Fright Like a Girl

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No sertão do nordeste, algo tem incomodado seus moradores. Histórias assombrosas, capazes de tirar o sono dos mais corajosos, ganham vida nas mãos de Márcio Benjamin em Sina.

Recebi Sina junto com os outros lançamentos incríveis de terror brasileiro da DarkSide Books em outubro do ano passado, e ainda não tive tempo de ler todos. Esse mês, pro Desafio Literário Fright das 5 às 7, cuja categoria era exatamente terror brasileiro, a minha intenção era ler vários títulos juntos e fazer um apanhadão de resenhas neste blog.

Mas a vida prega peças na gente, não é mesmo? Por sorte eu não me prendo a planos, e lerei os outros livros nos próximos meses. Mas resolvi começar com esse aqui.

Já conhecia o trabalho do Márcio de outros carnavais. Na verdade, tenho uma coleção dos livros dele aqui comigo (todos autografados, ok?), que comprei quando começamos a nos seguir no twitter certa vez. Meu primeiro contato com suas histórias foi com Maldito Sertão, e adorei todos os contos ali. Então, quando vi que o Márcio seria publicado pela DarkSide, achei muito legal. 

Em Sina, de Márcio Benjamin, acompanhamos Trancoso, um contador de histórias que, ao passar por uma cidadezinha, quando sua caminhonete chega aos fins de seus dias, acaba pedindo ajuda a um grupo de velhas paradas ali. Não sabendo que essas senhoras eram muito mais poderosas do que aparentavam, Trancoso lhes conta três histórias para que elas deixassem ele entrar na cidade sem maiores problemas.

Ao entrar na cidade, porém, Trancoso é confrontado por cenas de seu passado. Tentando fugir desesperadamente dali, ele acaba percebendo que tem algo muito errado com o local.

Ao longo do livro, que é dividido em pequenas partes, como se fossem contos, vamos descobrindo mais sobre a vida de Trancoso, sobre seus velhos conhecidos e sobre toda a estranha, excêntrica, curiosa e incrível vida que corre por esse sertão abençoado e amaldiçoado de Márcio Benjamin. Histórias que são contadas pelo personagem principal, que ecoam velhas narrativas já conhecidas por quem se interessa por nossas lendas, e até mesmo autores que fizeram história no horror brasileiro antigo.


Algumas das minhas partes favoritas, por exemplo, foram alguns ecos de "Os Porcos", de Júlia Lopes de Almeida, que Márcio Benjamin empregou de forma muito interessante ao longo de Sina. 

Ainda que trate de algumas histórias antigas, como lendas e folclores, Sina ainda tem um quê de atualidade. Benjamin também emprega uma forte crítica a algo que vemos em ascensão no Brasil nos últimos anos, que é a liderança religiosa utilizando a população como massa de manobra para seus próprios interesses, causando muito mais mal do que bem a comunidades que já são carentes de muito, deixando-os também carentes de espírito.

É um livro relativamente curto, gostoso de ler e que eu me diverti imensamente com algumas passagens. Adorei os personagens, as surpresas que o enredo guarda, a mistura do horror com outros gêneros e todos esses pequenos detalhes que acho que Márcio conduziu tão bem. 

Ah! e não menos importante, o livro tem ilustrações do Shiko, que é um artista incrível que faz coisas assim, sem condições. Então a obra toda é bem bacana.

Sina, de Márcio Benjamin, está disponível em edição física na Amazon* e na Loja Oficial da DarkSide Books.

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Há algum tempo venho ouvindo um burburinho sobre esse livro. Antes dele ser lançado em português, inclusive, acompanhei em alguns blogs como ele era considerado um dos melhores thrillers/horror dos últimos anos. Depois, quando traduzido, eu vi algumas amigas lendo e fiquei completamente obcecada (um beijo para a Adriana Cecchi e Ana Laux que quase fizeram com que eu explodisse de ansiedade pra ler esse aqui).

