Fright Like a Girl

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Certo dia, estava vagando pela Amazon, tentando decidir minha próxima leitura. Tenho optado por livros curtos. Desde que comecei a trabalhar efetivamente com livros, meu hábito de leitura tem se transformado constantemente. Não apenas o hábito, mas a forma e a relação que tenho com a leitura também.

Sou historiadora não praticante e revisora por profissão, e desenvolvi minha relação com o ato de ler desde muito cedo. Depois de todos esses anos, sinto que somos velhas amigas, as palavras e eu, e que tenho o mínimo de experiência necessária para falar sobre o assunto "ler". Li por lazer, li nos meus estudos, li por profissão, sigo lendo constantemente o que se coloque na minha frente — das placas nas ruas até as embalagens que ficam no banheiro. 

Desde que comecei a trabalhar, mesmo, como revisora, entretanto, percebi que nossa relação se alterou. De início ficou bem abalada, eu não queria saber se ler quando chegava ao final do dia. Depois, entendi que eu estava esperando algo dela que não me servia mais. Eu precisava trocar de expectativa. Eu não poderia competir com a Jéssica mais nova e com mais tempo, que lia de seis a dez livros por mês, que escrevia resenhas todas as semanas, que dava dicas de livros por aí. Essa Jéssica precisava se aposentar. A Jéssica que simplesmente curte ler, sem se cobrar, precisava entrar em ação.

Não me levem a mal, quando eu resenhava livros com constância eu amava ler e me divertia muito também. Também era uma leitura por prazer, mas era diferente. 

Então eu descobri que para manter essa relação eu precisava mudar meus hábitos e mudar minhas expectativas e mudar, também, minhas ações. Precisava me ouvir mais. O que, exatamente, eu quero ler nesse momento? O que vai me tirar o fôlego, me fazer virar as páginas? Descobri, recentemente, que em épocas de muito trabalho, não tem como, os livros curtos vão ser meus melhores aliados nessa tarefa. 

Comecei nessas escolhas com A Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói (trad. Lucas Simone, ed. Antofágica), e percebi que fluía muito bem. Então resolvi me aventurar pela não ficção, depois dele, porque tem sido uma das coisas que mais tem prendido minha atenção atualmente. A busca foi breve. 

Meses atrás li A Sangue Frio, do Truman Capote (trad. Sergio Flaksman), que faz parte da Coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras. Gosto de true crime e trabalho bastante com isso, então a leitura de A Sangue Frio me prendeu muito. Eu decidi percorrer os livros da Coleção e descobrir o que mais havia ali. Me deparei com a obra da Janet Malcolm. Eu já havia comprado A Mulher Calada, mas ainda não o li, porque tenho lido mais no kindle graças à sua luz embutida. O mais comum seria que eu começasse pelo livro mais conhecido e controverso dela, O Jornalista e o Assassino, mas comecei por Anatomia de um Julgamento (trad. Pedro Maia Soares).

Foi uma escolha muito acertada.

"A estranheza de Borukhova é sua característica definidora"

No livro, acompanhamos o julgamento de uma mulher chamada Mazoltuv Borukhova, acusada de estar envolvida na morte de seu ex-marido. Ambos judeus bucaranos, ambos imigrantes, ambos com uma condição econômica acima da realidade de muitos, uma classe média alta. O julgamento se desdobra com a condenação de Borukhova, e isso, em si, não é surpreendente. Conforme acompanhamos as jogadas da acusação e da defesa, fica bastante claro que a mulher será condenada.

O que nos interessa (e assombra, no meu caso) é a narrativa que Malcolm tece sobre esse julgamento. Com as transcrições do processo em mãos, indo ao tribunal e acompanhando em primeira mão o desenrolar dos fatos, Janet Malcolm destrincha diversos problemas na forma como esse julgamento foi conduzido, trazendo à luz os problemas da acusação, da defesa, do júri, do juiz, do sistema e dos jornalistas. Todos tiveram sua parcela ali. 

A questão, ao longo do livro, não é bem se Borukhova era culpada ou não, mas sim como o julgamento se precedeu. De um lado, a defesa tentava pintá-la como uma mulher respeitável, que havia construído sua vida nos Estados Unidos como médica; do outro, a acusação se recusando a chamá-la de doutora, pintando-a como uma megera; e ainda juiz e júri pendendo para o lado da acusação descaradamente, desde o princípio, colocando em prova um direito que deveria ter sido mantido, que a ré era inocente até prova em contrário (as provas eram circunstanciais).




Borukhova e seu ex-marido tinham uma filha, que se tornou um outro joguete de poder nas mãos desse sistema. Além de mulher fria e estranha, exótica e pouco respeitável, também quiseram taxá-la como uma mãe ruim. A mulher havia entrado diversas vezes com medidas protetivas e alertado às autoridades que seu marido tinha atitudes impróprias com a filha, e nunca foi levada a sério. Nesse ponto, o julgamento se assemelha perigosamente ao caso dos irmãos Menéndez. Porque o morto não estava presente para se defender, deixaram passar acusações graves que poderiam alterar para sempre os rumos das vidas envolvidas na questão.

No final, como bem diz Malcolm, "Ela se torna aquela que você imagina que ela é. O promotor levou os jurados a imaginá-la como uma pessoa totalmente má. O advogado de defesa não teve sucesso em substituir isso por uma caracterização diferente".

