Fright Like a Girl

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Eu sou apaixonada por Shakespeare. Acho o velho bardo um sacana safado da mais alta qualidade. Macbeth e Hamlet são duas das minhas coisas favoritas, e, sendo uma criança do teatro, como fui, esse cara com certeza foi uma grande influência quando eu era jovenzinha.

Você sabia que o nome Jéssica apareceu pela primeira vez no livro O Mercador de Veneza? Jéssica é um nome hebraico, Yiskāh, e a primeira adaptação para o inglês, Jessica, foi feita por Shakespeare. 

Nessa mesma peça, Shakespeare fala sobre lobisomens. 

Tá, não exatamente sobre lobisomens. Shylock, judeu, é constantemente descrito com características caninas. Para entrar nesse mérito eu teria que fazer uma ampla pesquisa histórica e falar sobre como judeus foram ligados a diversas características abomináveis e repugnantes por causa de preconceito, e deveria me aprofundar no antissemitismo, e discursar sobre esse problema nessa peça em questão, mas não vou fazer isso. (Mas estive lendo esse artigo aqui, se alguém se interessar.)

"Jéssica, mas o que isso tem a ver??? Do que você tá falando? Que relação uma coisa tem com a outra?"

Nenhuma, mas eu gosto de coincidências, então comecei a introdução desse texto dessa forma, pra que vocês tenham uma ideia de como minha cabeça funciona (pista: é uma gritaria aqui dentro, vocês não acreditariam).

Eu comecei a pensar em lobisomens de novo, recentemente, não apenas por causa do novo filme do Kit Harington, nem por causa da música do Motionless in White que eu estive viciada, mas também porque me dei conta da quantidade de filmes que existem sobre lobisomens em Londres e na Inglaterra. 

Pra falar a verdade, mesmo, os lobisomens nunca saem completamente da minha cabeça. Mas às vezes eu penso neles com mais furor.


Então, aos lobisomens. Estive pensando neles quando me deparei com o filme de 1935 O Lobisomem de Londres. É um filme de lobisomens, no começo da era dos Monstros Clássicos da Universal, mas não é O filme de lobisomens da Universal. O representante da classe lupina desse grupo é o Talbot, de O Lobisomem, de 1941. O Lobisomem de Londres, na verdade, foi abandonado ali na esquina do tempo. Mas por quê?

Não sei, realmente, e nem foi isso que mais me chamou a atenção quando voltei quase 90 anos no tempo para refletir. Minha reflexão se concentrou em: Por que tantos lobisomens em Londres? O que tem na água (ou na lua) londrina? Nós temos pelo menos quatro filmes que apontam esse caso: Um Lobisomem Americano em Londres, A Mulher-Lobo de Londres, Carnivore - O Lobisomem de Londres, e o próprio O Lobisomem de Londres. Isso seria retroalimentação ou tem algo mais aí?

Uma das histórias de lobisomens mais famosas da era moderna é a da Besta de Gévaudan, ou La Bête du Gévaudan, porque ele é francês. 

A imagem avisa que esse é o monstro que tem desolado Gévaudan, que ataca principalmente mulheres e crianças. 

Entre os anos de 1764 e 1767, uma criatura ameaçava os prados franceses na região da província de Gévaudan, onde hoje se encontra Lozère e Haute-Loire. Nesses dois anos, em uma área de cerca de 80 quilômetros, cerca de 82 a 124 pessoas foram atacadas. Um estudo em 1987 ampliou esse número para 210, com 113 mortos e 49 gravemente feridos (os outros ataques provavelmente foram de ferimentos mais leves). Desses 113 mortos, 98 foram comidos parcialmente. 

O que chama a atenção no ataque de Gévaudan nem é a quantidade de mortos, ou o interesse especial da coroa em descobrir o que estava acontecendo (apesar desses dois elementos serem, sim, interessantes de se pensar; pensem aí e depois me contem). O que me fascina nessa história toda é o período em que ela aconteceu. 

Em 1764 fazia cerca de 30 anos que aconteceram os ataques de Arnold Paole na Sérvia. Paole, uma das minhas figuras históricas favoritas, faleceu em 1726 e, dizem, se reergueu do túmulo cinco anos mais tarde condenando toda a sua cidadezinha ao vampirismo. As autoridades europeias ficaram putas da cara com a repercussão do que estava acontecendo. Foram enviados emissários de vários cantos da Europa; o Papa da época, Clemente XII, já no final da vida, ficou aflitíssimo com essa bagunça toda. Até Voltaire escreveu sobre vampiros (metaforicamente e factualmente).