Finalmente encontrei um tempo e coloquei todos os livros de lado para me dedicar a ele. E rapaz, que caminhão foi esse que me atingiu.

A Última Casa da Rua Needless, de Catriona Ward, foi lançado aqui no Brasil pela Editora Jangada, com tradução de Thereza Christina Rocque da Motta. Na história, que é dividida em capítulos com os pontos de vista de personagens-chave, vamos juntando tudo como um grande quebra-cabeças maluco, tenebroso e angustiante.

Temos capítulos com Ted, Olívia e Didi. Eu vou dar breves resumos sobre cada um deles: Ted é nosso protagonista. Há algo de misterioso que ronda seus capítulos. Diferente dos capítulos de Didi, por exemplo, que são um pouco mais claros, os capítulos de Ted são mais nebulosos e precisamos prestar atenção nos menores detalhes para criarmos o panorama geral. Ted narra seus dias com sua filha chamada Lauren e é dono da gata Olívia. Olívia, a gatinha, mora junto de Ted. Ela ama viver em sua casa e gosta de observar o mundo lá fora por um buraquinho na parede da casa. Já Didi é uma mulher que perdeu a irmãzinha de seis anos quando ela mesmo só tinha dezesseis. Desde então, vem tentando encontrá-la.


No começo, tudo leva a crer que Didi suspeita que Ted seja o responsável pelo desaparecimento de sua irmã. Ele mesmo, logo no início, conta que sua casa foi revistada, que uma garota desapareceu em um local próximo à área onde ele mora, todas essas pequenas pistas. Além disso, como a própria narrativa de Ted é um tanto complicada (é uma narrativa em primeira pessoa, que se desenrola devagar — não no sentido de ser chato de acompanhar, pelo contrário, ela é construída de forma paciente, deixando pistas em diversos locais que vão se encontrar lá na frente do texto), nós demoramos um tempão para entender direitinho o que está havendo.

Eu comecei a ler o livro sem entender nada, depois tinha achado que tinha entendido, mas quando a ficha começou a cair de fato eu simplesmente fiquei tonta.  

É um daqueles livros que, quanto menos você souber, melhor. Não acredite em nenhuma informação. Não acredite em nenhum personagem. Não procure nada sobre a história. Só leia. 

Foi uma leitura impactante para mim. Eu não posso falar muito mais sobre ele, mas quero deixar minha recomendação fortíssima aqui. Se você pega dicas neste blog, por favor, considere ler esse. A forma como Ward amarrou suas informações e fez isso tão bem que até mesmo pequenos detalhes que a gente acha que ficaram para trás ou foram esquecidos são retomados adiante é impressionante. É um livro impressionante. Eu fiquei impressionada e devo continuar pensando nele por um tempão ainda.

A Última Casa da Rua Needless, de Catriona Ward, está disponível em ebook e formato físico na Amazon*. 

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Eu acho sempre muito engraçado ver a reação das pessoas quando digo que meu Pânico favorito é o terceiro. Tenho plena consciência que, na maioria das vezes, meu filmes favoritos não são os favoritos da crítica ou melhores filmes, sei bem disso, mas é divertido porque as pessoas me olham com aquela cara de "meu deus, eca", como se eu tivesse, sei lá, lambido um corrimão.

Eu tenho um motivo muito simples e razoável (na minha cabeça) de ter Pânico 3 como favorito na franquia: eu amo ver o que a Sidney se tornou naquele momento. Pânico 3, pra mim, foi um dos primeiros filmes que eu vi a reação do que acontece depois do slasher, e do que a final girl resolve fazer depois de ter passado pelo trauma. Eu não levo o 2 tão em consideração porque ela ainda estava na faculdade, mas vejo Pânico 3 como uma Sidney mais madura, vivendo sozinha com seu cachorro, em sua casa afastada da cidade extremamente segura, ajudando outras vítimas de trauma a lidarem com o que passaram.

