Fright Like a Girl

  • Home
  • Meus Trabalhos
  • Postagens

O que acontece quando um cara entendido de terror se propõe a fazer um filme com diversos elementos e características de casas assombradas, reunidos em um único lugar?

Rose Red é uma minissérie de 2002, escrita por Stephen King e dirigida por Craig R. Baxley. Diferente da maioria esmagadora de outras obras do King, essa aqui não foi adaptada de um livro do autor (não confundir com Rose Madder, que não tem nada a ver com essa história). Rose Red é, na verdade, criada especialmente para as telas. 

Isso tem uma história por trás: dizem por aí que King queria fazer um remake de Desafio do Além, lançado em 1963 e dirigido por Robert Wise, que adapta o livro Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. King é um grande fã de Jackson, então apresentou a ideia para o Spielberg. Ninguém sabe bem o que houve, mas o Spielberg não se interessou muito. Não sabemos se era porque ele estava em outra vibe ou o que aconteceu. O roteiro do King ficou guardado, e três anos depois da Dark Castle surgiu com A Casa Amaldiçoada, dirigido pelo grande Jan de Bont que errou demais a mão nessa farofa.

Aí, em 2002, King apareceu com Rose Red. Na história, a mansão amaldiçoada Rose Red foi construída no centro de Seattle como presente de casamento de John Rimbauer para sua esposa Ellen. Desde cedo a casa era bastante estranha, tudo bem, mas as coisas começaram a piorar com os anos: os homens eram mortos pela casa, e as mulheres desapareciam. Em uma atividade semelhante à da casa Winchester, Ellen começou a construir quartos em Rose Red. Quando Ellen morreu, a casa começou a se construir sozinha.

Muitos anos depois, a professora de psicologia dra. Joyce Reardon (Nancy Travis) reúne um grupo de paranormais para irem até Rose Red. A casa está adormecida, afirma ela, então não há perigo para aqueles que aceitarem ir. Ela promete um pagamento de $5 mil dólares para cada um deles, e ca\da um deles tem um talento especial: Emery Waterman (Matt Ross), um vidente com retrocognição que consegue ver espíritos; Nick Hardaway (Julian Sands), um telepata poderosíssimo; Pam Asbury (Emily Deschanel), que tem habilidades psicométricas e, quando toca em algo, consegue sentir as vibrações e estados pelos quais o objeto ou pessoa passou; Cathy Kramer (Judith Ivey), que tem habilidades de psicografia; e Victor Kandinsky (Kevin Tighe), que tem precognição. O grupo é quase como os Vingadores dos médiuns. 


Mas Joyce está interessada particularmente em uma outra pessoa: Annie Wheaton (Kimberly J. Brown), uma adolescente com poderes que deixa todos os outros médiuns no chinelo. Depois de muito insistir e de oferecer ainda mais dinheiro a ela, sua irmã, Rachel (Melanie Lynskey), aceita levá-la para o experimento em Red Rose.

Além desse grupo no mínimo excêntrico, está também Steven Rimbauer (Matt Keeslar), único herdeiro da família Rimbauer e atual proprietário da mansão Rose Red.

Se você tem algum contato com histórias clássicas de casas assombradas (principalmente aquelas feitas ali pelos anos 1960 e 1970) e/ou com as histórias do Stephen King, você deve imaginar que as coisas aqui não terminam muito bem para uma parte dos envolvidos. Joyce é, na verdade, uma mulher que tem perseguido a fama e quer, a todo custo, volta a fazer sucesso. Os membros de sua comitiva mediúnica são somente peões em seus vontades. E isso fica claro a nós desde muito cedo no filme. 

Mas o ponto alto da trama não está em seus personagens, infelizmente. King consegue criar personagens cativantes sempre, ao mesmo tempo que consegue criar aqueles personagens que a gente tem vontade de dar um chute no traseiro, é verdade (mesmo com todos os tropos que o autor segue em seus personagens, que eu já mencionei no texto de Joyland); mas aqui, em Rose Red, eu acho que o grande e maior triunfo de King é em sua casa assombrada, a própria Rose Red.