[Desculpem, não temos imagens do Paole]

Querendo ou não, Arnold Paole nos brindou com um frisson necessário para dar uma força na literatura de vampiros que surgiria ali no século seguinte. Assim como a Besta de Gévaudan. Histórias de vampiros e lobisomens sempre existiram, mesmo que com outros nomes (vamos citar aqui os gregos tipo Ovídio e Plínio e a maravilhosa história nórdica de Bera e Björn, para citar os amigos antigos dos lupinos), mas foram esses dois episódios, e mais a mente muito criativa das pessoas dos recantos mais longínquos da "sociedade civilizada" londrina e parisiense, que principalmente ajudaram a moldar essas criaturas e prepará-las para a literatura do século XIX.

Mas a produção de verdade dessa literatura ficou nas mãos justamente das pessoas da "sociedade civilizada" londrina e parisiense (e alemã, com seus poemas onde mortos buscam donzelas indefesas no além-túmulo, mas vamos focar apenas em Inglaterra e França por um momento).

Então, existiram muitas lendas de lobisomens na Inglaterra, correto? Errado, caros amigos, pelo menos é o que nos conta O Livro dos Lobisomens, de Sabine Baring-Gould. Agora vamos lá: o Sabine era um padre anglicano que viveu no século XIX. Antiquário, ele colhia histórias por aí. E aí ele escreveu um livro reunindo vários folclores de lobisomens. Excelente, né? Apesar da minha pesquisa mais extensa ser concentrada em vampiros, os lobisomens compartilham uma ou duas coisinhas com eles, então eu fui atrás desse livro, e essa maravilha tem uma edição traduzida, lançada pela Aleph em 2008, com tradução de Ronald Klymse. 

Sabine, que além de lobisomens pesquisava danças e músicas folclóricas. Vejam suas feições animadas. 

No livro, o Sabine narra a longa história dos nossos peludinhos favoritos. Mas o que me chamou a atenção dessa vez foi o parco capítulo sobre a Inglaterra. Nele, Sabine conta que a Inglaterra não teve muito folclore envolvendo lobos, canibalismos, essas coisas todas, porque a maioria dos lobos foi morta pelos anglo-saxões quando eles chegaram àquela terra. Tanto que, no folclore inglês, bruxas frequentemente se transformam em lebres e gatos, não em lobos, o que era mais comum em outras partes. (Estou falando da Inglaterra em si, não da Grã-Bretanha. A Escócia, o País de Gales e a Irlanda [que não está na Grã-Bretanha, mas vocês entenderam] não faz parte dessa coisa de morte aos lobos.)

Houve um período de julgamento de bruxas que ficou conhecido como "werewolf witch trials" (julgamento de bruxas lobisomens, ou algo assim) porque uma coisa levou a outra na cabeça daquela galera. Na mesma época em que as bruxas eram caçadas, surgiram muitas histórias de transformações em lobisomens. Bruxas, constantemente, eram "avistadas" montadas em lobos (e cabras, também, mais comumente). Mas isso aconteceu em somente uma parte da Europa. Na Inglaterra, até onde se tem notícias, não. 

Se você assistir A Bruxa de novo, vai ver que a lebre é o animal mais ligado a ela. Lobos, não. Não apenas pela falta de lobos nos Estados Unidos, mas principalmente porque aquelas pessoas no filme de Eggers eram puritanas, eram colonos. Eles vieram da Inglaterra. 


Agora eu retorno a Shakespeare. Como comentei, sem me aprofundar, Shylock era um judeu constantemente comparado aos lobos por suas piores características. Ligando esse querido ao Drácula, de pouco mais de 300 anos depois de O Mercador de Veneza, o Conde é ligado ao vampirismo (objetivamente dessa vez; não apenas uma comparação, ele É um vampiro) utilizando todas as suas piores qualidades e sendo um cara estrangeiro. É no mínimo curioso, vai me dizer?

O horror tem essa característica inerente de lidar com nossos piores medos, individuais e de sociedade, utilizando essas figuras para explicá-los e dar uma cara a eles, e isso para o bem ou para o mal. Sabine fala sobre isso em O Livro dos Lobisomens, e o cara, no século XIX, consegue ser muito direto sobre a questão:

Deve-se observar que a principal sede da licantropia foi a Arcádia, e a causa disso foi atribuída, muito plausivelmente, a uma circunstância específica: os nativos de lá eram um povo pastoral, e por consequência sofriam muito intensamente com os ataque e as depredações dos lobos.