Veja bem, eu não acho que vítimas de traumas devem seguir pelo resto de suas vidas se dedicando a outras pessoas, as ajudando ou coisa do tipo. Mas eu vi aquela cena e algo tão profundo em mim aconteceu. Eu vi um caminho tão possível, algo tão bonito nesse destino. Sidney se encontra com o Ghostface várias vezes depois. Mas ali, naquele momento, eu vi uma heroína em quem eu queria me espelhar e queria pensar mais sobre ela.

Depois, claro, eu vi que a Sidney não era a única que havia trilhado outros caminhos em seus dias pós-slasher. E isso começou a me chamar atenção: o que essas final girls fazem depois que elas se encontram com seus vilões e "vencem"? Tirando o fato de que quando as vemos de novo elas acabam se encontrando novamente com seus assassinos mascarados, comecei a pensar sobre essas personagens, o que há para elas depois desse momento?

Pude pensar nisso melhor conforme fui assistindo a outras franquias de slasher mais tradicionais. Em A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos, Nancy aparece em um papel muito semelhante ao que Sidney faria 13 anos depois: ela quer ajudar jovens que estão passando pelo mesmo que ela. No caso de Nancy, entretanto, ela ajuda isso efetivamente tentando combater Freddy Krueger. 

Duas franquias menos regulares e que tiveram reboots mais significativos, como Halloween e O Massacre da Serra Elétrica, mudaram o destino de suas final girls originais algumas vezes. Laurie Strode, por exemplo, foi irmã de Michael em uma delas, tendo uma filha e morrendo em seguida. Em outra, fugindo para se proteger, também acaba tendo um filho e se torna diretora de um colégio, onde é forçada a lutar contra Michael de novo. No remake de Rob Zombie, Laurie é novamente irmã de Michael, mas a história do remake termina antes de sabermos o que ela fará a seguir. A mais interessante de certa forma, para mim, é na trilogia recente, quando Laurie se torna ciente da possibilidade de Michael Myers retornar. Seu interesse não é exatamente proteger alguém em específico, mas deter Michael Myers. Já Sally Hardesty, que teve um destino um pouco triste em sua franquia original — primeiro em estado catatônico em O Massacre da Serra Elétrica 2, e depois com o anúncio de que havia morrido, em Leatherface - O Massacre da Serra Elétrica 3 — acaba recebendo um destino semelhante ao de Laurie em O Massacre da Serra Elétrica de 2022, onde se prepara para uma vingança contra seu vilão. 

Cada um lida com o luto de forma diferente, assim como lida com o trauma de forma diferente, e ver essas final girls, com seus destinos, me fez pensar. Não sendo ingênua de não pensar também, claro, que essas personagens foram chamadas de volta para suas franquias porque fizeram sucesso e os fãs queriam ver mais delas. Mas para além disso: o que há depois do seu próprio slasher?

Recentemente eu li The Final Girl Support Group, do Grady Hendrix, que levanta, na forma de ficção, questionamentos parecidos com os meus: usando analogias de final girls famosas, Hendrix meio que cria uma variedade interessante de personagens que estão lidando com seus pós-slasher cada uma de sua própria forma.


Nossa protagonista é Lynnette [sua história é um aceno à Denise, de Natal Sangrento (1984), interpretada por Linnea Quigley], que frequenta o grupo de apoio emocional às final girls há um tempo. Nós também temos Marilyn [baseada na Sally de Marilyn Burns, em O Massacre da Serra Elétrica (1974)]; Dani [baseada na Laurie de Jamie Lee Curtis, de Halloween (1978)]; Julia [baseada na Sidney de Neve Campbell, de Pânico (1996)]; Heather [baseada na Nancy de Heather Langenkamp, em A Hora do Pesadelo (1984)] e Adrienne [baseada na Alice de Adrienne King, em Sexta-Feira 13 (1980)]. Essas inspirações ficam bem claras nas histórias das personagens, mesmo que não tanto em suas personalidades. E, também, a psicóloga que acompanha as personagens, a dra. Carol [que faz referência a Carol J. Clover, que escreveu o livro Men, Women and Chain Saws].

