Fright Like a Girl

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No sertão do nordeste, algo tem incomodado seus moradores. Histórias assombrosas, capazes de tirar o sono dos mais corajosos, ganham vida nas mãos de Márcio Benjamin em Sina.

Recebi Sina junto com os outros lançamentos incríveis de terror brasileiro da DarkSide Books em outubro do ano passado, e ainda não tive tempo de ler todos. Esse mês, pro Desafio Literário Fright das 5 às 7, cuja categoria era exatamente terror brasileiro, a minha intenção era ler vários títulos juntos e fazer um apanhadão de resenhas neste blog.

Mas a vida prega peças na gente, não é mesmo? Por sorte eu não me prendo a planos, e lerei os outros livros nos próximos meses. Mas resolvi começar com esse aqui.

Já conhecia o trabalho do Márcio de outros carnavais. Na verdade, tenho uma coleção dos livros dele aqui comigo (todos autografados, ok?), que comprei quando começamos a nos seguir no twitter certa vez. Meu primeiro contato com suas histórias foi com Maldito Sertão, e adorei todos os contos ali. Então, quando vi que o Márcio seria publicado pela DarkSide, achei muito legal. 

Em Sina, de Márcio Benjamin, acompanhamos Trancoso, um contador de histórias que, ao passar por uma cidadezinha, quando sua caminhonete chega aos fins de seus dias, acaba pedindo ajuda a um grupo de velhas paradas ali. Não sabendo que essas senhoras eram muito mais poderosas do que aparentavam, Trancoso lhes conta três histórias para que elas deixassem ele entrar na cidade sem maiores problemas.

Ao entrar na cidade, porém, Trancoso é confrontado por cenas de seu passado. Tentando fugir desesperadamente dali, ele acaba percebendo que tem algo muito errado com o local.

Ao longo do livro, que é dividido em pequenas partes, como se fossem contos, vamos descobrindo mais sobre a vida de Trancoso, sobre seus velhos conhecidos e sobre toda a estranha, excêntrica, curiosa e incrível vida que corre por esse sertão abençoado e amaldiçoado de Márcio Benjamin. Histórias que são contadas pelo personagem principal, que ecoam velhas narrativas já conhecidas por quem se interessa por nossas lendas, e até mesmo autores que fizeram história no horror brasileiro antigo.


Algumas das minhas partes favoritas, por exemplo, foram alguns ecos de "Os Porcos", de Júlia Lopes de Almeida, que Márcio Benjamin empregou de forma muito interessante ao longo de Sina. 

Ainda que trate de algumas histórias antigas, como lendas e folclores, Sina ainda tem um quê de atualidade. Benjamin também emprega uma forte crítica a algo que vemos em ascensão no Brasil nos últimos anos, que é a liderança religiosa utilizando a população como massa de manobra para seus próprios interesses, causando muito mais mal do que bem a comunidades que já são carentes de muito, deixando-os também carentes de espírito.

É um livro relativamente curto, gostoso de ler e que eu me diverti imensamente com algumas passagens. Adorei os personagens, as surpresas que o enredo guarda, a mistura do horror com outros gêneros e todos esses pequenos detalhes que acho que Márcio conduziu tão bem. 

Ah! e não menos importante, o livro tem ilustrações do Shiko, que é um artista incrível que faz coisas assim, sem condições. Então a obra toda é bem bacana.

Sina, de Márcio Benjamin, está disponível em edição física na Amazon* e na Loja Oficial da DarkSide Books.

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Em 2021 eu estava numa vibe meio O Exorcista. Li o livro que deu origem ao filme, do William Peter Blatty; Li Exorcismo, do Thomas B. Allen, que é a história real por trás do caso que inspirou Blatty a escrever o livro, e assisti aos filmes da franquia. Quer dizer, o primeiro e o terceiro eu tenho certeza que vi — o quarto eu cochilei, não porque o filme estava ruim, mas gosto muito de cochilar no sofá enquanto alguma coisa passa, e eu estava cansada nesse dia. O segundo e o quinto acho que não assisti até hoje.