Shakespeare não é terror, mas ele fez isso incontáveis vezes. O fantasma do pai de Hamlet que o avisa que tem algo muito errado acontecendo, dando uma explicação sobrenatural para algo que psicologicamente, em seu coração, ele já sabia. As bruxas de Macbeth que o avisam que o pau vai torar logo menos, algo que já estava com ele, mas que ele precisou de um empurrãozinho sobrenatural para dar vazão. Os lobisomens, os vampiros, bruxa, fantasmas e outras criaturas, como as fadas, os changelings e afins, cumprem esse papel em muita literatura (e oralidade) dos séculos passados: são rostos que podem ser perseguidos. Você atribui sobrenaturalidade para um problema real que você muitas vezes não consegue explicar, dados seus devidos contextos.

A Inglaterra foi um berço muito prolífico para muitas dessas figuras na literatura mais moderna. King comenta sobre os três grandes arquétipos do terror: o monstro, o vampiro, e o lobisomem. Os maiores representantes desses três vieram da ficção inglesa (Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro). Nós bebemos muito dessa tradição para criar o que hoje sabemos sobre terror. Os tentáculos do imperialismo inglês tiveram muitos desdobramentos, incluindo nosso gênero favorito.

Retorno a pergunta sobre os lobisomens em Londres: retroalimentação? A chamada "câmara de eco cultural", que King comenta em Dança Macabra? Pura coincidência? Enfim, isso é um texto mais de reflexão do que de resposta. Não tenho respostas. Às vezes eu gosto de escrever alguns pensamentos malucos pra poder abrir espaço no meu cérebro e pensar em outras coisas (por exemplo, meu fascínio agora é com os direitos autorais do Ursinho Pooh e o Poohniverso, e como a nova tendência para esses filmes ultraviolentos, tipo Terrifier, ecoa as obras de torture porn dos anos 2000, mas isso fica pra outra hora).

A maior questão que fica é: os lobisomens habitam os prados ingleses ou foram esquecidos?

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Não foi por demanda popular — a não ser que contemos as vozes da minha cabeça —, mas eu voltei. 

Passei muitos meses longe da minha casa na internet, mas estava com saudade de escrever bobagens longas por aqui. Só as bobagens curtas (e obrigatoriamente acompanhadas de imagens) no instagram não eram suficientes. Eu precisava de um lugar para expor meus pensamentos (nem sempre bons) e meus sentimentos (nem sempre com sentido). Então recuperei esse lugarejo aqui, hoje uma cidade fantasma, mas que já foi polo de muita produção divertida.

E voltei com a alegria da não obrigatoriedade e sem um domínio, ou seja: isso não é mais uma locação por cnpj, estou aqui somente como cpf. 

Não esperem também que o blog volte com o mesmo formato de antes. Eu voltei para escrever sobre minha relação com o terror, textos esporádicos e quando eu tiver vontade. Só uma diversão de vez em quando, pra falar de algumas obsessões — como os livros da Anne Rice, as séries ruins adaptadas dos livros da Anne Rice, e coisas desse tipo. :)

Pensem nisso como o O Novo Pesadelo - O Retorno de Freddy Krueger. Muito meta, até muito bobo, mas fruto do meu conhecimento (que é bem mediano) e do meu mais profundo sentimento de amor pelo gênero (que hiberna por meses, às vezes, mas resiste firme e forte).

É ótimo estar em casa, mesmo que ela esteja com algumas paredes demolidas.


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Lendo textos e ensaios e livros sobre a história do terror (na literatura e no cinema), é impossível, praticamente, não encontrar menções ao livro Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson. Considerado um dos grandes clássicos do gênero do século XX, o livro inspirou uma série de outros autores e de tendências nos anos após seu lançamento. 

Quando tive que escolher um livro apocalíptico para o Desafio Fright das 5 às 7 de junho, eu logo pensei nele. Como vocês, fiéis seguidores, podem ter percebido, tenho escrito pouco aqui, porque, na verdade, tenho lido pouco. Tenho dormido mais cedo e lido menos, então pensei em escolher um livro que já estava há muitos anos na minha lista de leitura e que ainda não tinha tido a oportunidade.

Eu sou a Lenda (li na edição da Aleph, com tradução de Delfin) conta a história de Robert Neville, um homem que se vê sobrevivendo sozinho em um mundo assolado por uma praga que transformou a todos em mortos-vivos vampiros. Ao longo do livro, através da narração em terceira pessoa, descobrimos aos poucos o que aconteceu com o mundo que o fez chegar a esse ponto, como são esses vampiros, quais são suas características especiais e o que faz deles uma ameaça tão potente. 

Neville era um cara que tinha esposa, tinha uma filhinha, e tudo lhe foi tomado por essa terrível realidade que se abateu sobre ele. Nós acompanhamos o dia a dia de um homem alquebrado, mas espantosamente são (apesar de seus momentos de devaneios e raiva), visto que por muito menos outros teriam perdido completamente a cabeça (eu teria).


