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O que acontece quando um cara entendido de terror se propõe a fazer um filme com diversos elementos e características de casas assombradas, reunidos em um único lugar?

Rose Red é uma minissérie de 2002, escrita por Stephen King e dirigida por Craig R. Baxley. Diferente da maioria esmagadora de outras obras do King, essa aqui não foi adaptada de um livro do autor (não confundir com Rose Madder, que não tem nada a ver com essa história). Rose Red é, na verdade, criada especialmente para as telas. 

Isso tem uma história por trás: dizem por aí que King queria fazer um remake de Desafio do Além, lançado em 1963 e dirigido por Robert Wise, que adapta o livro Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. King é um grande fã de Jackson, então apresentou a ideia para o Spielberg. Ninguém sabe bem o que houve, mas o Spielberg não se interessou muito. Não sabemos se era porque ele estava em outra vibe ou o que aconteceu. O roteiro do King ficou guardado, e três anos depois da Dark Castle surgiu com A Casa Amaldiçoada, dirigido pelo grande Jan de Bont que errou demais a mão nessa farofa.

Aí, em 2002, King apareceu com Rose Red. Na história, a mansão amaldiçoada Rose Red foi construída no centro de Seattle como presente de casamento de John Rimbauer para sua esposa Ellen. Desde cedo a casa era bastante estranha, tudo bem, mas as coisas começaram a piorar com os anos: os homens eram mortos pela casa, e as mulheres desapareciam. Em uma atividade semelhante à da casa Winchester, Ellen começou a construir quartos em Rose Red. Quando Ellen morreu, a casa começou a se construir sozinha.

Muitos anos depois, a professora de psicologia dra. Joyce Reardon (Nancy Travis) reúne um grupo de paranormais para irem até Rose Red. A casa está adormecida, afirma ela, então não há perigo para aqueles que aceitarem ir. Ela promete um pagamento de $5 mil dólares para cada um deles, e ca\da um deles tem um talento especial: Emery Waterman (Matt Ross), um vidente com retrocognição que consegue ver espíritos; Nick Hardaway (Julian Sands), um telepata poderosíssimo; Pam Asbury (Emily Deschanel), que tem habilidades psicométricas e, quando toca em algo, consegue sentir as vibrações e estados pelos quais o objeto ou pessoa passou; Cathy Kramer (Judith Ivey), que tem habilidades de psicografia; e Victor Kandinsky (Kevin Tighe), que tem precognição. O grupo é quase como os Vingadores dos médiuns. 


Mas Joyce está interessada particularmente em uma outra pessoa: Annie Wheaton (Kimberly J. Brown), uma adolescente com poderes que deixa todos os outros médiuns no chinelo. Depois de muito insistir e de oferecer ainda mais dinheiro a ela, sua irmã, Rachel (Melanie Lynskey), aceita levá-la para o experimento em Red Rose.

Além desse grupo no mínimo excêntrico, está também Steven Rimbauer (Matt Keeslar), único herdeiro da família Rimbauer e atual proprietário da mansão Rose Red.

Se você tem algum contato com histórias clássicas de casas assombradas (principalmente aquelas feitas ali pelos anos 1960 e 1970) e/ou com as histórias do Stephen King, você deve imaginar que as coisas aqui não terminam muito bem para uma parte dos envolvidos. Joyce é, na verdade, uma mulher que tem perseguido a fama e quer, a todo custo, volta a fazer sucesso. Os membros de sua comitiva mediúnica são somente peões em seus vontades. E isso fica claro a nós desde muito cedo no filme. 

Mas o ponto alto da trama não está em seus personagens, infelizmente. King consegue criar personagens cativantes sempre, ao mesmo tempo que consegue criar aqueles personagens que a gente tem vontade de dar um chute no traseiro, é verdade (mesmo com todos os tropos que o autor segue em seus personagens, que eu já mencionei no texto de Joyland); mas aqui, em Rose Red, eu acho que o grande e maior triunfo de King é em sua casa assombrada, a própria Rose Red.