O ponto é, alguns anos depois, estou aqui novamente falando sobre Exorcista. Não exatamente sobre Exorcista, mas sobre Legião. Recebi esse livro esses tempos atrás, junto de O Dicionário dos Demônios, e esse mês foi o momento e pegar ele para ler. Ouvi ele me chamando da estante, e foi uma leitura muito bacana.

Lançado pela DarkSide com tradução de Eduardo Alves, Legião acompanha a história do Detetive Kinderman, enquanto ele investiga uma série de assassinatos. Com as mesmas assinaturas de um antigo caso em que Kinderman trabalhou, o homem acaba ficando transtornado com a possibilidade daquele assassino, chamado Geminiano, ter sobrevivido quando todos achavam que ele estava morto. Kinderman parte, então, em busca de desvendar esse mistério. 

O plot é bem simples e o livro se parece muito mais com uma narrativa policial tradicional do que um livro de terror em si, apesar dos elementos sobrenaturais que estão inseridos aqui e ali. Aqui, apesar do horror, as coisas giram em torno da tentativa de Kinderman de achar o culpado dos assassinatos. Gosto dessa coisa de misturar elementos de vários tipos de narrativa, e acho que o que o Blatty fez aqui foi bem legal.

O assassino Geminiano lembra bastante o Zodíaco. Não tanto por suas assinaturas e seu modus operandi, mas tem alguns detalhes ali que tornam as histórias parecidas. Sua primeira vítima nessa nova leva de matança é um garotinho, seguido por padres. E aqui o caldo entorna um pouco, e as maiores reviravoltas se dão por causa desse motivos. É aqui, também, que está a ligação com O Exorcista, e alguns personagens da história anterior aparecem aqui também.


A história guarda muitas surpresas. Eu li extremamente atenta cada virada de página, porque a cada momento tinha algo novo que poderia acontecer. Quando você pensa que sabe o caminho que o livro está tomando, acontece uma coisa que te deixa até meio desnorteado das ideias. Me pegou muito de surpresa mesmo. Apesar de ter assistido o filme que adapta a obra, me lembro de pouca coisa, e também não poderia dizer se é uma adaptação fiel ou não.

Acho que o Detetive Kinderman merece um parágrafo a parte. De início, suas filosofias e seus pensamentos sobre a maldade presente no mundo estavam me tirando um pouco a paciência. Pensamentos longos, discussões consigo mesmo sobre o papel de Deus, suas intenções e afins, eu estava mesmo de saco cheio. Mas, chegando ao final, acho que tudo valeu a pena. Faz sentido, e fiquei emocionada com os últimos acontecimentos do livro, principalmente as últimas linhas. Não achei que o livro fosse me pegar tanto, mas me pegou.

Legião é o terceiro livro na trilogia de Blatty chamada "Trilogia da Fé", que começa com O Exorcista, segue para A Nona Configuração e encerra com este aqui. Apesar de Legião e Exorcista dividirem alguns personagens, eu não posso afirmar que A Nona Configuração também tenha essa ligação. Ainda não li e ainda não assisti o filme. Mas soube que Blatty considerava que A Nona Configuração era a verdadeira sequência de O Exorcista. Depois de escrever o livro, ele mesmo dirigiu o filme. Em seguida, também dirigiu Legião. Se você quiser saber mais sobre isso, tem esse texto aqui. Eu não li inteiro porque queria evitar spoilers, então fica o aviso.

Quero tentar assistir os três filmes em sequência, depois que eu ler o segundo. Acho que vai ser interessante. Gosto das questões levantadas por Blatty, ainda que, às vezes, eu perca um pouco a paciência.

Os livros O Exorcista, A Nona Configuração e Legião de William Peter Blatty podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto digital.