A narrativa de Eu Sou a Lenda também não pega leve com Neville. Ele não é exatamente um cara legal, ótimo, boa pinta. Ele é um cara que tem seus defeitos (e vários) e isso fica muito claro pela forma como ele pensa nas mulheres e seu instinto sexual diante de estar sozinho no mundo, na forma como ele lida com determinadas situações, na forma como ele se sente quando está completamente sozinho e afunda a cara na bebida. 

Se isso é bom ou ruim, aí vai do leitor. Mas é interessante ver como isso é colocado ao longo da história. Para mim, o fato de ele ser um cara extremamente humano diante de uma situação tão catastrófica e essas sensações extremamente humanas dele serem expostas da forma que estão conforme avançamos no livro deixa as coisas ainda mais críveis.

Em um mundo de horror monótono, não podia haver salvação, nem nos sonhos mais loucos. Ao horror, ele se ajustou.

Um dos pontos altos do livro de Matheson, para mim, foi o desespero que emana repetidamente dessas páginas. O começo é morno, mas conforme avançamos em direção ao final nosso próprio desânimo enquanto leitores, pessoas que acompanham essa história, aumenta junto ao do personagem. Há uma situação mais ou menos no meio do livro que leva esse sentimento doloroso ao ápice para que, no final, a gente solte um suspiro pesado de terror que ficou entalado na garganta desde aquele momento.

É bacana acompanhar essa derrocada. É uma descida ladeira abaixo com uma sensação de vazio constante que preenche a gente. É, um vazio que preenche, sim. A gente fica meio desacreditado, mas completamente ciente daquilo tudo. E uma coisa que o Matheson coloca ao longo da narrativa, mais de uma vez aliás, é essa capacidade do ser humano de se adaptar a quase qualquer coisa, por pior que seja. 

É bastante deprimente, sim, mas muito crível. Não crível do tipo "meu deus, os vampiros vão dominar o mundo". Mas crível do tipo "caramba, os seres humanos podem sim ser, e sempre que tiverem a chance serão, horríveis".

Não quero dar spoilers, mas também preciso mencionar que adorei a forma como ele quis lidar com a tradição dos vampiros. Nessa realidade de Eu Sou a Lenda, as histórias de vampiros existem. Ele cita Drácula e alguns outros, e essas histórias chegam a auxiliar nosso protagonista a entender o que pode estar acontecendo. Mas, na verdade, é tudo extremamente científico. É um toque bem bacana.

Conforme os anos se passam eu fico mais interessada de ler algumas dessas histórias. Talvez, se eu tivesse lido esse livro há alguns anos, eu não teria gostado dele tanto quanto gostei hoje. Então acho que meu instinto de dar tempo ao tempo tem sido muito útil para mim.

Ainda não assisti o filme com o Will Smith de 2007. Na verdade, só vi a adaptação com o Vincent Price. Queria ter assistido ambas antes de fazer o texto, mas não tive tempo (passei meu final de semana inteiro assistindo Terrifier), então esse complemento vai ter que ficar para outra hora. Mas foi uma leitura que eu gostei bastante de fazer, e finalmente posso tirar esse livro da minha lista de leitura.

Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, está disponível na Amazon* em formato físico ou ebook.



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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
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Em junho do ano passado li Rinha de Galos, da María Fernanda Ampuero. Foi meu primeiro contato com a literatura da autora, que já tinha sido extremamente recomendada para mim. Comentei algumas vezes aqui no blog do quanto gosto da literatura da América Latina, principalmente da escrita por mulheres, então é claro que assim que me foi possível eu fui atrás de Rinha de Galos.

O livro é um chute na cara e um soco no estômago extremamente bem dados. Falei um pouco dessa leitura aqui no blog. Então, quando a Editora Moinhos trouxe outro livro da autora, Sacrifícios Humanos, eu logo adicionei na minha lista. Aproveitei para lê-lo esse mês, no Desafio do Conforto Literário, que organizei com a Michelle e estou participando desde janeiro.


 Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero (Editora Moinhos, com tradução de Silvia Massimini Felix), é, assim como Rinha de Galos, uma antologia de contos curtos, com 12 contos no total. O livro, também, é bem curtinho, com menos de 120 páginas, mas passa na sua vida como um furacão dos mais potentes.

Ao longo dos contos nos deparamos com histórias dramáticas e cruéis, histórias de violência e horror, de imigração e de raízes e tradição, de mulheres que caem nas histórias de homens que, logo em seguida, lhes mostram a verdadeira face. De trabalhadores e trabalhadoras e sofrimento e suor e sangue. Há também uma certa inocência e ironia em algumas personagens dos contos.

Mulheres desesperadas são a carne da moenda. Nós, imigrantes, além disso, somos os ossos que trituram para que os animais comam.