Dentre as casas assombradas, a mais assombrada

Uma das coisas que eu mais gosto no Stephen King é a forma como ele conhece o terror, independente que eu concorde com as opiniões dele ou não. Já contei algumas vezes que comecei a ler King com os livros de não ficção dele, e acho que isso pesou demais em delinear minhas coisas favoritas no autor. Então, quando vejo pequenas referências, quando entendo de onde ele tirou suas inspirações e, principalmente, quando ele faz uso e até subverte alguns tropos clássicos do gênero, eu fico encantada.

Talvez por isso Salem's Lot seja meu livro favorito dele. Mas isso é tema pra outro texto. 

O ponto aqui é que o King conhece casas assombradas, e Rose Red é um enorme reflexo disso.


A começar pela ideia de reunir um grupo paranormal e ir até um local assombrado. Durante os anos 1960 e 1970 (alguns anos para mais, alguns para menos), onde alguns dos maiores clássicos do gênero foram feitos, a citar Assombração da Casa da Colina (1959), Hell House (1971) e Golgotha Falls (1984), a parapsicologia estava em alta. Seja pelo envolvimento de Lorraine e Ed Warren em suas peregrinações assombradas pelos Estados Unidos, seja pelos casos de possessão que estavam pipocando mais que nunca em diversos lugares (Enfield, Amityville, o caso de Anneliese Michel e até mesmo o surgimento do livro O Exorcista, que narra uma experiência do final dos anos 1950 mas vê a luz e a popularidade nos anos 1970), o fato é que a parapsicologia ficou um tempo na moda. E, nessa, a literatura e até mesmo o cinema se aproveitaram para colocar grupos liderados por algum parapsicólogo para investigar fenômenos paranormais em locais assombrados.

E, é claro, aí temos a casa. Rose Red é uma força sobrenatural por si mesma. Ela é o amálgama de todas as casas assombradas que Stephen King consumiu avidamente ao longo dos anos e resultado de uma extensa pesquisa, isso é notado facilmente. Cenas que espelham esses romances consagrados que citei, além de referências óbvias como Shirley Jackson mencionada por um dos personagens e a casa Winchester, sempre com novos quartos, só comprovam que Rose Red é quase um parque de diversões para os fãs de terror: ela é o conjunto da obra, a casa assombrada final.


Se Rose Red tivesse tido um pouco mais de investimento, talvez uma mão mais firme na direção, um pouco mais de cuidado na produção e um roteiro mais limpo, ela poderia ser a maior casa assombrada de Stephen King — quiçá competindo diretamente com as maiores casas assombradas do terror.

Rose Red poderia ser ainda mais assustadora que o Overlook.

Para mim, a força de O Iluminado reside principalmente na ligação de Torrance com a bebida, e como isso o transformou em uma pessoa aberta aos horrores do Overlook. Um local assombrado, sim, mas mais ainda para aqueles que eram suscetíveis a ele. Muitas coisas horríveis aconteceram ali, como bem sabemos através do livro, e como, imagino, muitos fãs adorariam saber mais sobre o passado do hotel horripilante. Overlook tem seus fantasmas e é uma construção aterrorizante, com suas vontades próprias. Mas, e apesar de tudo, o Overlook é menos vivo, por assim dizer, do que uma Casa da Colina, ou uma Hell House. 

Diferente de Rose Red. 

Rose Red se constrói e desconstrói a seu bel prazer. Mais fascinante e perigosa (e com mais graduações na arquitetura e construção civil) do que a Casa Winchester, Rose Red se sobressai entre as casas mais perigosas da ficção.


Por que, então, ela falhou tanto em se fixar no imaginário dos fãs?

Infelizmente, pelos motivos citados anteriormente: sendo uma obra criada somente para as telas, eu tenho para mim que o roteiro não ficou da forma como poderia ter sido com as mãos do King em uma narrativa longa, por exemplo. Isso, é claro, é só especulação. Mas sinto que essa casa tinha um potencial absurdo, que ela poderia ser muito mais do que foi. A história da sua criação poderia e deveria ter sido melhor construída, seus fantasmas poderiam ser muito mais aterrorizantes com um carinho a mais pelo roteiro. 