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Me lembro exatamente do momento em que me apaixonei pelo Stephen Graham Jones. Eu já tinha ouvido falar dele antes, em alguns sites, em listas de melhores livros de terror, mas ainda não tinha parado para ler nada dele. Mas certo dia vi o lançamento de My Heart is a Chainsaw, e aí eu tive *aquele* momento em que a gente olha para tudo de forma diferente. 

Na época eu não tava com grana pra comprar o My Heart, mas, por sorte, alguns dos ebooks do Jones não são tão caros, e resolvi comprar um livro de contos dele pra conhecê-lo melhor. Gosto de conhecer alguns autores por contos, quando é possível. Então comprei o The Ones That Got Away. Não terminei de lê-lo até hoje porque ele estava atrapalhando meu sono (sim, com pesadelos). Mas, logo no primeiro conto, "Father, Son, Holy Rabbit", já dá pra ter uma ideia da potência do autor.

Então, quando foi dezembro de 2021, eu li My Heart is a Chainsaw. O livro inteiro gritava "Jéssica, essa é pra você". Aí já era, eu estava completamente encantada e fascinada. Tem uma resenha dele aqui no blog. 

Sempre que eu tenho uma grana ou tem alguma promoção eu compro um livro do Jones. Já tenho, físicos, quatro deles em inglês (dois deles, devo dizer, comprei por menos de R$15,00 cada. Não sei o que tinha dado na Amazon, mas fiquei bem feliz). E mais uns dois ebooks. E, também, a edição em português de The Only Good Indians, Temporada de Caça, que foi lançado aqui ano passado pela DarkSide Books com tradução de Leandro Durazzo.

Pois bem, essa longa introdução do meu trajeto até aqui é só pra comentar que, quando peguei o livro de maior sucesso de Jones eu já tinha um histórico com ele. Não quero me gabar com isso, é só para dizer que eu já tinha uma ideia do que estava por vir.

Mas, se tratando do Stephen Graham Jones e sua escrita, a gente nunca tá realmente preparado.


Em Temporada de Caça, acompanhamos as consequências de um ato terrível de quatro homens no passado, enquanto eles lutam para sobreviver no presente. Alguns fugindo do que fizeram, outros se afogando na bebida, e até mesmo aqueles que realmente tentaram mudar de vida.

Lewis, Ricky, Gabe e Cass cresceram em uma reserva Blackfeet. Nenhum deles ligava muito para as tradições do grupo, com exceção talvez de Cass. No último dia da temporada de caça da região, algo horrendo aconteceu, que deixou marcas profundas na vida de todos — mas, principalmente, na vida de Lewis, que se lembrava do episódio com frequência conforme o aniversário de dez anos do que ficou conhecido por "Clássica Ação de Graças" se aproximava.

Um espírito vingativo começou a perseguir os quatro homens que haviam participado daquela tragédia. E cada um deles é caçado, assim como eles mesmos já haviam caçado antes. Cada um deles seguindo suas vidas têm seus próprios destinos interrompidos quando o ato que fizeram no passado finalmente vem cobrar seu preço.

É só disso que uma pessoa precisa, não? Uma boa amizade. Alguém com quem possa se soltar. Que segure a barra com você quando o resto todo for para o buraco.

Além desses personagens, temos também alguns outros importantes para a trama: Nathan e Denorah, dois jovens da nova geração da reserva; e, claro, o próprio espírito vingativo que persegue o grupo.

Assim como os outros livros do Jones, em sua maioria, acompanhamos personagens ou que residem em uma reserva indígena ou que saíram de lá. Outro elemento constante dos livros de Jones é a violência, truculência e muitas vezes irresponsabilidade da polícia diante de mortes indígenas, ou a constate culpabilização indígena diante de qualquer coisa que dê errado, seja na reserva, seja onde residem. Isso fica muito claro em My Heart, e fica muito claro em Mapping the Interior, e em Temporada de Caça não é diferente. Jones coloca no texto essas tensões que conhecemos bem de alguns noticiários. 