A maioria das histórias reunidas em Sacrifícios Humanos se apoia no dia a dia, na humanidade e na sua própria podridão mas há uma inclinação sobrenatural em alguns deles, como em "Irmãzinha" e "Sacrifícios". Mas isso é apenas um pequeno artifício para o terror palpável, para o terror de carne e osso que se esconde nas narrativas de Ampuero.

Meus contos favoritos do livro foram "Biografia", "Irmãzinha" e "Invasões". Senti que Sacrifícios acaba sendo "mais leve" que Rinha de Galos, ainda que ambos tenham leituras pesadíssimas. Mas, de alguma forma, mesmo que ambos falem dos mesmos temas, a leitura me pareceu menos tenebrosa. Como comentei na resenha do outro livro, em que eu tive que parar vários momentos para consertar meu rosto, que estava retorcido de nojo, esse eu não tive tantos momentos assim.


Me pareceu que a violência aqui era muito mais direta, muito mais mundana. Não era tão absurdo como Rinha. Como assistir a um noticiário, sabe? Não é apatia, é só que você meio que conhece algumas daquelas histórias, você espera que elas se desenrolem da forma que se desenrolam. E isso não é uma crítica negativa. Ver certas narrativas de abusos e horror narradas dessa forma, no livro, expõe diversos sentimentos nossos, todos de uma vez. Sabemos que são histórias de ficção, mas são histórias que poderiam ser reais (e que acabam sendo, em diversos lugares), e isso sempre mexe muito com a minha cabeça.

Eu acho que se eu fosse recomendar um livro para começar a ler María Fernanda Ampuero, seria esse aqui. E, depois, seguir com Rinha de Galos. Acho que funciona bem, ainda mais para quem não está acostumado com a literatura absurda e estranha da América Latina.

Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero, pode ser comprado em formato físico ou ebook na Amazon* ou no site da Editora Moinhos.

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Afinal, o que é um cientista fascinado pelo poder dando à vida uma Criatura a partir do zero perto da total e completa maldade e preconceito do ser humano?

Perdi as contas de quantas vezes li e reli Frankenstein, de Mary Shelley. A ocasião mais recente foi a trabalho. Parece que todas as vezes que leio esse livro eu saio dele com uma coisa nova no coração. A grandeza dos detalhes, a forma como Mary inseriu tantas referências de sua vida ao longo da narrativa que escreveu tão jovem — isso, por si só, um enorme feito, seja hoje em dia, seja em 1816. 

Frankenstein é um dos meus livros favoritos não por acaso. Acho que ele tem uma alma tão profunda, tão decente, tão honesta e ainda assim tão simples, que faz dele mais do que completo: para mim (e para muitos, ainda bem) ele é uma obra-prima de primeira qualidade. Uma das maiores criações humanas, um dos maiores elogios ao ato de saber ler e poder encontrar razão (e um sem-número de emoções) em suas linhas.

Uma coisa que nunca muda, para mim, desde a primeira vez que li esse livro, há alguns anos, é a forma como a Criatura é um ser incompreendido. Abandonado e solitário, a Criatura de Frankenstein é um dos maiores exemplos de como o ambiente e os agentes externos podem alquebrar uma alma, transformar o coração. 

Como uma jovem com tão pouca idade conseguiu expressar em palavras como é se sentir extremamente só, abandonado e desiludido? Se sentir completamente diferente de todos os seus pares, mesmo que eles não fossem iguais a eles, transformando-o em um pária antes mesmo que ele tivesse seus arroubos violentos contra seu criador?

Talvez ela mesma tenha passado por situações em que se sentiu um espírito forasteiro. A história de Mary Shelley é cheia de detalhes tristes, onde ela teve que se diminuir tantas e tantas vezes para caber em lugares menores. Filha de dois gênios da literatura política do final do século XVIII, não digo que ela estava fadada ao sucesso, ou que grandes coisas esperavam por ela. Mas como caber em lugares tão pequenos quando se tem uma alma, um espírito e uma vida tão grandes?

O que eu tiro dessa centésima leitura de Frankenstein, dessa vez, é como a solidão e o abandono são alguns dos verdadeiros horrores que encontramos nessas páginas. 

A narrativa já se inicia com as cartas de Walton contando à sua irmã, Margareth, como este se sente sozinho e como deseja, ardentemente, um companheiro a quem dividir seus momentos felizes e seus momentos tristes. Em sua empreitada pela glória, em um experimento científico que espelha, de certa forma, o do próprio Victor Frankenstein, Walton se encontra solitário. 