"Há uma espécie de buraco no centro do livro"

Malcolm não conseguiu entrevistar Borukhova. Presa desde o começo do julgamento, com visitas supervisionadas mensais de sua filha, Borukhova não falou sobre sua situação com Malcolm até o lançamento do livro, e não sei se falou depois. E não sei se era esse o ponto que importava.

Há mesmo, porém, um buraco na narrativa. Acompanhamos Borukhova pelos olhos de todos, menos por si mesma. Apesar de testemunhar em seu próprio julgamento, e apesar de muitos falarem sobre ela, vislumbramos apenas a sombra, a carapaça, da mulher que foi acusada de um conluio para matar seu marido. 

Nesse ponto, Borukhova me lembrou Rebecca. Ao longo do livro de Daphne du Maurier, vamos formando a imagem de Rebecca através dos personagens envolvidos na trama, mas a mulher já morreu. Não sabemos sua história, e todos os personagens são parciais em suas opiniões. Borukhova também me lembrou Bertha, que ao longo de Jane Eyre é apenas um ruído no sótão, e termina sua participação como uma incendiária — dela, mesmo, não ouvimos sequer uma palavra.

A literatura, seja ela qual for, e até mesmo a vida, afinal, é isso. Jamais vamos saber todas as partes de um todo. Qual narrador pode ser considerado confiável? Que histórias nós, quando vamos contar uma história, queremos contar?

As palavras são uma coisa impressionante, ricas e perigosas em igual medida. Ler é realmente um dos melhores passatempos que podemos ter. E acho que no final a questão é apenas essa: compreender como esse hábito pode ser transformador, como pode ser um abrigo e também um descampado enorme no meio de uma tempestade — em ambos os casos trazendo coisas boas. Fiquei feliz em reencontrar minha velha amiga, a leitura, sair pra tomar café e até mesmo escrever um texto sobre um livro, assim, depois de tanto tempo. 

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Lendo textos e ensaios e livros sobre a história do terror (na literatura e no cinema), é impossível, praticamente, não encontrar menções ao livro Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson. Considerado um dos grandes clássicos do gênero do século XX, o livro inspirou uma série de outros autores e de tendências nos anos após seu lançamento. 

Quando tive que escolher um livro apocalíptico para o Desafio Fright das 5 às 7 de junho, eu logo pensei nele. Como vocês, fiéis seguidores, podem ter percebido, tenho escrito pouco aqui, porque, na verdade, tenho lido pouco. Tenho dormido mais cedo e lido menos, então pensei em escolher um livro que já estava há muitos anos na minha lista de leitura e que ainda não tinha tido a oportunidade.

Eu sou a Lenda (li na edição da Aleph, com tradução de Delfin) conta a história de Robert Neville, um homem que se vê sobrevivendo sozinho em um mundo assolado por uma praga que transformou a todos em mortos-vivos vampiros. Ao longo do livro, através da narração em terceira pessoa, descobrimos aos poucos o que aconteceu com o mundo que o fez chegar a esse ponto, como são esses vampiros, quais são suas características especiais e o que faz deles uma ameaça tão potente. 

Neville era um cara que tinha esposa, tinha uma filhinha, e tudo lhe foi tomado por essa terrível realidade que se abateu sobre ele. Nós acompanhamos o dia a dia de um homem alquebrado, mas espantosamente são (apesar de seus momentos de devaneios e raiva), visto que por muito menos outros teriam perdido completamente a cabeça (eu teria).


A narrativa de Eu Sou a Lenda também não pega leve com Neville. Ele não é exatamente um cara legal, ótimo, boa pinta. Ele é um cara que tem seus defeitos (e vários) e isso fica muito claro pela forma como ele pensa nas mulheres e seu instinto sexual diante de estar sozinho no mundo, na forma como ele lida com determinadas situações, na forma como ele se sente quando está completamente sozinho e afunda a cara na bebida. 

Se isso é bom ou ruim, aí vai do leitor. Mas é interessante ver como isso é colocado ao longo da história. Para mim, o fato de ele ser um cara extremamente humano diante de uma situação tão catastrófica e essas sensações extremamente humanas dele serem expostas da forma que estão conforme avançamos no livro deixa as coisas ainda mais críveis.

Em um mundo de horror monótono, não podia haver salvação, nem nos sonhos mais loucos. Ao horror, ele se ajustou.

Um dos pontos altos do livro de Matheson, para mim, foi o desespero que emana repetidamente dessas páginas. O começo é morno, mas conforme avançamos em direção ao final nosso próprio desânimo enquanto leitores, pessoas que acompanham essa história, aumenta junto ao do personagem. Há uma situação mais ou menos no meio do livro que leva esse sentimento doloroso ao ápice para que, no final, a gente solte um suspiro pesado de terror que ficou entalado na garganta desde aquele momento.

É bacana acompanhar essa derrocada. É uma descida ladeira abaixo com uma sensação de vazio constante que preenche a gente. É, um vazio que preenche, sim. A gente fica meio desacreditado, mas completamente ciente daquilo tudo. E uma coisa que o Matheson coloca ao longo da narrativa, mais de uma vez aliás, é essa capacidade do ser humano de se adaptar a quase qualquer coisa, por pior que seja. 

É bastante deprimente, sim, mas muito crível. Não crível do tipo "meu deus, os vampiros vão dominar o mundo". Mas crível do tipo "caramba, os seres humanos podem sim ser, e sempre que tiverem a chance serão, horríveis".

Não quero dar spoilers, mas também preciso mencionar que adorei a forma como ele quis lidar com a tradição dos vampiros. Nessa realidade de Eu Sou a Lenda, as histórias de vampiros existem. Ele cita Drácula e alguns outros, e essas histórias chegam a auxiliar nosso protagonista a entender o que pode estar acontecendo. Mas, na verdade, é tudo extremamente científico. É um toque bem bacana.