Assim como nos outros livros de Jones, também, não há meias palavras. Tudo é construído de uma forma muito bem articulada, muito crua, e terrivelmente tensa conforme avançamos para o final. 

Temporada de Caça é, acima de tudo, para mim, um livro sobre consequências. Como nossos atos reverberam para além da nossa vida, respingando até mesmo naqueles que estão próximos a nós.

O espírito vingativo utilizado por Jones é uma figura já até conhecido por alguns fãs de terror: a Mulher com Cabeça de Cervo, como foi traduzida, a Elk Head Woman, no original, e a Deer Woman, como também é reconhecida por aí. É uma figura vingativa na mitologia de alguns povos nativos americanos, e já apareceu em algumas outras obras, como no episódio sete da primeira temporada de Masters of Horror (do qual Jones até comenta sobre em seu agradecimento no livro), ou no quadrinho Bosque Profundo, de Carmen Maria Machado e Dani (que entrou nas minhas melhores leituras do ano passado, junto desse livro aqui, inclusive). 

Eu não posso recomendar mais a leitura de Stephen Graham Jones. Para mim, é um dos melhores autores da atualidade. Não só pra mim, claro, porque a enxurrada de prêmios que seus livros ganham anualmente também dizem alguma coisa, como o Bram Stoker Award, o Shirley Jackson Award e o Ray Bradbury Prize. Mas, se você quer uma opinião sincera de alguém apaixonada pelo gênero, eu digo de todo meu coração que Jones é uma aposta potente para trazer uns bons calafrios nas suas leituras.

Temporada de Caça, de Stephen Graham Jones, está disponível em edição física na Amazon* e na Loja Oficial da DarkSide Books. 


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Desde que comecei nessa cruzada com o terror eu me tornei uma pessoa razoavelmente corajosa. Consigo assistir e ler algumas coisas sem ser atingida diretamente por elas. Isso, há alguns anos atrás, teria sido impossível. Eu era muito impressionável. Acho que o terror do dia a dia me ajudou até a ficar um pouco anestesiada com o terror das telas e dos livros. O terror dessas produções, afinal de contas, pode funcionar de forma catártica: o saber que você está enfrentando uma situação de estresse emocional e vai sair vivo dali, diferente do terror diário.

Mas uma coisa que sempre me deixou com o pé um pouco atrás foram as casas assombradas. Para mim, saber que meu lar pode ser violado por presenças sobrenaturais (e naturais também, home invasion me deixa de cabelo em pé sempre que assisto) é algo aterrorizante. Eu lido com isso dormindo com a TV ligada em algum desenho, e na manhã seguinte tudo parece normal de novo.

O problema é que eu adoro livros e filmes de casas assombradas, espíritos, possessões, esse tipo de coisa. Gosto de fantasmas, gosto do que eles podem significar no terror; gosto até quando eles não significam absolutamente nada, somente uma presença que está ali, dividindo sua casa com você. Gosto, mas tenho medo. 

Passei por uma única experiência real de terror do que acho que foi um fantasma. É uma história longa e cheia de pormenores que não quero adentrar agora, mas vi uma figura agachada no banheiro de uma casa antiga. Eu vi, conversei com ela, achando que era minha mãe, segui até a cozinha e minha mãe estava na área de serviço. Eu me lembro como se fosse ontem. 

Há algo de fascinante nisso. No terror dessas presenças e na própria presença em si. Sou muito crente que muita coisa existe entre o céu e a terra, muito além do que sonha nossa vã filosofia, Horácio. Então essas histórias têm um peso em mim.

Dito isso, peguei para ler Amityville, do Jay Anson. Recebi a edição nova da DarkSide, com tradução de Eduardo Alves, que foi lançada no Halloween do ano passado, e resolvi pegar para ler agora no finalzinho de outubro. É engraçado, quando você trabalha diariamente com terror é muito difícil encontrar o que fazer de especial no Halloween. Eu poderia ler algum romance, talvez. Mas enfim. Continuei com minhas leituras de terror mesmo.