Victor, também, ao se encontrar com Walton, se sente solitário, mas por motivos mais complexos. Através do remorso e da miséria que sente em seu coração por ter criado algo tão sacrílego quanto uma Criatura a partir do zero, longe das concepções aceitas por Deus e pela sociedade de dar à vida, Victor se afasta da convivência. Primeiro, se tranca em seu quarto ao longo de seus estudos; em seguida, retornando para a casa de seus parentes, passa três dias, já se avizinhando de sua cidade natal, para ficar sozinho. Quando acontece o incidente de Justine, novamente Victor se recolhe à solidão.

Mas quem mais sofre com a solidão e com o abandono, sem ter escolhido por isso, é a própria Criatura.

Yet mine shall not be the submission of abject slavery. I will revenge my injuries; if I cannot inspire love, I will cause fear.

A solidão da Criatura, entretanto, vem de um lugar completamente diferente da solidão sentida por Walton e Victor. Enquanto os dois, jovens que sonham (e já sonharam, antes) em buscar a grandeza, se sentem sozinhos um por se estimar demais, e outro por se estimar de menos, a Criatura é só porque lhe foi negada qualquer tipo de companhia. Longe de ser um estado que escolheu, ele está ali por imposição.

Walton acredita piamente, como podemos ler através de suas cartas, que os marinheiros que ele escolheu (e alguns até que levou até a morte) não eram dignos de sua amizade. Pessoas simples, até rudes, são meros servos em sua empreitada. Victor, por outro lado, desde que começou sua investigação sobre como fazer vida através do que já está morto, se colocou no lugar de solidão por pura comiseração que sente por si mesmo. Pobre Victor, o jovem rico que, graças a atitudes irresponsáveis, agora se vê seguido por aquilo que não deveria ter feito. 

A Criatura, ao contrário, sonha em ter companhia. Qualquer uma. Ele procura incansavelmente qualquer companhia que possa lhe querer. Vaga por diversos lugares, sendo maltratado e escorraçado por onde quer que passe. Ele só quer alguém para ter com quem aproveitar a vida, que ele, que a ganhou de forma tão a contragosto, acha maravilhosa. 

E desse sentimento de solidão da Criatura nasce sua revolta. Novamente, se comparado a Walton ou a Victor, a Criatura é muito mais humana. Walton e Victor, ao se negarem essa companhia, essa amizade, caem em um lugar de autopiedade que, às vezes, soa ridícula aos ouvidos. Não querem compartilhar seus fardos e suas alegrias com seus iguais, os dois por seus próprios motivos, mas se sentem os seres mais tristes que já pisaram na Terra. 

Enquanto isso, a Criatura é acusada de ser um monstro vil e perigoso. Culpado dos maiores ultrajes (até daqueles que ele não fez), o que resta a ele a não ser pedir uma igual, para que possa ter, também, qualquer um para desfrutar da companhia? E até isso lhe é negado, porque Victor acredita firmemente, desconhecendo completamente aquilo que criou, que a Criatura é realmente um poço de destruição. E é desse lugar que nasce a raiva mais profunda da Criatura. É aqui, também, que a solidão dos três fica tão evidentemente diferente.

Am I to be thought the only criminal, when all humankind sinned against me? (...) I, the miserable and the abandoned, am an abortion, to be spurned at, and kicked, and trampled on. Even now my blood boils at the recollection of this injustice.

Ao longo dos anos, Frankenstein foi interpretado (e reinterpretado e utilizado) de diversas formas. Em sua primeira e mais óbvia camada, vemos uma história de um homem inebriado por poder, que lida com coisas que não deve, e acaba criando um "monstro terrível". Em suas camadas mais profundas, porém, existem tantos temas e detalhes, tantas pequenas belezas e situações aterrorizantes, que poderia gerar conversas por mais quatrocentos anos. Frankenstein, assim, também se torna atemporal. 

Ao longo de sua vida, Mary também se sentiu sozinha diversas vezes. Não por escolha, na maior parte delas. Quando se casou com Percy, por mais feliz que estivesse, Mary foi atirada porta a fora de sua própria casa por seu pai. Ao longo dos anos, com as aventuras do marido e falta de dinheiro, Mary também deve ter sentido o peso da solidão sobre os ombros algumas vezes. E, aos poucos, foi perdendo aqueles que eram mais caros a ela: filhos que não nasceram, ou que nasceram mortos, ou que morreram pouco tempo depois, irmã, Percy, amigos.  

Não posso dizer com certeza que tudo que Mary escreveu em Frankenstein foi totalmente premeditado, se minha leitura dessa solidão que toma as páginas do livro é algo que eu mesma quis ver, que me saltou aos olhos, em um momento em que eu me sinto solitária. Entretanto, se eu pudesse me encontrar com a Mary Shelley uma única vez, eu perguntaria a ela se sua criação monstruosa lhe trouxe algum tipo de acalento. Se ela deixou, pelo menos um pouco, de se sentir sozinha.