Com a falta (ou mesmo a preguiça de detalhar, talvez) desses personagens base, desse background da história, dos motivos que levaram a casa até ali, a história se torna vazia. Independente do esforço para criar essa mansão assustadora, que pode fazer um milhão de coisas, como construir quartos e sumir pessoas, ela acaba perdendo sua força. 

Rose Red é um filme até chato de achar (mas tem no youtube do Cine Antiqua). Não é ruim, mas não é bom. Fica ali no eterno meio termo do que poderia ter sido, mas não foi. O que é uma pena. Rose Red é uma casa assombrada das mais interessantes, mas duvido que veremos mais dela, com uma melhor construção ou um melhor pano de fundo.


Observação post scriptum: há, sim, um livro sobre Rose Red. O livro se chama The Diary of Ellen Rimbauer: My Life at Rose Red, e foi escrito por Ridley Pearson, utilizando o pseudônimo da doutora Joyce. Houve uma adaptação mais tarde, em 2013. Mas não aumenta muito o lore principal da coisa toda. E, tecnicamente, não é do King, então não sei até que ponto podemos considerar canônico. 

Share
Tweet
Pin
Share
No comentários

Eu acho sempre muito engraçado ver a reação das pessoas quando digo que meu Pânico favorito é o terceiro. Tenho plena consciência que, na maioria das vezes, meu filmes favoritos não são os favoritos da crítica ou melhores filmes, sei bem disso, mas é divertido porque as pessoas me olham com aquela cara de "meu deus, eca", como se eu tivesse, sei lá, lambido um corrimão.

Eu tenho um motivo muito simples e razoável (na minha cabeça) de ter Pânico 3 como favorito na franquia: eu amo ver o que a Sidney se tornou naquele momento. Pânico 3, pra mim, foi um dos primeiros filmes que eu vi a reação do que acontece depois do slasher, e do que a final girl resolve fazer depois de ter passado pelo trauma. Eu não levo o 2 tão em consideração porque ela ainda estava na faculdade, mas vejo Pânico 3 como uma Sidney mais madura, vivendo sozinha com seu cachorro, em sua casa afastada da cidade extremamente segura, ajudando outras vítimas de trauma a lidarem com o que passaram.

Veja bem, eu não acho que vítimas de traumas devem seguir pelo resto de suas vidas se dedicando a outras pessoas, as ajudando ou coisa do tipo. Mas eu vi aquela cena e algo tão profundo em mim aconteceu. Eu vi um caminho tão possível, algo tão bonito nesse destino. Sidney se encontra com o Ghostface várias vezes depois. Mas ali, naquele momento, eu vi uma heroína em quem eu queria me espelhar e queria pensar mais sobre ela.

Depois, claro, eu vi que a Sidney não era a única que havia trilhado outros caminhos em seus dias pós-slasher. E isso começou a me chamar atenção: o que essas final girls fazem depois que elas se encontram com seus vilões e "vencem"? Tirando o fato de que quando as vemos de novo elas acabam se encontrando novamente com seus assassinos mascarados, comecei a pensar sobre essas personagens, o que há para elas depois desse momento?

Pude pensar nisso melhor conforme fui assistindo a outras franquias de slasher mais tradicionais. Em A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos, Nancy aparece em um papel muito semelhante ao que Sidney faria 13 anos depois: ela quer ajudar jovens que estão passando pelo mesmo que ela. No caso de Nancy, entretanto, ela ajuda isso efetivamente tentando combater Freddy Krueger. 

Duas franquias menos regulares e que tiveram reboots mais significativos, como Halloween e O Massacre da Serra Elétrica, mudaram o destino de suas final girls originais algumas vezes. Laurie Strode, por exemplo, foi irmã de Michael em uma delas, tendo uma filha e morrendo em seguida. Em outra, fugindo para se proteger, também acaba tendo um filho e se torna diretora de um colégio, onde é forçada a lutar contra Michael de novo. No remake de Rob Zombie, Laurie é novamente irmã de Michael, mas a história do remake termina antes de sabermos o que ela fará a seguir. A mais interessante de certa forma, para mim, é na trilogia recente, quando Laurie se torna ciente da possibilidade de Michael Myers retornar. Seu interesse não é exatamente proteger alguém em específico, mas deter Michael Myers. Já Sally Hardesty, que teve um destino um pouco triste em sua franquia original — primeiro em estado catatônico em O Massacre da Serra Elétrica 2, e depois com o anúncio de que havia morrido, em Leatherface - O Massacre da Serra Elétrica 3 — acaba recebendo um destino semelhante ao de Laurie em O Massacre da Serra Elétrica de 2022, onde se prepara para uma vingança contra seu vilão. 