Dentre as casas assombradas, a mais assombrada

Uma das coisas que eu mais gosto no Stephen King é a forma como ele conhece o terror, independente que eu concorde com as opiniões dele ou não. Já contei algumas vezes que comecei a ler King com os livros de não ficção dele, e acho que isso pesou demais em delinear minhas coisas favoritas no autor. Então, quando vejo pequenas referências, quando entendo de onde ele tirou suas inspirações e, principalmente, quando ele faz uso e até subverte alguns tropos clássicos do gênero, eu fico encantada.

Talvez por isso Salem's Lot seja meu livro favorito dele. Mas isso é tema pra outro texto. 

O ponto aqui é que o King conhece casas assombradas, e Rose Red é um enorme reflexo disso.


A começar pela ideia de reunir um grupo paranormal e ir até um local assombrado. Durante os anos 1960 e 1970 (alguns anos para mais, alguns para menos), onde alguns dos maiores clássicos do gênero foram feitos, a citar Assombração da Casa da Colina (1959), Hell House (1971) e Golgotha Falls (1984), a parapsicologia estava em alta. Seja pelo envolvimento de Lorraine e Ed Warren em suas peregrinações assombradas pelos Estados Unidos, seja pelos casos de possessão que estavam pipocando mais que nunca em diversos lugares (Enfield, Amityville, o caso de Anneliese Michel e até mesmo o surgimento do livro O Exorcista, que narra uma experiência do final dos anos 1950 mas vê a luz e a popularidade nos anos 1970), o fato é que a parapsicologia ficou um tempo na moda. E, nessa, a literatura e até mesmo o cinema se aproveitaram para colocar grupos liderados por algum parapsicólogo para investigar fenômenos paranormais em locais assombrados.

E, é claro, aí temos a casa. Rose Red é uma força sobrenatural por si mesma. Ela é o amálgama de todas as casas assombradas que Stephen King consumiu avidamente ao longo dos anos e resultado de uma extensa pesquisa, isso é notado facilmente. Cenas que espelham esses romances consagrados que citei, além de referências óbvias como Shirley Jackson mencionada por um dos personagens e a casa Winchester, sempre com novos quartos, só comprovam que Rose Red é quase um parque de diversões para os fãs de terror: ela é o conjunto da obra, a casa assombrada final.


Se Rose Red tivesse tido um pouco mais de investimento, talvez uma mão mais firme na direção, um pouco mais de cuidado na produção e um roteiro mais limpo, ela poderia ser a maior casa assombrada de Stephen King — quiçá competindo diretamente com as maiores casas assombradas do terror.

Rose Red poderia ser ainda mais assustadora que o Overlook.

Para mim, a força de O Iluminado reside principalmente na ligação de Torrance com a bebida, e como isso o transformou em uma pessoa aberta aos horrores do Overlook. Um local assombrado, sim, mas mais ainda para aqueles que eram suscetíveis a ele. Muitas coisas horríveis aconteceram ali, como bem sabemos através do livro, e como, imagino, muitos fãs adorariam saber mais sobre o passado do hotel horripilante. Overlook tem seus fantasmas e é uma construção aterrorizante, com suas vontades próprias. Mas, e apesar de tudo, o Overlook é menos vivo, por assim dizer, do que uma Casa da Colina, ou uma Hell House. 

Diferente de Rose Red. 

Rose Red se constrói e desconstrói a seu bel prazer. Mais fascinante e perigosa (e com mais graduações na arquitetura e construção civil) do que a Casa Winchester, Rose Red se sobressai entre as casas mais perigosas da ficção.


Por que, então, ela falhou tanto em se fixar no imaginário dos fãs?

Infelizmente, pelos motivos citados anteriormente: sendo uma obra criada somente para as telas, eu tenho para mim que o roteiro não ficou da forma como poderia ter sido com as mãos do King em uma narrativa longa, por exemplo. Isso, é claro, é só especulação. Mas sinto que essa casa tinha um potencial absurdo, que ela poderia ser muito mais do que foi. A história da sua criação poderia e deveria ter sido melhor construída, seus fantasmas poderiam ser muito mais aterrorizantes com um carinho a mais pelo roteiro. 