No livro, Lynnette está desconfiada, depois da notícia de que Adrienne foi morta no acampamento para vítimas de traumas que ela comanda afastado da cidade, de que há alguém querendo dar cabo das final girls. Em uma trama cheia de possibilidade de quem poderia estar por trás disso, vamos tendo alguns vislumbres dessas personagens quebradas, cheias de problemas, que resolveram lidar com seus traumas da forma que elas encontraram.

Não vou dizer que concordo com a forma que Hendrix escolheu para lidar com algumas das personagens, até porque não é essa minha intenção aqui. Mas gosto muito dessa abordagem: e o depois? O que acontece com essas personagens depois que elas enfrentaram seus monstros, viram seus amigos morrerem, tiveram que lutar por sua sobrevivência? O que acontece com as final girls depois que o filme acaba e a TV é desligada? 

A gente sabe bem que um filme se encerra em si. Às vezes, é aquilo mesmo, e quando ele acaba ele deixa o espectador com seus questionamentos sozinho (ou sem questionamentos, tudo bem também). Mas imaginar o depois desse tipo de terror indescritível me acompanha muito quando penso em slashers e final girls. Talvez por isso esse tipo de filme, essas sequências que contam com as mesmas personagens seguindo suas vidas, e encontrando novamente seus terrores (ou mesmo novos terrores) me chame tanta atenção. Gosto de saber o que aconteceu com elas. 

The Final Girl Support Group valeu para mim dessa forma: como parte de um exercício que sempre fiz e sempre faço, nessa tentativa de ver os autores demonstrando como essas personagens lidam com o trauma. As final girls, apesar de não terem sido criadas com esse propósito, tecnicamente, acabaram se tornando um tipo de símbolo para algumas mulheres, principalmente as fãs de horror, de força e de coragem. Elas se transformaram ao longo dos anos, e os filmes mais recentes, que trazem essas personagens de volta à vida, acompanharam as mudanças do que é ser uma final girls. O livro tem seus altos e baixos, mas é uma leitura interessante para quem gosta desse tema, e para quem também gostaria de ver mais do que pode existir depois do slasher.

The Final Girl Support Group, de Grady Hendrix, ainda não tem tradução para o português; mas sua versão em inglês está disponível na Amazon,* em edição física ou em ebook.


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Em 2021 eu estava numa vibe meio O Exorcista. Li o livro que deu origem ao filme, do William Peter Blatty; Li Exorcismo, do Thomas B. Allen, que é a história real por trás do caso que inspirou Blatty a escrever o livro, e assisti aos filmes da franquia. Quer dizer, o primeiro e o terceiro eu tenho certeza que vi — o quarto eu cochilei, não porque o filme estava ruim, mas gosto muito de cochilar no sofá enquanto alguma coisa passa, e eu estava cansada nesse dia. O segundo e o quinto acho que não assisti até hoje.

O ponto é, alguns anos depois, estou aqui novamente falando sobre Exorcista. Não exatamente sobre Exorcista, mas sobre Legião. Recebi esse livro esses tempos atrás, junto de O Dicionário dos Demônios, e esse mês foi o momento e pegar ele para ler. Ouvi ele me chamando da estante, e foi uma leitura muito bacana.

Lançado pela DarkSide com tradução de Eduardo Alves, Legião acompanha a história do Detetive Kinderman, enquanto ele investiga uma série de assassinatos. Com as mesmas assinaturas de um antigo caso em que Kinderman trabalhou, o homem acaba ficando transtornado com a possibilidade daquele assassino, chamado Geminiano, ter sobrevivido quando todos achavam que ele estava morto. Kinderman parte, então, em busca de desvendar esse mistério. 