Conforme os anos se passam eu fico mais interessada de ler algumas dessas histórias. Talvez, se eu tivesse lido esse livro há alguns anos, eu não teria gostado dele tanto quanto gostei hoje. Então acho que meu instinto de dar tempo ao tempo tem sido muito útil para mim.

Ainda não assisti o filme com o Will Smith de 2007. Na verdade, só vi a adaptação com o Vincent Price. Queria ter assistido ambas antes de fazer o texto, mas não tive tempo (passei meu final de semana inteiro assistindo Terrifier), então esse complemento vai ter que ficar para outra hora. Mas foi uma leitura que eu gostei bastante de fazer, e finalmente posso tirar esse livro da minha lista de leitura.

Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, está disponível na Amazon* em formato físico ou ebook.



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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
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Em junho do ano passado li Rinha de Galos, da María Fernanda Ampuero. Foi meu primeiro contato com a literatura da autora, que já tinha sido extremamente recomendada para mim. Comentei algumas vezes aqui no blog do quanto gosto da literatura da América Latina, principalmente da escrita por mulheres, então é claro que assim que me foi possível eu fui atrás de Rinha de Galos.

O livro é um chute na cara e um soco no estômago extremamente bem dados. Falei um pouco dessa leitura aqui no blog. Então, quando a Editora Moinhos trouxe outro livro da autora, Sacrifícios Humanos, eu logo adicionei na minha lista. Aproveitei para lê-lo esse mês, no Desafio do Conforto Literário, que organizei com a Michelle e estou participando desde janeiro.


 Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero (Editora Moinhos, com tradução de Silvia Massimini Felix), é, assim como Rinha de Galos, uma antologia de contos curtos, com 12 contos no total. O livro, também, é bem curtinho, com menos de 120 páginas, mas passa na sua vida como um furacão dos mais potentes.

Ao longo dos contos nos deparamos com histórias dramáticas e cruéis, histórias de violência e horror, de imigração e de raízes e tradição, de mulheres que caem nas histórias de homens que, logo em seguida, lhes mostram a verdadeira face. De trabalhadores e trabalhadoras e sofrimento e suor e sangue. Há também uma certa inocência e ironia em algumas personagens dos contos.

Mulheres desesperadas são a carne da moenda. Nós, imigrantes, além disso, somos os ossos que trituram para que os animais comam.

A maioria das histórias reunidas em Sacrifícios Humanos se apoia no dia a dia, na humanidade e na sua própria podridão mas há uma inclinação sobrenatural em alguns deles, como em "Irmãzinha" e "Sacrifícios". Mas isso é apenas um pequeno artifício para o terror palpável, para o terror de carne e osso que se esconde nas narrativas de Ampuero.

Meus contos favoritos do livro foram "Biografia", "Irmãzinha" e "Invasões". Senti que Sacrifícios acaba sendo "mais leve" que Rinha de Galos, ainda que ambos tenham leituras pesadíssimas. Mas, de alguma forma, mesmo que ambos falem dos mesmos temas, a leitura me pareceu menos tenebrosa. Como comentei na resenha do outro livro, em que eu tive que parar vários momentos para consertar meu rosto, que estava retorcido de nojo, esse eu não tive tantos momentos assim.


Me pareceu que a violência aqui era muito mais direta, muito mais mundana. Não era tão absurdo como Rinha. Como assistir a um noticiário, sabe? Não é apatia, é só que você meio que conhece algumas daquelas histórias, você espera que elas se desenrolem da forma que se desenrolam. E isso não é uma crítica negativa. Ver certas narrativas de abusos e horror narradas dessa forma, no livro, expõe diversos sentimentos nossos, todos de uma vez. Sabemos que são histórias de ficção, mas são histórias que poderiam ser reais (e que acabam sendo, em diversos lugares), e isso sempre mexe muito com a minha cabeça.

Eu acho que se eu fosse recomendar um livro para começar a ler María Fernanda Ampuero, seria esse aqui. E, depois, seguir com Rinha de Galos. Acho que funciona bem, ainda mais para quem não está acostumado com a literatura absurda e estranha da América Latina.

Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero, pode ser comprado em formato físico ou ebook na Amazon* ou no site da Editora Moinhos.

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Afinal, o que é um cientista fascinado pelo poder dando à vida uma Criatura a partir do zero perto da total e completa maldade e preconceito do ser humano?

Perdi as contas de quantas vezes li e reli Frankenstein, de Mary Shelley. A ocasião mais recente foi a trabalho. Parece que todas as vezes que leio esse livro eu saio dele com uma coisa nova no coração. A grandeza dos detalhes, a forma como Mary inseriu tantas referências de sua vida ao longo da narrativa que escreveu tão jovem — isso, por si só, um enorme feito, seja hoje em dia, seja em 1816. 

Frankenstein é um dos meus livros favoritos não por acaso. Acho que ele tem uma alma tão profunda, tão decente, tão honesta e ainda assim tão simples, que faz dele mais do que completo: para mim (e para muitos, ainda bem) ele é uma obra-prima de primeira qualidade. Uma das maiores criações humanas, um dos maiores elogios ao ato de saber ler e poder encontrar razão (e um sem-número de emoções) em suas linhas.