Com a falta (ou mesmo a preguiça de detalhar, talvez) desses personagens base, desse background da história, dos motivos que levaram a casa até ali, a história se torna vazia. Independente do esforço para criar essa mansão assustadora, que pode fazer um milhão de coisas, como construir quartos e sumir pessoas, ela acaba perdendo sua força. 

Rose Red é um filme até chato de achar (mas tem no youtube do Cine Antiqua). Não é ruim, mas não é bom. Fica ali no eterno meio termo do que poderia ter sido, mas não foi. O que é uma pena. Rose Red é uma casa assombrada das mais interessantes, mas duvido que veremos mais dela, com uma melhor construção ou um melhor pano de fundo.


Observação post scriptum: há, sim, um livro sobre Rose Red. O livro se chama The Diary of Ellen Rimbauer: My Life at Rose Red, e foi escrito por Ridley Pearson, utilizando o pseudônimo da doutora Joyce. Houve uma adaptação mais tarde, em 2013. Mas não aumenta muito o lore principal da coisa toda. E, tecnicamente, não é do King, então não sei até que ponto podemos considerar canônico. 

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Vou começar esse texto falando sobre algo que sinto sobre os filmes de terror, mesmo que o filme que eu vá falar hoje, em si, não seja de terror. Então, assim: eu tenho um preconceito muito grande com os filmes de terror dentro do subgênero "rape revenge". É algo que todos que me acompanham sabem. Meu maior problema com ele é que, na maioria das vezes, das histórias que vi, o tema parece ser tratado de forma tão leviana, tão ignorante, deixando de fora partes tão importantes que deveriam ser tratadas quando falamos de abusos (sexuais, nesse caso, mas todos os outros) que são filmes que eu acabo preferindo não comentar ou não assistir. A essa minha impressão, eu adiciono duas exceções: American Mary, das irmãs Soska, e M.F.A., da Natalia Leite.

No geral, para dizer a verdade, é um assunto que eu evito dentro dos filmes que assisto. Admito minha ignorância nesse ponto, dizendo que posso não ter visto muitos filmes que tratam de abusos desse tipo, por escolha mesmo. 

Agora, sobre o filme em si, e logo vocês vão entender como tudo se conecta. 

Quando fui convidada para a cabine de Criaturas do Senhor, de Saela Davis e Anna Rose Holmer, li a sinopse e vi que era um filme categorizado como drama. Aqui, de novo, admito não ser o tipo de filme que assisto com frequência. Mas eu fiquei interessada. Além de ter sido um convite, tinha o fato de a sinopse ter chamado minha atenção, sendo uma história de uma mãe que está tentando defender o filho de algo que ele fez. 


Agradeço o convite do pessoal da Califórnia Filmes e da Sinny Assessoria. Como já comentei aqui anteriormente, na minha breve resenha de Medusa, as cabines online são um presente pra gente que mora no interior, então muito obrigada.

A sinopse do filme, conforme apresentada pela distribuidora no email de convite era a seguinte:

Em uma vila de pescadores varrida pelo vento, uma mãe está dividida entre proteger seu filho amado e seu próprio senso de certo e errado. Uma mentira que ela conta para ele despedaça sua família e a unidade de sua comunidade.

Em Criaturas do Senhor, Aileen (Emily Watson) é uma mãe dedicada e amorosa e uma mulher trabalhadora. Vivendo em uma cidadezinha costeira, em que a maior renda de trabalho sai da pesca de ostras e peixes e da fábrica que faz a manutenção desses produtos, Aileen fica feliz quando Brian (Paul Mescal), seu filho, retorna para casa. Depois de uma longa temporada na Austrália, todos da família parecem meio chocados com seu retorno, dando a entender que Brian já teve alguns desentendimentos por ali.

Aileen arruma um trabalho para Brian que logo mostra que, realmente, não está muito afim de fazer as coisas da forma certa. Em constante disputa com seu pai, Brian parece aquele filho mimado pela mãe que não tem muito interesse em seguir regras.