Cada um lida com o luto de forma diferente, assim como lida com o trauma de forma diferente, e ver essas final girls, com seus destinos, me fez pensar. Não sendo ingênua de não pensar também, claro, que essas personagens foram chamadas de volta para suas franquias porque fizeram sucesso e os fãs queriam ver mais delas. Mas para além disso: o que há depois do seu próprio slasher?

Recentemente eu li The Final Girl Support Group, do Grady Hendrix, que levanta, na forma de ficção, questionamentos parecidos com os meus: usando analogias de final girls famosas, Hendrix meio que cria uma variedade interessante de personagens que estão lidando com seus pós-slasher cada uma de sua própria forma.


Nossa protagonista é Lynnette [sua história é um aceno à Denise, de Natal Sangrento (1984), interpretada por Linnea Quigley], que frequenta o grupo de apoio emocional às final girls há um tempo. Nós também temos Marilyn [baseada na Sally de Marilyn Burns, em O Massacre da Serra Elétrica (1974)]; Dani [baseada na Laurie de Jamie Lee Curtis, de Halloween (1978)]; Julia [baseada na Sidney de Neve Campbell, de Pânico (1996)]; Heather [baseada na Nancy de Heather Langenkamp, em A Hora do Pesadelo (1984)] e Adrienne [baseada na Alice de Adrienne King, em Sexta-Feira 13 (1980)]. Essas inspirações ficam bem claras nas histórias das personagens, mesmo que não tanto em suas personalidades. E, também, a psicóloga que acompanha as personagens, a dra. Carol [que faz referência a Carol J. Clover, que escreveu o livro Men, Women and Chain Saws].

No livro, Lynnette está desconfiada, depois da notícia de que Adrienne foi morta no acampamento para vítimas de traumas que ela comanda afastado da cidade, de que há alguém querendo dar cabo das final girls. Em uma trama cheia de possibilidade de quem poderia estar por trás disso, vamos tendo alguns vislumbres dessas personagens quebradas, cheias de problemas, que resolveram lidar com seus traumas da forma que elas encontraram.

Não vou dizer que concordo com a forma que Hendrix escolheu para lidar com algumas das personagens, até porque não é essa minha intenção aqui. Mas gosto muito dessa abordagem: e o depois? O que acontece com essas personagens depois que elas enfrentaram seus monstros, viram seus amigos morrerem, tiveram que lutar por sua sobrevivência? O que acontece com as final girls depois que o filme acaba e a TV é desligada? 

A gente sabe bem que um filme se encerra em si. Às vezes, é aquilo mesmo, e quando ele acaba ele deixa o espectador com seus questionamentos sozinho (ou sem questionamentos, tudo bem também). Mas imaginar o depois desse tipo de terror indescritível me acompanha muito quando penso em slashers e final girls. Talvez por isso esse tipo de filme, essas sequências que contam com as mesmas personagens seguindo suas vidas, e encontrando novamente seus terrores (ou mesmo novos terrores) me chame tanta atenção. Gosto de saber o que aconteceu com elas. 

The Final Girl Support Group valeu para mim dessa forma: como parte de um exercício que sempre fiz e sempre faço, nessa tentativa de ver os autores demonstrando como essas personagens lidam com o trauma. As final girls, apesar de não terem sido criadas com esse propósito, tecnicamente, acabaram se tornando um tipo de símbolo para algumas mulheres, principalmente as fãs de horror, de força e de coragem. Elas se transformaram ao longo dos anos, e os filmes mais recentes, que trazem essas personagens de volta à vida, acompanharam as mudanças do que é ser uma final girls. O livro tem seus altos e baixos, mas é uma leitura interessante para quem gosta desse tema, e para quem também gostaria de ver mais do que pode existir depois do slasher.