Uma coisa que nunca muda, para mim, desde a primeira vez que li esse livro, há alguns anos, é a forma como a Criatura é um ser incompreendido. Abandonado e solitário, a Criatura de Frankenstein é um dos maiores exemplos de como o ambiente e os agentes externos podem alquebrar uma alma, transformar o coração. 

Como uma jovem com tão pouca idade conseguiu expressar em palavras como é se sentir extremamente só, abandonado e desiludido? Se sentir completamente diferente de todos os seus pares, mesmo que eles não fossem iguais a eles, transformando-o em um pária antes mesmo que ele tivesse seus arroubos violentos contra seu criador?

Talvez ela mesma tenha passado por situações em que se sentiu um espírito forasteiro. A história de Mary Shelley é cheia de detalhes tristes, onde ela teve que se diminuir tantas e tantas vezes para caber em lugares menores. Filha de dois gênios da literatura política do final do século XVIII, não digo que ela estava fadada ao sucesso, ou que grandes coisas esperavam por ela. Mas como caber em lugares tão pequenos quando se tem uma alma, um espírito e uma vida tão grandes?

O que eu tiro dessa centésima leitura de Frankenstein, dessa vez, é como a solidão e o abandono são alguns dos verdadeiros horrores que encontramos nessas páginas. 

A narrativa já se inicia com as cartas de Walton contando à sua irmã, Margareth, como este se sente sozinho e como deseja, ardentemente, um companheiro a quem dividir seus momentos felizes e seus momentos tristes. Em sua empreitada pela glória, em um experimento científico que espelha, de certa forma, o do próprio Victor Frankenstein, Walton se encontra solitário. 

Victor, também, ao se encontrar com Walton, se sente solitário, mas por motivos mais complexos. Através do remorso e da miséria que sente em seu coração por ter criado algo tão sacrílego quanto uma Criatura a partir do zero, longe das concepções aceitas por Deus e pela sociedade de dar à vida, Victor se afasta da convivência. Primeiro, se tranca em seu quarto ao longo de seus estudos; em seguida, retornando para a casa de seus parentes, passa três dias, já se avizinhando de sua cidade natal, para ficar sozinho. Quando acontece o incidente de Justine, novamente Victor se recolhe à solidão.

Mas quem mais sofre com a solidão e com o abandono, sem ter escolhido por isso, é a própria Criatura.

Yet mine shall not be the submission of abject slavery. I will revenge my injuries; if I cannot inspire love, I will cause fear.

A solidão da Criatura, entretanto, vem de um lugar completamente diferente da solidão sentida por Walton e Victor. Enquanto os dois, jovens que sonham (e já sonharam, antes) em buscar a grandeza, se sentem sozinhos um por se estimar demais, e outro por se estimar de menos, a Criatura é só porque lhe foi negada qualquer tipo de companhia. Longe de ser um estado que escolheu, ele está ali por imposição.

Walton acredita piamente, como podemos ler através de suas cartas, que os marinheiros que ele escolheu (e alguns até que levou até a morte) não eram dignos de sua amizade. Pessoas simples, até rudes, são meros servos em sua empreitada. Victor, por outro lado, desde que começou sua investigação sobre como fazer vida através do que já está morto, se colocou no lugar de solidão por pura comiseração que sente por si mesmo. Pobre Victor, o jovem rico que, graças a atitudes irresponsáveis, agora se vê seguido por aquilo que não deveria ter feito. 

A Criatura, ao contrário, sonha em ter companhia. Qualquer uma. Ele procura incansavelmente qualquer companhia que possa lhe querer. Vaga por diversos lugares, sendo maltratado e escorraçado por onde quer que passe. Ele só quer alguém para ter com quem aproveitar a vida, que ele, que a ganhou de forma tão a contragosto, acha maravilhosa. 

E desse sentimento de solidão da Criatura nasce sua revolta. Novamente, se comparado a Walton ou a Victor, a Criatura é muito mais humana. Walton e Victor, ao se negarem essa companhia, essa amizade, caem em um lugar de autopiedade que, às vezes, soa ridícula aos ouvidos. Não querem compartilhar seus fardos e suas alegrias com seus iguais, os dois por seus próprios motivos, mas se sentem os seres mais tristes que já pisaram na Terra. 

Enquanto isso, a Criatura é acusada de ser um monstro vil e perigoso. Culpado dos maiores ultrajes (até daqueles que ele não fez), o que resta a ele a não ser pedir uma igual, para que possa ter, também, qualquer um para desfrutar da companhia? E até isso lhe é negado, porque Victor acredita firmemente, desconhecendo completamente aquilo que criou, que a Criatura é realmente um poço de destruição. E é desse lugar que nasce a raiva mais profunda da Criatura. É aqui, também, que a solidão dos três fica tão evidentemente diferente.

Am I to be thought the only criminal, when all humankind sinned against me? (...) I, the miserable and the abandoned, am an abortion, to be spurned at, and kicked, and trampled on. Even now my blood boils at the recollection of this injustice.

Ao longo dos anos, Frankenstein foi interpretado (e reinterpretado e utilizado) de diversas formas. Em sua primeira e mais óbvia camada, vemos uma história de um homem inebriado por poder, que lida com coisas que não deve, e acaba criando um "monstro terrível". Em suas camadas mais profundas, porém, existem tantos temas e detalhes, tantas pequenas belezas e situações aterrorizantes, que poderia gerar conversas por mais quatrocentos anos. Frankenstein, assim, também se torna atemporal. 