O livro de Anson ficou conhecido mundialmente por ser uma história supostamente real e porque dele resultou o filme Terror em Amityville, lançado em 1979, apenas quatro anos após os acontecimentos da casa assombrada da rua Ocean Avenue. 

No livro, conhecemos a família Lutz, que pegou todas as suas moedas escondidas embaixo do colchão e correu para comprar a casa dos sonhos: uma enorme casa, com três andares, no estilo holandês, com uma casa de barcos, excelente localização e um amplo quintal para as três crianças brincarem. Os pais eram George e Kathy Lutz — as crianças eram fruto do primeiro casamento de Kathy. Enfim, tudo parecia perfeito, conseguiram um bom valor pelo local. Mas claro, isso foi possível porque um crime medonho havia acontecido ali. No ano anterior, Ronald DeFeo assassinou toda sua família. Ao ser preso, DeFeo afirmou que ouvia vozes.

Como é de se esperar nesse tipo de narrativa, há um crescente de terror. Aos poucos, a família vai percebendo que existem situações naquela casa, presenças, horrores, uma história macabra, vários pedaços de um quebra-cabeça que, ao todo, formam uma imagem de um local sinistro e amaldiçoado. Conforme as pequenas coisas vão acontecendo, até formarem um mosaico com horrores grandiosos, nós já estamos desesperados, gritando com o livro, implorando que a família largue o osso e saia correndo pra já desse lugar infernal.


Eu não sou uma pessoa apegada. Quando leio esse tipo de coisa tenho cada vez mais certeza que ao mínimo sinal de acontecimentos assim eu já estaria a vários quilômetros de distância. 

Existe um tipo de livro que não importa que você saiba da história, não há spoiler que tire os seus sentimentos enquanto você acompanha a narrativa. Amityville é, pra mim, um desses livros. Eu não sei quantas vezes eu li a história por outros meios, ou assisti ao filme. Mas há algo na leitura, há algo em acompanhar essa história através das palavras. 

Enfim, eu fiquei aterrorizada em acompanhar as tragédias e situações incômodas e aterrorizantes que os Lutz passaram nessas páginas. É uma leitura muito intensa. Curta, mas se você tem medo de assombrações e fica impressionado com esse tipo de narrativa, você vai se pegar pensando nela ao longo dos dias. 

Quero abrir um parênteses especial para o texto de Marcia Heloisa ao final do livro. Marcia dá uma aula sobre casas assombradas e a tradição desse tipo de história, reunindo elementos do por que Amityville se tornou um livro tão duradouro no imaginário popular, e como fez tanto sucesso ao longo dos anos. É uma leitura excelente para refletir as características que a gente acabou de ler, um ensaio curto e que nos faz compreender algumas coisas sobre o livro. 

"Se o lar espelhava o país, estavam ambos expostos, vulneráveis, em perigo. E é justamente nesta baixa imunidade social que o horror dissemina o medo como vetor de contágio."

Não vou deixar nenhuma conclusão neste texto, se o que aconteceu em Amityville foi real ou não, porque esse não é meu papel. Não sou parapsicóloga, nem médium, ou advogada. Mesmo que tudo que estivesse escrito nestas páginas fosse o relato da mente frágil de uma família que não passou por tudo aquilo, mas acredita que passou, ainda sim o texto serve de documento e contexto, como bem demonstrou o ensaio de Marcia Heloisa, para um sentimento sobre aquele local. Independentemente de ser real ou não, é o que faz com que as pessoas sintam quando leem esse relato que me interessa. A mim, o sentimento foi medo. 

Amityville, de Jay Anson, na nova edição da DarkSide Books, pode ser comprado na Amazon* ou na Loja Oficial da editora. 


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Eu nunca fui uma pessoa da pesca. Quando era criança meu pai até tentou me levar para algumas pescarias, mas nunca rendeu frutos. Eu posso passar cinco horas ou mais na mesma posição lendo, mas passar mais de meia hora sentada, com uma vara na mão, esperando algum peixe desavisado aparecer e tentar se alimentar com a minha isca é demais para mim. 