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O que acontece quando um cara entendido de terror se propõe a fazer um filme com diversos elementos e características de casas assombradas, reunidos em um único lugar?

Rose Red é uma minissérie de 2002, escrita por Stephen King e dirigida por Craig R. Baxley. Diferente da maioria esmagadora de outras obras do King, essa aqui não foi adaptada de um livro do autor (não confundir com Rose Madder, que não tem nada a ver com essa história). Rose Red é, na verdade, criada especialmente para as telas. 

Isso tem uma história por trás: dizem por aí que King queria fazer um remake de Desafio do Além, lançado em 1963 e dirigido por Robert Wise, que adapta o livro Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. King é um grande fã de Jackson, então apresentou a ideia para o Spielberg. Ninguém sabe bem o que houve, mas o Spielberg não se interessou muito. Não sabemos se era porque ele estava em outra vibe ou o que aconteceu. O roteiro do King ficou guardado, e três anos depois da Dark Castle surgiu com A Casa Amaldiçoada, dirigido pelo grande Jan de Bont que errou demais a mão nessa farofa.

Aí, em 2002, King apareceu com Rose Red. Na história, a mansão amaldiçoada Rose Red foi construída no centro de Seattle como presente de casamento de John Rimbauer para sua esposa Ellen. Desde cedo a casa era bastante estranha, tudo bem, mas as coisas começaram a piorar com os anos: os homens eram mortos pela casa, e as mulheres desapareciam. Em uma atividade semelhante à da casa Winchester, Ellen começou a construir quartos em Rose Red. Quando Ellen morreu, a casa começou a se construir sozinha.

Muitos anos depois, a professora de psicologia dra. Joyce Reardon (Nancy Travis) reúne um grupo de paranormais para irem até Rose Red. A casa está adormecida, afirma ela, então não há perigo para aqueles que aceitarem ir. Ela promete um pagamento de $5 mil dólares para cada um deles, e ca\da um deles tem um talento especial: Emery Waterman (Matt Ross), um vidente com retrocognição que consegue ver espíritos; Nick Hardaway (Julian Sands), um telepata poderosíssimo; Pam Asbury (Emily Deschanel), que tem habilidades psicométricas e, quando toca em algo, consegue sentir as vibrações e estados pelos quais o objeto ou pessoa passou; Cathy Kramer (Judith Ivey), que tem habilidades de psicografia; e Victor Kandinsky (Kevin Tighe), que tem precognição. O grupo é quase como os Vingadores dos médiuns. 


Mas Joyce está interessada particularmente em uma outra pessoa: Annie Wheaton (Kimberly J. Brown), uma adolescente com poderes que deixa todos os outros médiuns no chinelo. Depois de muito insistir e de oferecer ainda mais dinheiro a ela, sua irmã, Rachel (Melanie Lynskey), aceita levá-la para o experimento em Red Rose.

Além desse grupo no mínimo excêntrico, está também Steven Rimbauer (Matt Keeslar), único herdeiro da família Rimbauer e atual proprietário da mansão Rose Red.

Se você tem algum contato com histórias clássicas de casas assombradas (principalmente aquelas feitas ali pelos anos 1960 e 1970) e/ou com as histórias do Stephen King, você deve imaginar que as coisas aqui não terminam muito bem para uma parte dos envolvidos. Joyce é, na verdade, uma mulher que tem perseguido a fama e quer, a todo custo, volta a fazer sucesso. Os membros de sua comitiva mediúnica são somente peões em seus vontades. E isso fica claro a nós desde muito cedo no filme. 

Mas o ponto alto da trama não está em seus personagens, infelizmente. King consegue criar personagens cativantes sempre, ao mesmo tempo que consegue criar aqueles personagens que a gente tem vontade de dar um chute no traseiro, é verdade (mesmo com todos os tropos que o autor segue em seus personagens, que eu já mencionei no texto de Joyland); mas aqui, em Rose Red, eu acho que o grande e maior triunfo de King é em sua casa assombrada, a própria Rose Red.

Dentre as casas assombradas, a mais assombrada

Uma das coisas que eu mais gosto no Stephen King é a forma como ele conhece o terror, independente que eu concorde com as opiniões dele ou não. Já contei algumas vezes que comecei a ler King com os livros de não ficção dele, e acho que isso pesou demais em delinear minhas coisas favoritas no autor. Então, quando vejo pequenas referências, quando entendo de onde ele tirou suas inspirações e, principalmente, quando ele faz uso e até subverte alguns tropos clássicos do gênero, eu fico encantada.

Talvez por isso Salem's Lot seja meu livro favorito dele. Mas isso é tema pra outro texto. 