Ao longo de sua vida, Mary também se sentiu sozinha diversas vezes. Não por escolha, na maior parte delas. Quando se casou com Percy, por mais feliz que estivesse, Mary foi atirada porta a fora de sua própria casa por seu pai. Ao longo dos anos, com as aventuras do marido e falta de dinheiro, Mary também deve ter sentido o peso da solidão sobre os ombros algumas vezes. E, aos poucos, foi perdendo aqueles que eram mais caros a ela: filhos que não nasceram, ou que nasceram mortos, ou que morreram pouco tempo depois, irmã, Percy, amigos.  

Não posso dizer com certeza que tudo que Mary escreveu em Frankenstein foi totalmente premeditado, se minha leitura dessa solidão que toma as páginas do livro é algo que eu mesma quis ver, que me saltou aos olhos, em um momento em que eu me sinto solitária. Entretanto, se eu pudesse me encontrar com a Mary Shelley uma única vez, eu perguntaria a ela se sua criação monstruosa lhe trouxe algum tipo de acalento. Se ela deixou, pelo menos um pouco, de se sentir sozinha.

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O que acontece quando um cara entendido de terror se propõe a fazer um filme com diversos elementos e características de casas assombradas, reunidos em um único lugar?

Rose Red é uma minissérie de 2002, escrita por Stephen King e dirigida por Craig R. Baxley. Diferente da maioria esmagadora de outras obras do King, essa aqui não foi adaptada de um livro do autor (não confundir com Rose Madder, que não tem nada a ver com essa história). Rose Red é, na verdade, criada especialmente para as telas. 

Isso tem uma história por trás: dizem por aí que King queria fazer um remake de Desafio do Além, lançado em 1963 e dirigido por Robert Wise, que adapta o livro Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. King é um grande fã de Jackson, então apresentou a ideia para o Spielberg. Ninguém sabe bem o que houve, mas o Spielberg não se interessou muito. Não sabemos se era porque ele estava em outra vibe ou o que aconteceu. O roteiro do King ficou guardado, e três anos depois da Dark Castle surgiu com A Casa Amaldiçoada, dirigido pelo grande Jan de Bont que errou demais a mão nessa farofa.

Aí, em 2002, King apareceu com Rose Red. Na história, a mansão amaldiçoada Rose Red foi construída no centro de Seattle como presente de casamento de John Rimbauer para sua esposa Ellen. Desde cedo a casa era bastante estranha, tudo bem, mas as coisas começaram a piorar com os anos: os homens eram mortos pela casa, e as mulheres desapareciam. Em uma atividade semelhante à da casa Winchester, Ellen começou a construir quartos em Rose Red. Quando Ellen morreu, a casa começou a se construir sozinha.

Muitos anos depois, a professora de psicologia dra. Joyce Reardon (Nancy Travis) reúne um grupo de paranormais para irem até Rose Red. A casa está adormecida, afirma ela, então não há perigo para aqueles que aceitarem ir. Ela promete um pagamento de $5 mil dólares para cada um deles, e ca\da um deles tem um talento especial: Emery Waterman (Matt Ross), um vidente com retrocognição que consegue ver espíritos; Nick Hardaway (Julian Sands), um telepata poderosíssimo; Pam Asbury (Emily Deschanel), que tem habilidades psicométricas e, quando toca em algo, consegue sentir as vibrações e estados pelos quais o objeto ou pessoa passou; Cathy Kramer (Judith Ivey), que tem habilidades de psicografia; e Victor Kandinsky (Kevin Tighe), que tem precognição. O grupo é quase como os Vingadores dos médiuns. 


Mas Joyce está interessada particularmente em uma outra pessoa: Annie Wheaton (Kimberly J. Brown), uma adolescente com poderes que deixa todos os outros médiuns no chinelo. Depois de muito insistir e de oferecer ainda mais dinheiro a ela, sua irmã, Rachel (Melanie Lynskey), aceita levá-la para o experimento em Red Rose.

Além desse grupo no mínimo excêntrico, está também Steven Rimbauer (Matt Keeslar), único herdeiro da família Rimbauer e atual proprietário da mansão Rose Red.

Se você tem algum contato com histórias clássicas de casas assombradas (principalmente aquelas feitas ali pelos anos 1960 e 1970) e/ou com as histórias do Stephen King, você deve imaginar que as coisas aqui não terminam muito bem para uma parte dos envolvidos. Joyce é, na verdade, uma mulher que tem perseguido a fama e quer, a todo custo, volta a fazer sucesso. Os membros de sua comitiva mediúnica são somente peões em seus vontades. E isso fica claro a nós desde muito cedo no filme. 

Mas o ponto alto da trama não está em seus personagens, infelizmente. King consegue criar personagens cativantes sempre, ao mesmo tempo que consegue criar aqueles personagens que a gente tem vontade de dar um chute no traseiro, é verdade (mesmo com todos os tropos que o autor segue em seus personagens, que eu já mencionei no texto de Joyland); mas aqui, em Rose Red, eu acho que o grande e maior triunfo de King é em sua casa assombrada, a própria Rose Red.

Dentre as casas assombradas, a mais assombrada

Uma das coisas que eu mais gosto no Stephen King é a forma como ele conhece o terror, independente que eu concorde com as opiniões dele ou não. Já contei algumas vezes que comecei a ler King com os livros de não ficção dele, e acho que isso pesou demais em delinear minhas coisas favoritas no autor. Então, quando vejo pequenas referências, quando entendo de onde ele tirou suas inspirações e, principalmente, quando ele faz uso e até subverte alguns tropos clássicos do gênero, eu fico encantada.