Não sei se é por deixar o cérebro livre para todos os tipos de pensamento, contemplar o vazio, a espera, a inatividade, mas tudo isso me deixa inapta a praticar a pesca. Quem sabe eu ainda tente algum dia com fones de ouvido, ouvindo algum audiolivro, algum podcast, algo do tipo. Mas, por hora, simplesmente é uma atividade que não está no meu horizonte futuro.

Entretanto, eu cresci entre pescadores. Alguns parentes gostavam muito de pescar, e quando morei na área rural, na infância, e tinha um rio que passava a uma distância razoável de casa (mesmo rio que tentei aprender a pescar), lembro do pessoal que descia o pequeno barranco e ia até lá. 

Apesar de não ser uma atividade para mim, eu sempre fui muito curiosa em relação às atividades das pessoas. O que leva uma pessoa a amar a pescaria? Ficar horas no meio de um rio, parada, esperando? Às vezes embaixo de chuva, às vezes virar a noite? Mais do que gostar, sempre procuro entender. E acho que O Pescador, do John Langan, me deu algumas pistas sobre isso, depois de tantos anos.

O Pescador, escrito por John Langan, ganhador do Bram Stoker de 2016, foi publicado aqui no Brasil pela DarkSide Books, com a tradução de Débora Isidoro. Eu não conhecia o autor e fiquei muito curiosa para lê-lo. 

No livro, Abraham, ou Abe, é um cara comum, mas que desenvolveu um gosto muito forte pela pescaria depois da morte de sua esposa, Marie. Depois que ela faleceu, Abe primeiro caiu em um alcoolismo desenfreado, até se encontrar, de alguma forma, na pescaria. Trabalhando em um escritório durante o dia, Abe ia aos rios da região das Catskills, no estado de Nova York, para pescar um pouco. Depois de alguns anos de seu abismo pessoal, quando a tragédia da perda da esposa também destrói a vida de um dos seus colegas de trabalho, Abe se aproxima do rapaz, chamado Dan, e o leva para pescar com ele.

Algumas coisas conectam esses dois homens: as perdas das famílias, o sentimento de solidão, e o elo formado pela pescaria. Abe conta como era difícil se aproximar de Dan, como ele sentia que o colega tinha sentimentos duros demais com ele, se ressentindo pelo fato da esposa de Dan (e seus dois filhos) terem morrido em um trágico acidente, enquanto Marie, esposa de Abe, faleceu após um período doente — como se Abe tivesse tido o direito de se despedir, enquanto Abe não o teve. E, com essas controvérsias, como a pescaria se tornou a forma perfeita de ambos estarem em companhia, mas estarem sozinhos com eles mesmos; partilhando de um momento, mas sem precisar trocar amenidades.

Nesse momento acho que algo começou a fazer muito sentido para mim, como às vezes precisamos de companhia, mas também precisamos estar sozinhos, e como a pescaria pode ser a escolha perfeita de atividade para se fazer em grupo sem, necessariamente, estar em grupo. Às vezes nos deparamos com uma tristeza tão profunda que não podemos ficar muito tempo sozinhos, mas não queremos, também, conversar com ninguém. A pesca foi a forma que esses dois homens solitários e fechados encontraram para compartilhar um momento de dor enorme que ambos passaram e estavam passando. 


Mas O Pescador Ã© um livro de terror. E tudo isso é somente a primeira das três partes pela qual o livro é composto. Depois de um tempo indo pescar juntos, Dan sugere um local diferente para a pesca daquele fim de semana: um lugar conhecido como Dutchman's Creek. Enquanto estavam se dirigindo para lá e param para tomar café da manhã em um restaurantezinho que eles frequentavam, o dono do lugar conta a eles a estranha lenda que circula o local, a lenda do Pescador, que data de quase um século antes dos acontecimentos do livro, quando a região estava se formando. 