O plot é bem simples e o livro se parece muito mais com uma narrativa policial tradicional do que um livro de terror em si, apesar dos elementos sobrenaturais que estão inseridos aqui e ali. Aqui, apesar do horror, as coisas giram em torno da tentativa de Kinderman de achar o culpado dos assassinatos. Gosto dessa coisa de misturar elementos de vários tipos de narrativa, e acho que o que o Blatty fez aqui foi bem legal.

O assassino Geminiano lembra bastante o Zodíaco. Não tanto por suas assinaturas e seu modus operandi, mas tem alguns detalhes ali que tornam as histórias parecidas. Sua primeira vítima nessa nova leva de matança é um garotinho, seguido por padres. E aqui o caldo entorna um pouco, e as maiores reviravoltas se dão por causa desse motivos. É aqui, também, que está a ligação com O Exorcista, e alguns personagens da história anterior aparecem aqui também.


A história guarda muitas surpresas. Eu li extremamente atenta cada virada de página, porque a cada momento tinha algo novo que poderia acontecer. Quando você pensa que sabe o caminho que o livro está tomando, acontece uma coisa que te deixa até meio desnorteado das ideias. Me pegou muito de surpresa mesmo. Apesar de ter assistido o filme que adapta a obra, me lembro de pouca coisa, e também não poderia dizer se é uma adaptação fiel ou não.

Acho que o Detetive Kinderman merece um parágrafo a parte. De início, suas filosofias e seus pensamentos sobre a maldade presente no mundo estavam me tirando um pouco a paciência. Pensamentos longos, discussões consigo mesmo sobre o papel de Deus, suas intenções e afins, eu estava mesmo de saco cheio. Mas, chegando ao final, acho que tudo valeu a pena. Faz sentido, e fiquei emocionada com os últimos acontecimentos do livro, principalmente as últimas linhas. Não achei que o livro fosse me pegar tanto, mas me pegou.

Legião é o terceiro livro na trilogia de Blatty chamada "Trilogia da Fé", que começa com O Exorcista, segue para A Nona Configuração e encerra com este aqui. Apesar de Legião e Exorcista dividirem alguns personagens, eu não posso afirmar que A Nona Configuração também tenha essa ligação. Ainda não li e ainda não assisti o filme. Mas soube que Blatty considerava que A Nona Configuração era a verdadeira sequência de O Exorcista. Depois de escrever o livro, ele mesmo dirigiu o filme. Em seguida, também dirigiu Legião. Se você quiser saber mais sobre isso, tem esse texto aqui. Eu não li inteiro porque queria evitar spoilers, então fica o aviso.

Quero tentar assistir os três filmes em sequência, depois que eu ler o segundo. Acho que vai ser interessante. Gosto das questões levantadas por Blatty, ainda que, às vezes, eu perca um pouco a paciência.

Os livros O Exorcista, A Nona Configuração e Legião de William Peter Blatty podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto digital.


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Há uma recomendação de que a gente não deve comprar livros (ou julgá-los, tá) pela capa. Eu não ligo tanto para recomendações ou ditados populares. Ainda mais depois de ver a capa de Não Toque No Gato, de Mary Stewart, lançado pelo Círculo do Livro (com tradução de A.B. Pinheiro de Lemos), e ser completamente arrebatada por ele. (A melhor curiosidade sobre essa capa, sem dúvida, é que ela foi usada também para uma edição de Amityville, do Jay Anson.)

Quando vi essa capa pensei "que horror! parece péssimo. vou comprar". A Michelle já tinha comprado, então comprei também e decidimos pagar para ver — eu, no caso, paguei 7 reais. Eu já tinha visto alguns exemplares dele em sebos por aí. Pode se pensar que um livro com tantos exemplares disponíveis no sebo, sendo da década de 1970, não fosse lá grandes coisas. Mas eu estava tremendamente enganada. Eu devorei o livro. É uma delícia de leitura. 