Talvez por isso Salem's Lot seja meu livro favorito dele. Mas isso é tema pra outro texto. 

O ponto aqui é que o King conhece casas assombradas, e Rose Red é um enorme reflexo disso.


A começar pela ideia de reunir um grupo paranormal e ir até um local assombrado. Durante os anos 1960 e 1970 (alguns anos para mais, alguns para menos), onde alguns dos maiores clássicos do gênero foram feitos, a citar Assombração da Casa da Colina (1959), Hell House (1971) e Golgotha Falls (1984), a parapsicologia estava em alta. Seja pelo envolvimento de Lorraine e Ed Warren em suas peregrinações assombradas pelos Estados Unidos, seja pelos casos de possessão que estavam pipocando mais que nunca em diversos lugares (Enfield, Amityville, o caso de Anneliese Michel e até mesmo o surgimento do livro O Exorcista, que narra uma experiência do final dos anos 1950 mas vê a luz e a popularidade nos anos 1970), o fato é que a parapsicologia ficou um tempo na moda. E, nessa, a literatura e até mesmo o cinema se aproveitaram para colocar grupos liderados por algum parapsicólogo para investigar fenômenos paranormais em locais assombrados.

E, é claro, aí temos a casa. Rose Red é uma força sobrenatural por si mesma. Ela é o amálgama de todas as casas assombradas que Stephen King consumiu avidamente ao longo dos anos e resultado de uma extensa pesquisa, isso é notado facilmente. Cenas que espelham esses romances consagrados que citei, além de referências óbvias como Shirley Jackson mencionada por um dos personagens e a casa Winchester, sempre com novos quartos, só comprovam que Rose Red é quase um parque de diversões para os fãs de terror: ela é o conjunto da obra, a casa assombrada final.


Se Rose Red tivesse tido um pouco mais de investimento, talvez uma mão mais firme na direção, um pouco mais de cuidado na produção e um roteiro mais limpo, ela poderia ser a maior casa assombrada de Stephen King — quiçá competindo diretamente com as maiores casas assombradas do terror.

Rose Red poderia ser ainda mais assustadora que o Overlook.

Para mim, a força de O Iluminado reside principalmente na ligação de Torrance com a bebida, e como isso o transformou em uma pessoa aberta aos horrores do Overlook. Um local assombrado, sim, mas mais ainda para aqueles que eram suscetíveis a ele. Muitas coisas horríveis aconteceram ali, como bem sabemos através do livro, e como, imagino, muitos fãs adorariam saber mais sobre o passado do hotel horripilante. Overlook tem seus fantasmas e é uma construção aterrorizante, com suas vontades próprias. Mas, e apesar de tudo, o Overlook é menos vivo, por assim dizer, do que uma Casa da Colina, ou uma Hell House. 

Diferente de Rose Red. 

Rose Red se constrói e desconstrói a seu bel prazer. Mais fascinante e perigosa (e com mais graduações na arquitetura e construção civil) do que a Casa Winchester, Rose Red se sobressai entre as casas mais perigosas da ficção.


Por que, então, ela falhou tanto em se fixar no imaginário dos fãs?

Infelizmente, pelos motivos citados anteriormente: sendo uma obra criada somente para as telas, eu tenho para mim que o roteiro não ficou da forma como poderia ter sido com as mãos do King em uma narrativa longa, por exemplo. Isso, é claro, é só especulação. Mas sinto que essa casa tinha um potencial absurdo, que ela poderia ser muito mais do que foi. A história da sua criação poderia e deveria ter sido melhor construída, seus fantasmas poderiam ser muito mais aterrorizantes com um carinho a mais pelo roteiro. 

Com a falta (ou mesmo a preguiça de detalhar, talvez) desses personagens base, desse background da história, dos motivos que levaram a casa até ali, a história se torna vazia. Independente do esforço para criar essa mansão assustadora, que pode fazer um milhão de coisas, como construir quartos e sumir pessoas, ela acaba perdendo sua força. 

Rose Red é um filme até chato de achar (mas tem no youtube do Cine Antiqua). Não é ruim, mas não é bom. Fica ali no eterno meio termo do que poderia ter sido, mas não foi. O que é uma pena. Rose Red é uma casa assombrada das mais interessantes, mas duvido que veremos mais dela, com uma melhor construção ou um melhor pano de fundo.


Observação post scriptum: há, sim, um livro sobre Rose Red. O livro se chama The Diary of Ellen Rimbauer: My Life at Rose Red, e foi escrito por Ridley Pearson, utilizando o pseudônimo da doutora Joyce. Houve uma adaptação mais tarde, em 2013. Mas não aumenta muito o lore principal da coisa toda. E, tecnicamente, não é do King, então não sei até que ponto podemos considerar canônico. 

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A Silvia Moreno-Garcia é uma das grandes autoras da atualidade quando falamos de horror e assuntos afins, e tem feito um sucesso considerável entre os fãs de histórias de mistério. Seu primeiro livro publicado em português, Gótico Mexicano, conta a história sobre uma jovem que viaja ao interior do México, para resgatar uma prima que está em um relacionamento fadado ao fracasso. 

É uma leitura tensa e cheia de características sobrenaturais e estranhas que torna a leitura um prato cheio. O repertório de Moreno-Garcia, quando falamos de terror, é excelente. Além disso, as origens latinas da autora aparecem em suas histórias e isso deixa tudo mais interessante. 