O que já era uma relação familiar tensa acaba piorando quando Brian é acusado de ter cometido abuso sexual contra uma moça da cidade, Sarah (Aisling Franciosi), que trabalhava junto de Aileen. É a partir daqui que acompanhamos uma luta pessoal e íntima de Aileen sobre como lidar com a situação.

Aqui, o filme não foca tanto na situação da vítima, Sarah. Acompanhamos, sim, a forma como ela se sente, mas principalmente com os comentários que chegam a Aileen, e do que a personagem presencia. A abordagem do filme é, na realidade, em como a mãe do abusador vai se portar diante disso.

Não é uma abordagem que eu estou acostumada a ver, e foi isso que mais me chamou a atenção ao longo do filme. Vemos isso com frequência, familiares que defendem seus entes queridos mesmo quando eles estão errados, principalmente quando se tratam de abusos contra mulheres. Recentemente, mesmo, em um reality show de uma das maiores emissoras do país, quando integrantes foram expulsos por importunação sexual, não somente alguns familiares insistem que eles não fizeram nada, como alguns fãs também.

E é, realmente, um questionamento recorrente quando acontecem casos de abuso: "nossa, ele não tem mãe? não tem irmã?". É um comentário que reduz a mulher ao espaço de objeto e acessório do homem, como se ela só tivesse validade se, por acaso, tiver alguma serventia (sendo comparada a alguém da família dele, e não um outro ser humano; como se, por acaso, ele não tiver uma boa relação com a mãe ou a irmã deixará a situação menos monstruosa).


Mas, ao mesmo tempo. é uma abordagem que nos faz pensar: quantas mães não resolvem proteger seus filhos, antes de terem um momento de consciência e perceberem que o que eles fizeram foi errado? (Isso quando chegam a ter esse momento.) Em Criaturas do Senhor, essa situação é exacerbada na forma de um abuso sexual, mas não precisamos ir tão longe. 

Todos esses acontecimentos, aliados à trilha sonora e ao ambiente de cidadezinha costeira (vento, mar, chuva, sol fraco), fazem de Criaturas do Senhor um filme que faz a audiência (eu, no caso) ficas tensa e reflexiva. É estranho se colocar no lugar de Aileen, porque sabemos que ela não está tomando as melhores decisões, mas esses dois elementos (a trilha e a ambientação) ajudam a passar esse sentimento para quem está assistindo. 

Vocês sabem, eu não sou crítica de cinema. Mas gosto de expor o que sinto com o que vejo, principalmente quando essas obras me trazem questionamentos maiores. Criaturas do Senhor é um daqueles filmes que normalmente eu demoraria anos para assistir, se é que eu chegaria a assistir, mas é um filme que me fez pensar demais nas relações familiares e na forma como certas atitudes podem levar a outras, como: e se essa mãe tivesse resolvido não passar a mão na cabeça desse filho? e se ela tivesse sido mais firme? Não coloco aqui a culpa do mau-caratismo e do crime desse personagem nas costas da personagem de Aileen, sua mãe, se não eu estaria a reduzindo, também, a um objeto de acessório, mas é algo que nos faz pensar. E nos faz pensar em como reagimos quando pessoas próximas a nós fazem coisas que nos desagradam. Até que ponto conseguimos tomar as decisões certas?

Todos nós conhecemos algum caso de abuso, e de amigos e familiares que defenderam a "honra" de abusadores porque "nossa, são pessoas tão queridas". Esse filme tem cenas que me fizeram questionar esse tipo de amizade e lealdade, mais do que eu já questionava antes. Achei um filme interessante e triste, de certa forma. Mas gostei da abordagem. 

O filme Criaturas do Senhor estreia nos cinemas brasileiros dia 13 de abril, e foi produzido pela A24. No Brasil, a distribuição é da Califórnia Filmes.

Abaixo, o trailer:



Um último comentário: Aisling Franciosi, que interpreta Sarah no filme, também esteve no filme The Nightingale, de Jennifer Kent, a diretora de O Babadook. The Nightingale pode ser considerado um drama histórico com rape revenge, de certa forma, então aqui abro mais uma exceção para o subgênero que eu guardo tanto rancor (mas que tenho repensado a forma como é consumido por algumas mulheres desde que comecei a ler House of Psychotic Women, da Kier-La Janisse.)