Na história, narrada em primeira pessoa, conhecemos Bryony Ashley, uma jovem de 22 anos que descende de uma antiga família que chegou à Inglaterra há muitos anos. No momento em que o livro começa, Bryony está morando e trabalhando em Portugal, enquanto seu pai, Jon Ashley, está hospedado em um hospital. Logo então Bryony recebe a notícia que seu pai está gravemente ferido.

Mas nossa personagem não recebe essa mensagem por meio convencionais, como um fax ou um telefonema (o livro se passa nos anos 1970). Não, ela recebe essa mensagem telepaticamente. É nesse ponto, logo no início da narrativa, que descobrimos que Bryony possui esse dom especial, herdado há gerações pela família Ashley. O ponto, entretanto, é que Bryony não faz ideia quem seja seu interlocutor, que fala com ela desde que ela era criança. O perigo!


Bryony desconfia que seja algum de seus primos, ou os gêmeos, James ou Emory, ou o mais novo, Francis. Todos cresceram juntos em Ashley Court, uma imensa propriedade que era de Jon Ashley. Ao lado deles, Rob Granger, que se tornou o zelador (e faz tudo) do local, as crianças cresceram e cada um seguiu para seu canto.

Com a morte de Jon, entretanto, por causa de um documento assinado há tantos anos antes, não é Bryony quem herda a propriedade, mas sim Emory, que é o rapaz mais velho na família. A propriedade está arrendada pra uma família norte-americana — que tem uma passagem rápida mas importante pela história. 

Intrigas, picuinhas familiares, tretas, romance, breguice, figuras encapuzadas, mistérios, registros alterados, uma carta no leito de morte que leva a mais mistérios, Romeu e Julieta, livros antigos, mansão velha e decadente tal qual a vida aristocrática inglesa já na década de 1970, e uma narrativa que se liga ao passado conforme é contada, um cheirinho de história gótica... Tudo que a gente mais gosta, reunidos em um só livro! Eu não conseguia parar de ler. Se não fosse uma pessoa responsável, eu teria passado pelo menos duas noites até a madrugada agarrada ao livro. Mas resisti, e consegui terminá-lo sem prejudicar meu sono.

O título do livro é um show a parte, e foi um detalhe que eu amei. Tem uma ligação profunda com a história sim, mas a parte que mais me chamou a atenção é que Stewart usou um lema real de um clã escocês das highlands, o clã Chattan (que é uma união de doze famílias), para inserir na história da família Ashley. No original, o lema é "Touch not the cat bot a glove", algo como "não toque no gato sem uma luva", que tem várias interpretações. A insígnia do Clã, a mesma que Stewart usou para a família Ashley, mencionada no livro, com o gato selvagem, é essa abaixo:


Eu fiquei encantada com a história que Mary Stewart escreveu. Às vezes, a única coisa que precisamos é de uma aventura neo-gótica com uma jovem em busca daquele que ela ama e com quem consegue conversar telepaticamente. 

Adoraria ler mais livros desse tipo da autora. Já parti em pesquisas na Estante Virtual e espero conseguir adquirir outras obras dela em breve. Além do mais, soube pelo amigo e escritor Fabio Fernandes que a Stewart tem trilogia de histórias arturianas, e fiquei empolgadíssima para conhecer. Descobri, também, que ela escreveu um livro que foi adaptado em filme pela Disney. O filme se chama O segredo das esmeraldas negras, em português, e o livro recebeu o nome de Terror a Meia-Noite.

Não Toque no Gato, de Mary Stewart, pode ser encontrado em edição física na Estante Virtual ou em vários outros sebos por aí. 


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Obra: The Martyrdom of Saint Sebastian, de Guido Reni

Violino, de Anne Rice, foi o nosso livro escolhido para o Desafio do Conforto Literário agora de fevereiro. A Mi tinha decidido ler ele já, e aí eu aproveitei uma promoção e comprei ele por 12,00, pensei poxa, então vai ser ele mesmo. Mas eu não fazia ideia do que me esperava.

