de escrever essa resenha, porque minha vontade sincera era dizer só: caraca, isso aqui é não foi legal. Mas como eu não costumo falar de leituras que não gostei, eu preferi explicar um pouco melhor o que me incomodou. Eu não preciso que leituras tenham reviravoltas, sejam cheias de desgraças ou coisas do tipo. O problema de Violino, entretanto, é que ele é chato mesmo. Muito chato. Chato como fazia anos que eu não lia um livro tão chato. Diversas vezes parece que os personagens não chegam a lugar nenhum. A relação entre Triana e Stefan é cansativa. Eles mesmos não entendem o que querem um com o outro, e muito menos nós. 

Eu queria ver mais desdobramentos. Mais momentos de Stefan como fantasma ao longo dos anos, conhecer Karl, o marido falecido de Triana, melhor. Sua relação com São Sebastião, detalhes que acho que fariam o livro mais interessante. Empacamos na vida de Triana, enquanto ela chafurda em suas memórias e nas confusões de sua mente, e é extremamente monótono. Entendemos a dor de Triana, mas não entendemos muito mais sobre ela.

Foi uma leitura que não me agradou, realmente. Foi difícil terminar, e eu só terminei porque ela estava no desafio e eu não acho que conseguiria escolher outro em tão pouco tempo antes de terminar fevereiro. Mas esse aqui foi puxado.

Violino, de Anne Rice, está disponível na Amazon* em formato físico, mas também é facilmente encontrado em sebos na Estante Virtual.


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Não sei se isso acontece com vocês, mas eu tenho alguns autores dos quais sinto uma admiração quase gratuita. Tá, não é exatamente gratuita, esses autores têm vários motivos para serem admirados. Mas é que às vezes eu não conheço tanto de suas obras, mas o que conheço já é suficiente para que eu tenha um carinho especial por eles.Isso aconteceu comigo com o primeiro livro do Ray Bradbury que eu li e que, por acaso, não foi Fahrenheit 451. Foi Licor de Dente-de-Leão. Se me pedirem para contar um pouco sobre o livro eu não vou me lembrar bem, mas eu me lembro do sentimento, e lembro de uma frase, do final do livro: "E, se Douglas se esquecesse, o licor de dente-de-leão estava no porão, em grande número, para cada dia" (trad. de Ryta Vinagre).

Me lembrar mais do que isso é pedir demais, já que li esse livro há muitos anos. Eu estava começando a me tornar leitora — leitora mesmo, de fato, de comprar e ganhar livros de presente. Leio desde sempre, mas sempre foi muito difícil comprar livros quando eu era mais nova. Eu pegava da biblioteca, comprava alguns em alguns sebos, mas não tínhamos dinheiro pra isso. Então, quando as coisas melhoraram, minha mãe começou a me dar livros de presente, e Licor de Dente-de-Leão foi um deles.
Depois de um tempo eu acabei lendo Fahrenheit para uma disciplina de faculdade. A disciplina tratava de distopias, e aí eu fiquei maluca, queria ler todas as distopias do mundo, mas isso se provou uma tarefa muito difícil porque você precisa de estômago pra ler distopias, e eu não estava com esse estômago na época (e ainda não o tenho hoje).

Meu terceiro encontro com Bradbury foi com Algo Sinistro Vem Por Aí, um livro que ficou comigo por muito tempo. Eu até acabei fazendo um texto aqui no blog sobre ele, junto de O Iluminado e Changeling, que são três livros que falam sobre a paternidade e que me chamam muito a atenção.

O tempo passou e eu segui lendo, mas acabei não indo atrás de ler Bradbury, não sei bem o motivo. Acho que foi a ânsia de conhecer outros autores, e querer ler alguns autores todos de uma vez, mas Bradbury ficou para trás.

Até que fui agraciada com um presente da Day Martins, do instagram @dayharabooks, que me enviou O Homem Ilustrado de presente de aniversário do ano passado. Aproveito para abrir um parênteses e convidar a vocês que estão lendo para conhecer o perfil da Day, e para conhecer seu projeto com a Leticia Ferreira, do instagram @entrelinhaspretas, o Raízes do Horror. Elas estão com um catarse para o clube de leitura e fazem um trabalho incrível.


Eu deixo na minha listinha compartilhada da Amazon só autores que eu tenho um carinho especial, porque sei que todos os livros que eu ganhar dali serão especiais (e se você que está lendo quiser me mandar um livro, pode conferir a minha wishlist aqui nesse link). Mas foi uma grata e incrível surpresa a leitura desse livro.