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Em 2021 eu estava numa vibe meio O Exorcista. Li o livro que deu origem ao filme, do William Peter Blatty; Li Exorcismo, do Thomas B. Allen, que é a história real por trás do caso que inspirou Blatty a escrever o livro, e assisti aos filmes da franquia. Quer dizer, o primeiro e o terceiro eu tenho certeza que vi — o quarto eu cochilei, não porque o filme estava ruim, mas gosto muito de cochilar no sofá enquanto alguma coisa passa, e eu estava cansada nesse dia. O segundo e o quinto acho que não assisti até hoje.

O ponto é, alguns anos depois, estou aqui novamente falando sobre Exorcista. Não exatamente sobre Exorcista, mas sobre Legião. Recebi esse livro esses tempos atrás, junto de O Dicionário dos Demônios, e esse mês foi o momento e pegar ele para ler. Ouvi ele me chamando da estante, e foi uma leitura muito bacana.

Lançado pela DarkSide com tradução de Eduardo Alves, Legião acompanha a história do Detetive Kinderman, enquanto ele investiga uma série de assassinatos. Com as mesmas assinaturas de um antigo caso em que Kinderman trabalhou, o homem acaba ficando transtornado com a possibilidade daquele assassino, chamado Geminiano, ter sobrevivido quando todos achavam que ele estava morto. Kinderman parte, então, em busca de desvendar esse mistério. 

O plot é bem simples e o livro se parece muito mais com uma narrativa policial tradicional do que um livro de terror em si, apesar dos elementos sobrenaturais que estão inseridos aqui e ali. Aqui, apesar do horror, as coisas giram em torno da tentativa de Kinderman de achar o culpado dos assassinatos. Gosto dessa coisa de misturar elementos de vários tipos de narrativa, e acho que o que o Blatty fez aqui foi bem legal.

O assassino Geminiano lembra bastante o Zodíaco. Não tanto por suas assinaturas e seu modus operandi, mas tem alguns detalhes ali que tornam as histórias parecidas. Sua primeira vítima nessa nova leva de matança é um garotinho, seguido por padres. E aqui o caldo entorna um pouco, e as maiores reviravoltas se dão por causa desse motivos. É aqui, também, que está a ligação com O Exorcista, e alguns personagens da história anterior aparecem aqui também.


A história guarda muitas surpresas. Eu li extremamente atenta cada virada de página, porque a cada momento tinha algo novo que poderia acontecer. Quando você pensa que sabe o caminho que o livro está tomando, acontece uma coisa que te deixa até meio desnorteado das ideias. Me pegou muito de surpresa mesmo. Apesar de ter assistido o filme que adapta a obra, me lembro de pouca coisa, e também não poderia dizer se é uma adaptação fiel ou não.

Acho que o Detetive Kinderman merece um parágrafo a parte. De início, suas filosofias e seus pensamentos sobre a maldade presente no mundo estavam me tirando um pouco a paciência. Pensamentos longos, discussões consigo mesmo sobre o papel de Deus, suas intenções e afins, eu estava mesmo de saco cheio. Mas, chegando ao final, acho que tudo valeu a pena. Faz sentido, e fiquei emocionada com os últimos acontecimentos do livro, principalmente as últimas linhas. Não achei que o livro fosse me pegar tanto, mas me pegou.

Legião é o terceiro livro na trilogia de Blatty chamada "Trilogia da Fé", que começa com O Exorcista, segue para A Nona Configuração e encerra com este aqui. Apesar de Legião e Exorcista dividirem alguns personagens, eu não posso afirmar que A Nona Configuração também tenha essa ligação. Ainda não li e ainda não assisti o filme. Mas soube que Blatty considerava que A Nona Configuração era a verdadeira sequência de O Exorcista. Depois de escrever o livro, ele mesmo dirigiu o filme. Em seguida, também dirigiu Legião. Se você quiser saber mais sobre isso, tem esse texto aqui. Eu não li inteiro porque queria evitar spoilers, então fica o aviso.