Este ano, a Editora Melhoramentos trouxe a tradução de um dos livros mais recentes de Moreno-Garcia, A Filha do Doutor Moreau (com tradução de Bruna Miranda) e carinhosamente me enviou o livro para resenha. Fiquei muito feliz com o envio, e agradeço muito a Editora Melhoramentos. 

Primeiro contexto: literário

Li A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells (na tradução de Laurent de Saes e na edição da Via Leitura) ano passado, alguns meses depois do lançamento do livro da Silvia. Já era um livro que eu queria ler há muito tempo, mas até então tinha adiado essa leitura. É um daqueles projetos que a gente inventa e que nunca consegue cumprir, do tipo "nossa, precisava ler mais coisas do H. G. Wells". Um dia vai dar certo.

Em A Ilha do Doutor Moreau, um náufrago acaba sendo resgatado por um navio onde conhece um homem estranho, chamado Montgomery, que tenta ajudá-lo mas se nega a dar abrigo a ele. Sem ter lugar pra onde ir e sem conseguir nenhum tipo de carona para o continente, esse náufrago vai parar na ilha para onde Montgomery está indo — muito a contragosto de Monty, devemos admitir. E logo a gente descobre o motivo: Montgomery trabalha para Dr. Moreau, um homem ainda mais estranho e isolado do mundo, e que faz experiências, criando híbridos de homens e animais.

O Dr. Moreau é um baita megalomaníaco que acha que a ciência pode explicar tudo e por ela vale tudo. Existem poucas pessoas vivendo na ilha, porque além de tudo ele é paranoico. Montgomery é seu braço direito e faz o trabalho sujo por ele. Um cara bem pocas ideias mesmo.

Nosso náufrago se vê em uma situação complicada quando começa a conviver com esse cenário, essas criaturas, e esses dois homens tão diferentes mas que carregam seus próprios demônios sobre os ombros. 

A releitura

Já em A Filha do Doutor Moreau, de Silvia Moreno-Garcia, as coisas são um pouco diferentes: Vivendo em um local isolado no México, em Yaxaktun, que fica em Iucatã, Carlota Moreau passa seus dias convivendo com seus amigos, Lupe e Cachito, com Ramona, uma mulher que vive na casa e lida com várias questões, para além da cozinha, e com seu pai, Dr. Moreau. Após a demissão de seu antigo ajudante, Moreau precisa de um novo trabalhador em sua propriedade. Montgomery chega até ele apresentado pelo sr. Lizalde, dono da propriedade. 

A propriedade de Yaxaktun é cedida a Moreau por Lizalde para que o homem faça seus experimentos longe de sua terra natal, Paris, pois as pessoas lá não reconheciam seus ideais científicos e ficavam alarmadas quanto a suas experiências. Então, em recompensa, Moreau realiza seus experimentos para Lizalde afirmando que irá recompensá-lo com o que ele precisa: trabalhadores.

E é aí que entra Montgomery e os híbridos. O experimento de Moreau nada mais é do que misturar os genes humanos e animais e criar criaturas a partir disso. Sua propriedade que, para o restante das pessoas, é um hospital para tuberculosos, na realidade é o centro científico de uma tarefa insana. 

Quando Montgomery chega ao local ele logo percebe a estranheza disso tudo, mas uma antiga dívida faz com que ele aceite o trabalho. Montgomery é um cara inglês, que viajou para as Honduras Britânicas atrás de serviço depois de ser abandonado pela esposa e do suicídio da irmã. Lá, ele ficou conhecido após um incidente em que esteve caçando uma onça. Gastando o que tinha e o que não tinha com bebida, acabou caindo nas (des)graças do jogo e devendo uma fortuna. Lizalde comprou sua dívida e, a partir desse momento, Monty trabalharia para onde ele o mandasse. 

A primeira parte do livro se passa em 1871, e a segunda e terceira em 1877, seis anos depois. Na primeira parte Carlota tem cerca de 14 anos, e na segunda próxima dos 20. Monty deve ter ali por volta dos 30, não sei dizer exatamente apesar de me recordar que, em algum momento, ele diga a idade dele. 

O grande ponto de ruptura do que se acredita ser uma vida pacífica em Yaxaktun se concentra na chegada de algumas pessoas estranhas: o filho de Lizalde, Eduardo, e seu primo, Isidro, com alguns homens, enquanto caçam indígenas que fugiram do trabalho escravizado que vinham realizando. Esses indígenas são considerados perigosos pelos herdeiros de Lizalde. Mas logo que veem Carlota, eles desistem das ideias de caça e se interessam pela moça.

Daí em diante, temos diversos pequenos problemas: a descoberta dos híbridos por essas pessoas estranhas, a paixão de Carlota por Eduardo, e as ameaças que Moreau vem recebendo do dono da propriedade pela falta de resultados em sua pesquisa. 


Segundo contexto: histórico

Aqui eu preciso fazer um mea culpa e aceitar minha ignorância sobre a história mexicana. Sei pouco dos conflitos internos e externos daquela parte do continente, e apesar de ter planejado aprender mais, ainda não cheguei nessa parte do planejamento. Adoro estudar, mas como eu disse esses dias no twitter, sou uma mistura difícil de curiosidade, impulsividade e despreparo. Meus planejamentos sempre vão por água a baixo, ou demoram aí seus anos pra acontecerem.

Mas, na edição da Melhoramentos, há uma breve contextualização do que estava ocorrendo no México nesse momento e logo podemos entender como isso foi incorporado na história. Apesar de ficar um pouco óbvio, porque, na base, o que aconteceu no México não é tão diferente do que aconteceu no Brasil, eu sugiro que o leitor leia primeiro esse contexto histórico, em formato de posfácio na página 277.