O ponto aqui é que o King conhece casas assombradas, e Rose Red é um enorme reflexo disso.


A começar pela ideia de reunir um grupo paranormal e ir até um local assombrado. Durante os anos 1960 e 1970 (alguns anos para mais, alguns para menos), onde alguns dos maiores clássicos do gênero foram feitos, a citar Assombração da Casa da Colina (1959), Hell House (1971) e Golgotha Falls (1984), a parapsicologia estava em alta. Seja pelo envolvimento de Lorraine e Ed Warren em suas peregrinações assombradas pelos Estados Unidos, seja pelos casos de possessão que estavam pipocando mais que nunca em diversos lugares (Enfield, Amityville, o caso de Anneliese Michel e até mesmo o surgimento do livro O Exorcista, que narra uma experiência do final dos anos 1950 mas vê a luz e a popularidade nos anos 1970), o fato é que a parapsicologia ficou um tempo na moda. E, nessa, a literatura e até mesmo o cinema se aproveitaram para colocar grupos liderados por algum parapsicólogo para investigar fenômenos paranormais em locais assombrados.

E, é claro, aí temos a casa. Rose Red é uma força sobrenatural por si mesma. Ela é o amálgama de todas as casas assombradas que Stephen King consumiu avidamente ao longo dos anos e resultado de uma extensa pesquisa, isso é notado facilmente. Cenas que espelham esses romances consagrados que citei, além de referências óbvias como Shirley Jackson mencionada por um dos personagens e a casa Winchester, sempre com novos quartos, só comprovam que Rose Red é quase um parque de diversões para os fãs de terror: ela é o conjunto da obra, a casa assombrada final.


Se Rose Red tivesse tido um pouco mais de investimento, talvez uma mão mais firme na direção, um pouco mais de cuidado na produção e um roteiro mais limpo, ela poderia ser a maior casa assombrada de Stephen King — quiçá competindo diretamente com as maiores casas assombradas do terror.

Rose Red poderia ser ainda mais assustadora que o Overlook.

Para mim, a força de O Iluminado reside principalmente na ligação de Torrance com a bebida, e como isso o transformou em uma pessoa aberta aos horrores do Overlook. Um local assombrado, sim, mas mais ainda para aqueles que eram suscetíveis a ele. Muitas coisas horríveis aconteceram ali, como bem sabemos através do livro, e como, imagino, muitos fãs adorariam saber mais sobre o passado do hotel horripilante. Overlook tem seus fantasmas e é uma construção aterrorizante, com suas vontades próprias. Mas, e apesar de tudo, o Overlook é menos vivo, por assim dizer, do que uma Casa da Colina, ou uma Hell House. 

Diferente de Rose Red. 

Rose Red se constrói e desconstrói a seu bel prazer. Mais fascinante e perigosa (e com mais graduações na arquitetura e construção civil) do que a Casa Winchester, Rose Red se sobressai entre as casas mais perigosas da ficção.


Por que, então, ela falhou tanto em se fixar no imaginário dos fãs?

Infelizmente, pelos motivos citados anteriormente: sendo uma obra criada somente para as telas, eu tenho para mim que o roteiro não ficou da forma como poderia ter sido com as mãos do King em uma narrativa longa, por exemplo. Isso, é claro, é só especulação. Mas sinto que essa casa tinha um potencial absurdo, que ela poderia ser muito mais do que foi. A história da sua criação poderia e deveria ter sido melhor construída, seus fantasmas poderiam ser muito mais aterrorizantes com um carinho a mais pelo roteiro. 

Com a falta (ou mesmo a preguiça de detalhar, talvez) desses personagens base, desse background da história, dos motivos que levaram a casa até ali, a história se torna vazia. Independente do esforço para criar essa mansão assustadora, que pode fazer um milhão de coisas, como construir quartos e sumir pessoas, ela acaba perdendo sua força. 

Rose Red é um filme até chato de achar (mas tem no youtube do Cine Antiqua). Não é ruim, mas não é bom. Fica ali no eterno meio termo do que poderia ter sido, mas não foi. O que é uma pena. Rose Red é uma casa assombrada das mais interessantes, mas duvido que veremos mais dela, com uma melhor construção ou um melhor pano de fundo.


Observação post scriptum: há, sim, um livro sobre Rose Red. O livro se chama The Diary of Ellen Rimbauer: My Life at Rose Red, e foi escrito por Ridley Pearson, utilizando o pseudônimo da doutora Joyce. Houve uma adaptação mais tarde, em 2013. Mas não aumenta muito o lore principal da coisa toda. E, tecnicamente, não é do King, então não sei até que ponto podemos considerar canônico. 

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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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