Quero tentar assistir os três filmes em sequência, depois que eu ler o segundo. Acho que vai ser interessante. Gosto das questões levantadas por Blatty, ainda que, às vezes, eu perca um pouco a paciência.

Os livros O Exorcista, A Nona Configuração e Legião de William Peter Blatty podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto digital.


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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
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Há muito tempo que eu não escrevo sobre filmes aqui no blog. Na verdade, até tenho uns textos guardados no rascunho, que ainda não encontraram seu caminho para serem publicados — e, apesar disso, sigo falando de filmes lá no 365 Filmes de Horror, blog que montei com meus amigos pra postar umas dicas de filmes, escrever um pouco, conhecer o gosto do pessoal.

Mas quando eu assisti Medusa, dirigido pela Anita Rocha da Silveira, eu precisava escrever, sabe. Não era só dizer que gostei, ou fazer alguns apontamentos. Eu precisava falar sobre ele, sobre os elementos, sobre a atmosfera, a brilhante escolha da trilha sonora, da iluminação, de tudo.

Se você é meu leitor há algum tempo, seja aqui, no finado twitter, no instagram, ou se ouvia o The Witching Hour, deve saber que eu sou uma grande fã da Anita Rocha da Silveira. Mate-me Por Favor, filme anterior da cineasta, é um dos meus favoritos da vida. Acho ela uma diretora extremamente competente, ainda mais quando o assunto é juventude. Então, quando saiu o anúncio de Medusa, eu não estava me aguentando de vontade de assistir. Por sorte, recebi o convite de cabine online e pude conferir antes do filme estrear no circuito comercial brasileiro.


Aliás, queria abrir aqui o parêntese para elogiar as cabines online. Vocês salvam a vida dos produtores de conteúdo do interior. Muito obrigada agência Sinny e Vitrine Filmes que disponibilizaram essa pra gente.

O filme abre com uma cena de perseguição de uma jovem. Quem a persegue é um grupo de garotas que, assim que a pegam, começam a dizer coisas terríveis a ela e dizem que ela tem que aceitar Deus no coração e renunciar aos pecados do mundo. Logo em seguida, depois que as jovens já terminaram seu "trabalho" e seguem caminhando, enquanto vemos os créditos de atrizes e atores que estiveram no filme, ouvimos "Cities in Dust", da Siouxsie And the Banshees. "We found you hiding, we found you lying choking on the dirt and sand. Your former glories and all the stories, dragged and washed with eager hands. Oh, oh, your city lies in dust, my friend."

Esse início já nos dá um bom panorama sobre o filme: um grupo de jovens justiceiras a serviço de Deus contra os pecadores. A premissa é bem simples, mas a forma como Anita Rocha da Silveira a desenvolve é, novamente, assim como em Mate-me Por Favor, impressionante.


Ao longo do filme nós desnudamos não somente o fanatismo religioso assustador desses jovens — tantos das justiceiras quanto do grupo masculino equivalente, que, ao contrário das moças, agem às vistas de todos —, mas também a hipocrisia das tentativas de se manter uma aparência insustentável. 

De pano de fundo dessa narrativa temos a história de uma moça que, ao ser taxada como messalina, meretriz, prostituta, de ser "livre demais", acabou sendo desfigurada por uma mulher mascarada —  com as mesmas máscaras que as jovens utilizam agora. Obviamente elas utilizaram essa história para criar seu grupo de vigilantes, mas o que chama a atenção mesmo é a fascinação que duas das jovens têm não pela mulher que "vingou" as morais e os bons costumes, mas com a própria moça que foi desfigurada. Elas não se importam tanto em quem fez o serviço, mas querem descobrir onde está a jovem que sofreu com essa justiça torta. 

Assim como no filme anterior, Anita também utiliza aqui o elemento dos cultos religiosos jovens, cheios de neon e músicas pop chicletes. É nesse ambiente que essas garotas, por exemplo, encontram seus pares, fazem amizades e socializam. E é também nesse ambiente que elas fazem política. Tudo muito bem baseado na realidade, infelizmente.