O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury (minha edição é da Biblioteca Azul, com tradução de Eric Novello), é um livro de contos que, como ligação, tem a primeira e a última história. De resto, seus temas e personagens são variados, mas sempre lidando com aquilo que o Bradbury sabe fazer de melhor: memória, tecnologia, humanidade.

Na história que liga os contos do livro, e que dá título a ele, conhecemos um homem completamente cheio de tatuagens. O narrador do conto, um homem comum, se encontra com este homem ilustrado, cujas tatuagens parecem obras de arte, e acaba descobrindo um segredo terrível: as tatuagens do homem contam histórias, se mexem, se movimentam de todas as maneiras. O homem tatuado conta que trabalhava no circo, e quando estava prestes a perder o trabalho, acabou encontrando uma velha senhora que tatuava pessoas, e pensou em ser o homem tatuado do circo. Entretanto, tudo se transformou em uma maldição.

É difícil escolher alguns dos meus favoritos, porque todos os contos são excelentes. Bradbury escreve uma desesperança muito forte, uma melancolia de algo que nunca aconteceu muito impressionante. Li o livro muito rápido, porque queria devorar todas as histórias, e acabei indo dormir algumas noites com o coração apertado de situações terríveis que ele contava em cada um desses textos, mas de uma forma tão bonita, tão delicada, tão simples.

Mas, tiveram alguns contos que me tocaram bem fundo. "A Savana", conto que abre o livro, depois da apresentação do homem ilustrado, conta a história de uma casa inteligente e de dois filhos que não estão muito felizes com o comando dos pais; "O Homem" é um texto muito interessante sobre uma expedição para um planeta em que se descobre que um homem bastante famoso da Terra pode ter estado por lá; "O Homem do Foguete" é narrado por um filho cujo pai é viajante de foguete e como esse trabalho afeta a relação da família; "A Raposa e a Floresta" é sobre um casal que viaja ao passado para fugir de guerras do futuro; "A Cidade", sobre uma cidade construída para se vingar daqueles que destruíram seus moradores; e "Hora Zero", sobre uma invasão alienígena auxiliada por crianças.

Mas meu conto favorito mesmo foi "Os Exilados", em que grandes autores de terror da Terra se encontram vivendo em Marte, e enquanto seus livros existirem, eles seguem existindo. Isso ocorreu porque houve uma grande destruição de livros, no estilo de Fahrenheit 451, que forçou que eles partissem para outro planeta, mas o grupo se encontra perigosamente ameaçado, quando uma nave chega neste local onde eles se encontram agora.

Guerra leva à guerra. Destruição gera destruição. Na Terra, um século atrás, no ano de 2020, eles proibiram nossos livros. Ah, que ato terrível, destruir nossas criações literárias dessa forma! Isso nos conjurou de... onde? Da morte? Do além? Não gosto de coisas abstratas. Eu não sei. Só sei que nossos mundos e nossas criações nos chamaram e nós tentamos salvá-los, e o único resgate possível foi passar o século aqui em Marte, torcendo para a Terra superar esses cientistas e suas dúvidas. Mas agora eles estão vindo nos varrer, nós e nossas obscuridades, e todos os alquimistas, bruxas, vampiros e lobisomens que, um por um, bateram em retirada pelo espaço enquanto a ciência invadia cada país da Terra, até finalmente não existir nenhuma alternativa além do êxodo.


É um texto muito bom sobre como não podemos deixar que a imaginação morra a favor de objetivos 100% científicos, onde há a necessidade de um equilíbrio entre ambas as noções, ficção x realidade, e me fez refletir muito sobre as tentativas constantes de higienizar narrativas, principalmente que acontecem em épocas de premiações, em que o drama e o real não cedem espaço ao fantástico e ao horror, por exemplo.

Foi um livro que me deixou extremamente consternada, mas ao mesmo tempo muito feliz, com uma leitura tão rápida, fluida, delicada e potente. Aproveitei cada segundo. Agradeço novamente ao presente da Day, ficará guardado na minha biblioteca até que eu o revisite em algum momento do futuro e me lembre com carinho dessa primeira leitura.

O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury, pode ser comprado na Amazon*, em formato físico ou digital, assim como Algo Sinistro Vem Por Aí e Fahrenheit 451. Licor de Dente-de-Leão, entretanto, só está disponível em versão física.

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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)


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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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