The Final Girl Support Group, de Grady Hendrix, ainda não tem tradução para o português; mas sua versão em inglês está disponível na Amazon,* em edição física ou em ebook.


---
*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
Share
Tweet
Pin
Share
No comentários

Há muito tempo que eu não escrevo sobre filmes aqui no blog. Na verdade, até tenho uns textos guardados no rascunho, que ainda não encontraram seu caminho para serem publicados — e, apesar disso, sigo falando de filmes lá no 365 Filmes de Horror, blog que montei com meus amigos pra postar umas dicas de filmes, escrever um pouco, conhecer o gosto do pessoal.

Mas quando eu assisti Medusa, dirigido pela Anita Rocha da Silveira, eu precisava escrever, sabe. Não era só dizer que gostei, ou fazer alguns apontamentos. Eu precisava falar sobre ele, sobre os elementos, sobre a atmosfera, a brilhante escolha da trilha sonora, da iluminação, de tudo.

Se você é meu leitor há algum tempo, seja aqui, no finado twitter, no instagram, ou se ouvia o The Witching Hour, deve saber que eu sou uma grande fã da Anita Rocha da Silveira. Mate-me Por Favor, filme anterior da cineasta, é um dos meus favoritos da vida. Acho ela uma diretora extremamente competente, ainda mais quando o assunto é juventude. Então, quando saiu o anúncio de Medusa, eu não estava me aguentando de vontade de assistir. Por sorte, recebi o convite de cabine online e pude conferir antes do filme estrear no circuito comercial brasileiro.


Aliás, queria abrir aqui o parêntese para elogiar as cabines online. Vocês salvam a vida dos produtores de conteúdo do interior. Muito obrigada agência Sinny e Vitrine Filmes que disponibilizaram essa pra gente.

O filme abre com uma cena de perseguição de uma jovem. Quem a persegue é um grupo de garotas que, assim que a pegam, começam a dizer coisas terríveis a ela e dizem que ela tem que aceitar Deus no coração e renunciar aos pecados do mundo. Logo em seguida, depois que as jovens já terminaram seu "trabalho" e seguem caminhando, enquanto vemos os créditos de atrizes e atores que estiveram no filme, ouvimos "Cities in Dust", da Siouxsie And the Banshees. "We found you hiding, we found you lying choking on the dirt and sand. Your former glories and all the stories, dragged and washed with eager hands. Oh, oh, your city lies in dust, my friend."

Esse início já nos dá um bom panorama sobre o filme: um grupo de jovens justiceiras a serviço de Deus contra os pecadores. A premissa é bem simples, mas a forma como Anita Rocha da Silveira a desenvolve é, novamente, assim como em Mate-me Por Favor, impressionante.


Ao longo do filme nós desnudamos não somente o fanatismo religioso assustador desses jovens — tantos das justiceiras quanto do grupo masculino equivalente, que, ao contrário das moças, agem às vistas de todos —, mas também a hipocrisia das tentativas de se manter uma aparência insustentável. 

De pano de fundo dessa narrativa temos a história de uma moça que, ao ser taxada como messalina, meretriz, prostituta, de ser "livre demais", acabou sendo desfigurada por uma mulher mascarada —  com as mesmas máscaras que as jovens utilizam agora. Obviamente elas utilizaram essa história para criar seu grupo de vigilantes, mas o que chama a atenção mesmo é a fascinação que duas das jovens têm não pela mulher que "vingou" as morais e os bons costumes, mas com a própria moça que foi desfigurada. Elas não se importam tanto em quem fez o serviço, mas querem descobrir onde está a jovem que sofreu com essa justiça torta. 

Assim como no filme anterior, Anita também utiliza aqui o elemento dos cultos religiosos jovens, cheios de neon e músicas pop chicletes. É nesse ambiente que essas garotas, por exemplo, encontram seus pares, fazem amizades e socializam. E é também nesse ambiente que elas fazem política. Tudo muito bem baseado na realidade, infelizmente.


Aqui eu nem sei se posso dizer que houve algum exagero da parte de Anita ao retratar essa juventude doente e fanática. Tempos atrás assisti ao documentário Extremistas.br, da GloboPlay, e posso dizer que atitudes ali, de pessoas reais, que estavam sendo gravadas para um documentário, chegam muitíssimo perto de atitudes que esses jovens têm ao longo da narrativa.