Aqui eu nem sei se posso dizer que houve algum exagero da parte de Anita ao retratar essa juventude doente e fanática. Tempos atrás assisti ao documentário Extremistas.br, da GloboPlay, e posso dizer que atitudes ali, de pessoas reais, que estavam sendo gravadas para um documentário, chegam muitíssimo perto de atitudes que esses jovens têm ao longo da narrativa.

Outro ponto interessantíssimo a ser observado é como essas jovens não deixam a feminilidade de lado. Elas ostentam essa feminilidade e utilizam isso como um troféu. Uma das líderes do grupo, Michele (Lara Tremouroux), tem até um canal no youtube para falar como as jovens podem melhorar sua imagem. No auge da ironia, ela também mostra como as jovens podem esconder certos tipos de machucados. E é essa ironia tão latente que faz o filme, para mim, ser tão grande. Tudo é muito irônico e hipócrita, assim como vemos que as coisas são, realmente, em certos tipos de cultos e igrejas. É uma crítica extremamente bem apontada.


Mari Oliveira está excelente no papel principal, como Mariana. Ela é uma das líderes desse culto de vigilantes do senhor, e é, também, uma das primeiras a começar a decair. Mari já fez um papel excelente no filme anterior da cineasta, e nesse ela continua se destacando. O título do filme, também, não pode passar despercebido: Medusa é uma figura que tem passado por ressignificados, sendo hoje vista uma personagem que sofreu uma punição (de uma Deusa), em algumas versões do mito, por algo que não foi sequer culpada.

Medusa estreia dia 16 de março nos cinemas. Vou deixar o trailer logo aqui abaixo para vocês conferirem. Já Mate-me Por Favor está disponível na Netflix para quem ainda não assistiu. Eu recomendo muito. 




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Grady Hendrix é um dos nomes mais quentes do terror atual. Com obras elogiadíssimas pelo público anglófono, e tendo alguns projetos muito bacanas, eu estava muito curiosa para conferir alguma de suas obras. Consegui comprar o ebook de O Exorcismo da Minha Melhor Amiga, sua única obra lançada em português brasileiro até o momento (publicado pela Editora Intrínseca,  com tradução de Edmundo Barreiros), então resolvi começá-lo logo depois de terminar Audição. 

E eu adorei. Já estou prontíssima para ler todas as outras obras dele. Mas hoje vou falar só de minha experiência com essa primeira leitura. 

Em O Exorcismo da Minha Melhor Amiga, conhecemos Abby, uma garota que, no início da história, está passando por um momento bastante complicado que alguns de nós já passaram na infância: o sentimento de estar um pouco solitária, não ser tão popular, ser até um pouco ignorada. Abby marca sua festa de aniversário em um rinque de patinação, com temática de ET, o Extraterrestre, mas ninguém aparece. Só Gretchen, que Abby acha um tanto esquisita.

Por mais estranho que pareça, entretanto, as duas se tornam melhores amigas e passam a fazer tudo juntas, daquelas amizades que temos sorte de ter uma vez na vida, e olhe lá. Gretchen é rica, seus pais tem ótimas casas em lugares nobres da cidade e casas de veraneio também. Abby, entretanto, não tem tanto dinheiro assim. Seu pai está entre-empregos, e sua mãe é enfermeira, trabalhando dia e noite. Abby fica fascinada com a vida de sua amiga, e acaba passando bastante tempo com ela.

Esse período em que as duas constroem a amizade pega somente uma pequena parcela do romance, mas ajuda a construir o que vem a seguir. O foco, mesmo, está nos anos de colégio de Abby e Gretchen. Descobrimos que as duas são muito populares, que passam muito tempo juntas e com suas duas outras amigas inseparáveis, Margaret e Glee. As quatro são as melhores alunas da turma, estão em vários clubes. Margaret, Glee e Gretchen são ricas, enquanto Abby não mudou muito sua posição da infância. Apesar de estar em uma escola cara, ela estuda lá com bolsa, enquanto sua mãe faz o possível em seu trabalho. A própria Abby também conseguiu um emprego, para ajudar a construir seu quarto dos sonhos e a colocar gasolina no seu carro.