Antes de tudo eu vou dar um breve resumo do que se trata o livro: Violino, escrito por Anne Rice, é um livro de 1997 e foi lançado aqui no Brasil pela Editora Rocco em 1999, com tradução de Mario Molina. No livro, conhecemos Triana, uma mulher com 54 anos, que vive em Nova Orleans em um casarão herdado de sua família e que perdeu demais na vida: seus pais, sua filha, e seu marido acaba de falecer também. Ela tem uma profunda ligação com a música, principalmente a clássica, e é fascinada por violinos. 

Então, enquanto está de luto por seu marido, com o cadáver ainda na casa em que ocupavam juntos, ela ouve uma estranha música, envolvente, delicada, e conhece Stefan, que tem tocado violino pelos arredores. Quando ambos têm um primeiro contato, Triana descobre que Stefan é um fantasma. 

A música de Stefan não é somente encantadora. Ela também é capaz de despertar sentimentos há muito escondidos em quem a escuta. Triana, que já está de luto há anos e tem essa relação tão próxima com a morte, acaba se lembrando de momentos terríveis de seu passado. Mas Triana não é de desistir sem lutar, e quando descobre que o violino dá poder a Stefan, ela o toma dele. 

Isso faz com que Triana seja levada à vida de Stefan, ao seu passado, e descubra tudo sobre ele. Lá, ficamos sabendo que Stefan foi aprendiz de Beethoven e outras figuras históricas ligadas à música aparecem. Mais adiante, Triana também chega a visitar o Rio de Janeiro, e descobre muito sobre si mesma no processo.


Até aqui podem ficar despreocupados que não contei nenhum spoiler do livro. Isso é basicamente um resumo da trama que, sendo muito sincera, não faria diferença se eu contasse tudo o que acontece. 

Tudo isso faz o livro parecer muito interessante, mas ele infelizmente não é. Ele é chato e tedioso, com diálogos sem pé nem cabeça, situações um pouco até embaraçosas, o que torna toda a leitura um porre. As coisas melhoram um pouco quando voltamos ao passado de Stefan, a história se torna mais interessante, as motivações e ideias dos personagens se tornam mais claras, mas ainda assim é uma leitura extremamente lenta e com pouquíssima fluidez. 

Eu refleti muito antes de escrever essa resenha, porque minha vontade sincera era dizer só: caraca, isso aqui é não foi legal. Mas como eu não costumo falar de leituras que não gostei, eu preferi explicar um pouco melhor o que me incomodou. Eu não preciso que leituras tenham reviravoltas, sejam cheias de desgraças ou coisas do tipo. O problema de Violino, entretanto, é que ele é chato mesmo. Muito chato. Chato como fazia anos que eu não lia um livro tão chato. Diversas vezes parece que os personagens não chegam a lugar nenhum. A relação entre Triana e Stefan é cansativa. Eles mesmos não entendem o que querem um com o outro, e muito menos nós. 

Eu queria ver mais desdobramentos. Mais momentos de Stefan como fantasma ao longo dos anos, conhecer Karl, o marido falecido de Triana, melhor. Sua relação com São Sebastião, detalhes que acho que fariam o livro mais interessante. Empacamos na vida de Triana, enquanto ela chafurda em suas memórias e nas confusões de sua mente, e é extremamente monótono. Entendemos a dor de Triana, mas não entendemos muito mais sobre ela.

Foi uma leitura que não me agradou, realmente. Foi difícil terminar, e eu só terminei porque ela estava no desafio e eu não acho que conseguiria escolher outro em tão pouco tempo antes de terminar fevereiro. Mas esse aqui foi puxado.

Violino, de Anne Rice, está disponível na Amazon* em formato físico, mas também é facilmente encontrado em sebos na Estante Virtual.


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Quem escreve

Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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