A lenda, contada pelo dono do restaurante, ocupa toda a segunda parte do livro. Nela, descobrimos que o local antes era uma vila, que foi despovoada para ser transformada em represa. Lá vivia um homem muito rico, que acabou se envolvendo com uma figura bastante estranha conhecida como Pescador. As coisas começaram a ficar bastante tensas no vilarejo quando uma mulher que, tecnicamente estava morta, começou a percorrer as ruas e a trazer uma série de infortúnios. Um dos habitantes do lugar, que tinha vindo da Alemanha com sua família após ter caído em desgraça por mexer com o que não devia e ter que recomeçar a vida nos Estados Unidos, acabou tomando para si a tarefa de lidar com o assunto.

Essa segunda parte foi minha favorita. É uma parte fluida, ágil, com capítulos curtos, como uma história em volta da fogueira (que são meus tipos de história de terror favoritas, deve ter a ver com as tardes que eu passava assistindo Are You Afraid of the Dark, quando menor).

"Você pode se perguntar por que estou tomando tanto cuidado. Algumas coisas são tão más que só por estarem perto de você já contaminam, deixam uma nódoa de maldade em sua alma como um caminho árido na floresta, onde nada vai crescer. Você acha que uma história pode transmitir tamanha maldade? Parece expectativa demais, não é?"

A terceira parte narra a pescaria em si. Langan já aponta que algo terrível acontece ali desde seus primeiros capítulos, preparando o leitor para o terror que vem na sequência. Não vou descrever o que acontece exatamente, mas vários momentos dessa terceira parte me deixaram em absoluto estado de "não creio que isso tá acontecendo", e aconteceu. 

Eu adorei a construção da lenda, os paralelos entre as histórias de todos os envolvidos, como tudo parecia se repetir tragicamente. Gostei muito da ambientação, da narrativa, e simplesmente adorei o final. Me surpreendeu muito. Foi um livro que demorei a ler, mais do que demoro normalmente, mas eu culpo o cansaço acumulado, não o livro, que tem uma narrativa instigante e que faz com que a gente queira continuar a leitura. As partes em que o próprio Abe diz que tudo não parece passar de "história de pescador", tamanho o absurdo daquilo que conta, deixa tudo ainda mais incrível e tão próximo de nós. Quem nunca ouviu uma boa história de pescador?

Você não precisa gostar de pesca para curtir a leitura de O Pescador, mas esteja preparado para criaturas estranhas, passagens que podem te tirar o sono e alguns acontecimentos dignos de embrulhar o estômago (Langan conseguiu algumas descrições bem vívidas em alguns momentos).

O Pescador pode ser comprado em formato físico pela Amazon*, na Loja Oficial da DarkSide Books, ou na sua livraria do coração.

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Audição, de Ryu Murakami

Gosto muito da literatura asiática. Pelo menos, de certa forma, posso dizer que gosto muito da literatura asiática estranha e violenta. Apesar de não passar tanto tempo me debruçando sobre ela quanto eu gostaria, percebo em algumas dessas obras uma série de elementos que me deixam muito instigada a ler mais e mais. Um desses elementos é a inadequação como ser humano, aos costumes, às tradições, aos sentimentos considerados próprios de nossa espécie. Percebi isso em A Vegetariana, de Han Kang; em Terráqueos, da Sayaka Murata (que escrevi resenha aqui); em Declínio de um Homem, do Osamu Dazai (também com resenha aqui no blog).

Essa é a parte da estranheza. Mas quando falo em violência, não é aquela violência da pancadaria, dos filmes de ação. É outro tipo de violência. É a violência que encontrei nos livros de Kanae Minato, em Confissões e Penitência. É uma violência mais profunda, mais velada, não exatamente sutil, mas mais subjetiva. 