Mesmo assim, Abby leva uma vida tranquila com suas amigas ricas, fazendo viagens e indo para as casas de praia, experimentando coisas típicas da juventude, quando, certo dia, enquanto estão na casa de praia de Margaret e decidem experimentar LSD, Gretchen desaparece por algumas horas. Quando retorna, está um pouco mudada. De início, Abby acha que é por causa da droga, mas conforme os dias passam ela sabe que tem algo mais profundo acontecendo com sua amiga. Até o momento em que ela chega a conclusão de que sim, sua amiga está possuída.

O livro não fica muito tempo detido na questão da possessão ou do exorcismo, como acontece em O Exorcista, ou algo do tipo. Em vez disso, ele se concentra na forma destrutiva e arrasadora com que Gretchen começou a agir e a levar suas amigas. É muito mais um livro sobre essas amizades, e principalmente a amizade entre Abby e Gretchen, do que um livro sobre exorcismo. É um coming of age sobre essa relação tão potente das duas, mas com alguns momentos bem tenebrosos.



Eu adorei. Achei um livro muito divertido e me lembrei de diversos momentos de minhas próprias amizades na adolescência. Não sei se algumas amigas já foram possuídas, mas algumas das mudanças passadas pela Gretchen sem dúvida já aconteceram com elas (e comigo, talvez, por que não?). Já me senti como a Abby em diversos momentos, e acho que essa é uma parte muito aterrorizante de crescer: essas mudanças que acontecem e não temos controle nenhum sobre elas. 

É um livro que eu gostaria de ter lido mais nova. Não que não tenha gostado agora, mas acho que ele teria me dado um apoio importante na adolescência. 

Também gostei muito das passagens de Abby e sua mãe, uma relação um pouco conturbada e complexa, cheia de discussões. Essas passagens não são muitas em quantidade, e não são exatamente aprofundadas ao longo da narrativa, mas a mãe de Abby é a típica mãe que tenta o melhor para sua filha. Quando era mais nova, talvez ficasse do lado de Abby nessas discussões. Hoje, eu vejo muito melhor o lado da mãe. 

E, agora um detalhe que fez muito a diferença e eu achei extremamente divertido, é que todos os capítulos do livro são nomeados com trechos de músicas dos anos 1980. A amiga Aline até fez uma playlist com as músicas no Spotify (que estou divulgando aqui sem a permissão dela e espero que não tenha problema).

O Exorcismo da Minha Melhor Amiga virou filme neste finalzinho de setembro. Dirigido por Damon Thomas, com Elsie Fisher como Abby e Amiah Miller como Gretchen, o filme entrou na Prime Video dia 30 de setembro. Vou deixar o pôster e o trailer logo abaixo. 

Infelizmente o filme não funcionou para mim como eu gostaria. Para mim, a questão da amizade entre as duas é tão importante e foi tão pouco utilizada no filme, que algo ficou faltando. Mesmo para amigos que não leram o livro, algo ficou "jogado", lá. A cena do exorcismo, por exemplo, que é um dos clímax mais interessantes e prova de amizade entre Gretchen e Abby, deixou muita coisa aberta (como os elementos que Abby utiliza para trazer Gretchen de volta. Faltou contexto para que, quem só viu o filme, entendesse o quanto eram importantes). 

As atrizes estão ótimas, o visual está incrível, a direção ficou muito boa e a trilha sonora é perfeita, mas eu gostaria que alguns momentos tivessem sido melhor aproveitados, talvez. 






 
O Exorcismo da Minha Melhor Amiga, de Grady Hendrix, pode ser comprado em formato físico ou digital na Amazon* ou no site da Editora Intrínseca.

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Rever um filme que vimos há muitos anos e do qual nossa memória pouco se lembra é sempre uma aventuras. As chances de amarmos ou odiarmos uma obra da qual anteriormente a gente até gostava (ou desgostava), são enormes. É por isso que alguns preferem se manter na memória afetiva, não revisitando seus clássicos favoritos.
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Quem escreve

Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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