Outro ponto interessantíssimo a ser observado é como essas jovens não deixam a feminilidade de lado. Elas ostentam essa feminilidade e utilizam isso como um troféu. Uma das líderes do grupo, Michele (Lara Tremouroux), tem até um canal no youtube para falar como as jovens podem melhorar sua imagem. No auge da ironia, ela também mostra como as jovens podem esconder certos tipos de machucados. E é essa ironia tão latente que faz o filme, para mim, ser tão grande. Tudo é muito irônico e hipócrita, assim como vemos que as coisas são, realmente, em certos tipos de cultos e igrejas. É uma crítica extremamente bem apontada.


Mari Oliveira está excelente no papel principal, como Mariana. Ela é uma das líderes desse culto de vigilantes do senhor, e é, também, uma das primeiras a começar a decair. Mari já fez um papel excelente no filme anterior da cineasta, e nesse ela continua se destacando. O título do filme, também, não pode passar despercebido: Medusa é uma figura que tem passado por ressignificados, sendo hoje vista uma personagem que sofreu uma punição (de uma Deusa), em algumas versões do mito, por algo que não foi sequer culpada.

Medusa estreia dia 16 de março nos cinemas. Vou deixar o trailer logo aqui abaixo para vocês conferirem. Já Mate-me Por Favor está disponível na Netflix para quem ainda não assistiu. Eu recomendo muito. 




Share
Tweet
Pin
Share
No comentários

Gosto (em partes) de acompanhar as opiniões das pessoas sobre o que tem sido lançado no terror. Isso foi algo que criei de hábito desde que comecei a trabalhar com o tema. Gosto de saber dos lançamentos, mesmo que eu demore meses para assisti-los (até hoje não assisti Saind Maud, por exemplo), quero saber o que os estúdios têm feito, quais as tendências atuais. Aliás, analisar tendências é meu projeto pessoal desde que comecei: é ver como o terror age e se comporta ao longo das décadas. Tenho uma ideia muito firme de que essas tendências dizem muito sobre seus períodos. 

O texto a seguir é um texto de opinião, como todos os textos desse blog. Então, caso você discorde, tá tudo bem.
Share
Tweet
Pin
Share
1 comentários

Acho interessante como alguns personagens do terror, principalmente os vilões mascarados — muito mais que suas vítimas, ou mesmo as final girls —, acabam sendo tão facilmente reconhecidos pelos espectadores que têm pouco ou nenhum contato com os filmes de terror. É fácil saber quem é Freddy e quem é o Jason, ou o cara lá do Halloween — mesmo quando as pessoas não dizem o nome de Myers.
Share
Tweet
Pin
Share
1 comentários
Talvez a função dessa obra de terror não seja provocar o medo pelo medo

Uma das frases que mais li durante esse tempo trabalhando com terror foram de fãs dizendo "não senti medo nenhum vendo esse filme", e isso sempre me provoca uma série de questionamentos. Será que essa pessoa é tão corajosa assim? Será que nada causa medo nela? Será que ela está mentindo? Será que ela morreu por dentro?
Share
Tweet
Pin
Share
3 comentários
Older Posts

Quem escreve

Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

Me siga

  • Instagram
  • Letterboxd

Me mande um alô!

Nome

E-mail *

Mensagem *

Pesquisar

Tags

América Latina Anne Rice Clássicos Conforto Literário Fright das 5 às 7 Crimes reais Crônicas Vampirescas DarkSide Books Dicas de Filmes Dicas de Leitura Filmes Filmes de terror Gótico Listas de livros Livros Brasileiros Mulheres Diretoras Mulheres Escritoras Mulheres no Terror Opinião Shirley Jackson Séries Teoria de Terror Vampiros indicações leituras de terror

Blogs amigos

  • Cine Varda
  • Blog da Michelle
  • Newsletter da Michelle
  • Coluna Coágulo
  • Blog da Tati
  • Newsletter da Clara
  • Momentum Saga

Leia também

Leia também

Conheça o Não Apague a Luz

Conheça o Não Apague a Luz

Arquivo

Created with by BeautyTemplates