Há algo de cru em todas essas narrativas que citei. Algo que nos deixa imediatamente desconfortáveis. Me lembro muito bem, por exemplo, de como foi o sentimento quando li Miso Soup, do Ryu Murakami. É aquela comichão que sobe pelas suas costas e abre caminho até seu peito. Você não espera nada do que vai acontecer ali, mas você sabe, você tem certeza, que dificilmente aquilo vai acabar bem. E você também sabe com certeza de que você não vai sair o mesmo daquela leitura.

O livro mais conhecido de Ryu Murakami, talvez, seja Audição, que chegou Ã s prateleiras brasileiras em uma edição da DarkSide Books (com tradução Lica Hashimoto e Juliana Kobayashi). E, claro, ainda com aquele gosto amargo de Miso Soup na boca, eu precisava conferir esse livro. Já tinha curiosidade antes, mas achei que essa seria a ocasião perfeita.

Audição, de Ryu Murakami

No livro, Shigueharu Aoyama é um viúvo, com um filho de cerca de quinze anos, que desde que sua esposa faleceu não encontrou ainda uma nova mulher com quem se casar. Quando seu filho questiona o motivo de ainda não ter se casado novamente, o homem passa a pensar: realmente, por quê? Então, começa uma busca com seu amigo, que trabalha produzindo filmes. Para essa busca, os dois inventam um filme que não existe e fazem algumas audições com algumas mulheres jovens e bonitas. Antes mesmo das audições, entretanto, Aoyama se apaixonada pelo currículo enviado por uma moça: Assami Yamassaki. 

Assami tem a delicadeza, beleza, juventude, educação, sutileza e tudo mais que Aoyama poderia querer. Apesar de todas as informações que ela deu no processo de audição não poderem ser confirmadas por ninguém, e mesmo que pouco se saiba de seu passado, Aoyama não se importa: ele está perdidamente apaixonado, e tem certeza de que se casará com a mulher. 

Mas há, sim, um mistério percorrendo a vida de Assami. Há algo obscuro e macabro que se envereda pela teia de seu passado. Alguns amigos tentam alertar Aoyama para que ele vá com cuidado, mas talvez já seja tarde demais.

Eu soube de Audição por causa do filme do Takashi Miike. É um daqueles filmes que está em todas as listas de melhores filmes de terror, violentos, assombrosos, de casos estranho, uma infinidade de motivos para assistir. Até hoje não assisti. Sou pouquíssimo resistente a filmes asiáticos. Assisto e fico dias sem dormir. Preciso de um estado de espírito muito especial para me aventurar. Mesmo que o filme não tenha nada de sobrenatural. Então, infelizmente, não posso dizer nada sobre o filme. 

Mas posso sobre o livro. Uma leitura bastante curta, com 184 páginas, extremamente fluida (com um ótimo trabalho de tradução), e que te faz segurar o ar algumas vezes, faz você pensar "ai meu deus, é agora que a vaca vai pro brejo". Eu me diverti muito lendo — bom, o meu tipo de diversão, aquele tipo de livro, ou filme, ou série, que faz a gente roer as unhas, que talvez não seja o tipo de diversão de todo mundo. Fiquei curiosa com o desenrolar da trama, com o que aconteceria, como as coisas acabariam. Gosto desse tipo de leitura que me mantém interessada em todos os pormenores, mesmo as descrições de ambiente.

Achei interessante essa busca de Aoyama pela mulher perfeita, cheia de detalhes, como uma checklist que deveria ser cumprida caso ele viesse a se casar de novo. É uma daquelas buscas que sabemos que, provavelmente, só vai render frustrações. No caso de Aoyama, entretanto, a busca rendeu um pouco mais que isso, com um desfecho um tanto mais macabro. 

É uma excelente leitura para um final de semana, quando você quer ficar vidrado em um livro, se esquecendo um pouco do mundo lá fora e só querendo entender para onde Ryu Murakami está conduzindo essa história. Tem, sim, sua boa dose de violência (nesse caso, também física, e até algumas descrições bem gore), então é bom deixar avisado.

Audição, de Ryu Murakami, pode ser comprado na Amazon* ou na Loja Oficial da DarkSide Books. 

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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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