Em um resumo muito rápido e sem a profundidade que eu gostaria de trazer: o México foi um território disputado desde sua invasão pelos espanhóis em 1518. Com ilhas e territórios cheios de matéria-prima, os espanhóis dizimaram uma quantidade aterrorizante de povos com doenças que, até então, a população local desconhecia. Mesmo depois da suposta "independência" mexicana, com muitas aspas, que aconteceu tecnicamente entre 1810 e 1821, as disputas territoriais continuaram, e as disputas políticas avançaram de forma destrambelhada.

Vou reproduzir abaixo dois parágrafos do posfácio do livro que ajudam a entender melhor o cenário em que ele se passa:

A Guerra das Castas de Iucatã começou em 1847 e durou mais de cinquenta anos. Os maias, povos originários da península, se rebelaram contra os mexicanos, os descendentes de europeus e a população miscigenada. 
Os motivos do conflito foram complexos e ligados a hostilidades de longa data. Os donos das terras expandiram suas haciendas para criar gado e cultivar açúcar. O povo maia era sua principal mão de obra, e os donos das terras tinham sistemas violentos e dívidas e castigos para controlá-los. Outros aspectos de tensão eram os impostos, assim como a violência e a discriminação contra os maias.

Essa parte da principal mão de obra é um dos pontos mais importantes do texto: é graças a isso que Lizalde quer uma mão de obra dócil, e vê nos experimentos de Moreau uma forma de conseguir força e falta de inteligência para manter suas haciendas trabalhando. 

Já Moreau, assim como no livro original, se baseia no princípio científico tão presente no século XIX (e XVIII, também) da criação da vida. Como a vida aparece? O que acontece para criar vida? Frankenstein é um excelente objeto de comparação. Ambas as histórias se apoiam em experimentos científicos reais, ideias que levaram a outros experimentos e assim por diante. A vida, e a fagulha do que se criava vida, era constante objeto de discussão entre rodinhas acadêmicas. 

O que achei do livro (sem spoiler)

Para começar, já quero dizer a você, leitor, que não tá muito afim de ler A Ilha do Doutor Moreau agora, mas que quer muito ler o novo livro da Silvia: tudo bem. A história é uma releitura, e as ligações com o livro original são sempre explicadas (os experimentos, etc). Não há, realmente, nada que você vá perder muito em relação a referências. As obras podem ser lidas de maneira independente. 

Se você já leu A Ilha do Doutor Moreau: eu acho que, pra mim, esse livro se encaixa como um prequel. Tem até uma parte no final que eu diria que é pra se encaixar nessa ideia, mas não vou dizer aqui. Caso alguém queira discutir o final comigo, favor entrar em contato ali no formulário, que eu vou adorar falar um pouco sobre minhas ideias. 

No geral, gostei bastante. É um livro que te prende, te dá vontade de conhecer mais, de saber aonde essa história está indo. Os personagens são interessantes. Eu gostaria de conhecer mais sobre os híbridos. Minha única reclamação é sobre um tipo de interesse que há entre Monty e Carlota (de Monty em Carlota, na verdade), pela diferença de idade entre eles. Mas gostei muito em como a autora transformou o personagem entre o livro clássico e esse. Ele se tornou muito mais humano e muito mais interessante do que o Wells o fez.


Tenho que dizer, também, que a adição do contexto histórico na história original, também, me deixou muito feliz. Eu não sou a maior fã de dramas e romances históricos, mas amo quando outros tipos de narrativas (principalmente terror e mistério) conseguem inserir esses elementos reais ao longo de suas histórias. Isso é, na verdade, um atrativo para mim. E gosto muito quando essas histórias clássicas são recontadas adicionando esses elementos.

A Carlota é uma garota meio ingênua e inocente, até irritante às vezes, mas eu desculpo isso pelo isolamento em que ela vive, sendo paparicada desde cedo pelo pai, com sentimentos conflitantes pelo mundo lá fora. No livro original não temos uma presença feminina, e adicionar uma filha nessa ideia toda de geração de híbridos, isolamento em uma fazenda destinada a pesquisas científicas e como isso é parte da personalidade da personagem também é um ponto extremamente positivo do livro.

Eu gosto muito de ler o que a Moreno-Garcia escreve, e tenho vontade de ler tudo dela, porque gosto das ideias. Mas acho que ainda não encontrei meu favorito dela. Um sentimento de "Adorei isso aqui, mas ainda não é meu favorito, e tenho certeza que vai ter um favorito que vai desbancar todas as leituras"? Estranho né, mas eu tenho essas coisas de vez em quando. Acho que há grandes chances de ser Silver Nitrate, o novo novíssimo que ela lançou esse ano, e que tenho expectativas enormes para ele. 

Agora, uma recomendação. Se você se interessa pela história do México como eu mas conhece pouco e gostaria de ler outras coisas nesse tema, eu não posso deixar de recomendar o excelente As Lembranças do Porvir, livro de realismo mágico de Elena Garro (mesmo que ela, em si, não gostasse muito dessa denominação). É um livro que se apoia fortemente no contexto político pós-década de 1920 no México, um livro triste mas interessantíssimo. Fiz uma resenha dele aqui no blog, caso vocês tenham curiosidade.
 
Tanto A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells, quanto A Filha do Doutor Moreau, de Silvia Moreno-Garcia, podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto em ebook. 

Gostaria de agradecer novamente o envio do exemplar à Editora Melhoramentos. Muito obrigada. 

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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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