Fright Like a Girl

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Vou começar esse texto falando sobre algo que sinto sobre os filmes de terror, mesmo que o filme que eu vá falar hoje, em si, não seja de terror. Então, assim: eu tenho um preconceito muito grande com os filmes de terror dentro do subgênero "rape revenge". É algo que todos que me acompanham sabem. Meu maior problema com ele é que, na maioria das vezes, das histórias que vi, o tema parece ser tratado de forma tão leviana, tão ignorante, deixando de fora partes tão importantes que deveriam ser tratadas quando falamos de abusos (sexuais, nesse caso, mas todos os outros) que são filmes que eu acabo preferindo não comentar ou não assistir. A essa minha impressão, eu adiciono duas exceções: American Mary, das irmãs Soska, e M.F.A., da Natalia Leite.

No geral, para dizer a verdade, é um assunto que eu evito dentro dos filmes que assisto. Admito minha ignorância nesse ponto, dizendo que posso não ter visto muitos filmes que tratam de abusos desse tipo, por escolha mesmo. 

Agora, sobre o filme em si, e logo vocês vão entender como tudo se conecta. 

Quando fui convidada para a cabine de Criaturas do Senhor, de Saela Davis e Anna Rose Holmer, li a sinopse e vi que era um filme categorizado como drama. Aqui, de novo, admito não ser o tipo de filme que assisto com frequência. Mas eu fiquei interessada. Além de ter sido um convite, tinha o fato de a sinopse ter chamado minha atenção, sendo uma história de uma mãe que está tentando defender o filho de algo que ele fez. 


Agradeço o convite do pessoal da Califórnia Filmes e da Sinny Assessoria. Como já comentei aqui anteriormente, na minha breve resenha de Medusa, as cabines online são um presente pra gente que mora no interior, então muito obrigada.

A sinopse do filme, conforme apresentada pela distribuidora no email de convite era a seguinte:

Em uma vila de pescadores varrida pelo vento, uma mãe está dividida entre proteger seu filho amado e seu próprio senso de certo e errado. Uma mentira que ela conta para ele despedaça sua família e a unidade de sua comunidade.

Em Criaturas do Senhor, Aileen (Emily Watson) é uma mãe dedicada e amorosa e uma mulher trabalhadora. Vivendo em uma cidadezinha costeira, em que a maior renda de trabalho sai da pesca de ostras e peixes e da fábrica que faz a manutenção desses produtos, Aileen fica feliz quando Brian (Paul Mescal), seu filho, retorna para casa. Depois de uma longa temporada na Austrália, todos da família parecem meio chocados com seu retorno, dando a entender que Brian já teve alguns desentendimentos por ali.

Aileen arruma um trabalho para Brian que logo mostra que, realmente, não está muito afim de fazer as coisas da forma certa. Em constante disputa com seu pai, Brian parece aquele filho mimado pela mãe que não tem muito interesse em seguir regras.


O que já era uma relação familiar tensa acaba piorando quando Brian é acusado de ter cometido abuso sexual contra uma moça da cidade, Sarah (Aisling Franciosi), que trabalhava junto de Aileen. É a partir daqui que acompanhamos uma luta pessoal e íntima de Aileen sobre como lidar com a situação.

Aqui, o filme não foca tanto na situação da vítima, Sarah. Acompanhamos, sim, a forma como ela se sente, mas principalmente com os comentários que chegam a Aileen, e do que a personagem presencia. A abordagem do filme é, na realidade, em como a mãe do abusador vai se portar diante disso.

Não é uma abordagem que eu estou acostumada a ver, e foi isso que mais me chamou a atenção ao longo do filme. Vemos isso com frequência, familiares que defendem seus entes queridos mesmo quando eles estão errados, principalmente quando se tratam de abusos contra mulheres. Recentemente, mesmo, em um reality show de uma das maiores emissoras do país, quando integrantes foram expulsos por importunação sexual, não somente alguns familiares insistem que eles não fizeram nada, como alguns fãs também.

E é, realmente, um questionamento recorrente quando acontecem casos de abuso: "nossa, ele não tem mãe? não tem irmã?". É um comentário que reduz a mulher ao espaço de objeto e acessório do homem, como se ela só tivesse validade se, por acaso, tiver alguma serventia (sendo comparada a alguém da família dele, e não um outro ser humano; como se, por acaso, ele não tiver uma boa relação com a mãe ou a irmã deixará a situação menos monstruosa).


Mas, ao mesmo tempo. é uma abordagem que nos faz pensar: quantas mães não resolvem proteger seus filhos, antes de terem um momento de consciência e perceberem que o que eles fizeram foi errado? (Isso quando chegam a ter esse momento.) Em Criaturas do Senhor, essa situação é exacerbada na forma de um abuso sexual, mas não precisamos ir tão longe. 

Todos esses acontecimentos, aliados à trilha sonora e ao ambiente de cidadezinha costeira (vento, mar, chuva, sol fraco), fazem de Criaturas do Senhor um filme que faz a audiência (eu, no caso) ficas tensa e reflexiva. É estranho se colocar no lugar de Aileen, porque sabemos que ela não está tomando as melhores decisões, mas esses dois elementos (a trilha e a ambientação) ajudam a passar esse sentimento para quem está assistindo. 

Vocês sabem, eu não sou crítica de cinema. Mas gosto de expor o que sinto com o que vejo, principalmente quando essas obras me trazem questionamentos maiores. Criaturas do Senhor é um daqueles filmes que normalmente eu demoraria anos para assistir, se é que eu chegaria a assistir, mas é um filme que me fez pensar demais nas relações familiares e na forma como certas atitudes podem levar a outras, como: e se essa mãe tivesse resolvido não passar a mão na cabeça desse filho? e se ela tivesse sido mais firme? Não coloco aqui a culpa do mau-caratismo e do crime desse personagem nas costas da personagem de Aileen, sua mãe, se não eu estaria a reduzindo, também, a um objeto de acessório, mas é algo que nos faz pensar. E nos faz pensar em como reagimos quando pessoas próximas a nós fazem coisas que nos desagradam. Até que ponto conseguimos tomar as decisões certas?

Todos nós conhecemos algum caso de abuso, e de amigos e familiares que defenderam a "honra" de abusadores porque "nossa, são pessoas tão queridas". Esse filme tem cenas que me fizeram questionar esse tipo de amizade e lealdade, mais do que eu já questionava antes. Achei um filme interessante e triste, de certa forma. Mas gostei da abordagem. 

O filme Criaturas do Senhor estreia nos cinemas brasileiros dia 13 de abril, e foi produzido pela A24. No Brasil, a distribuição é da Califórnia Filmes.

Abaixo, o trailer:



Um último comentário: Aisling Franciosi, que interpreta Sarah no filme, também esteve no filme The Nightingale, de Jennifer Kent, a diretora de O Babadook. The Nightingale pode ser considerado um drama histórico com rape revenge, de certa forma, então aqui abro mais uma exceção para o subgênero que eu guardo tanto rancor (mas que tenho repensado a forma como é consumido por algumas mulheres desde que comecei a ler House of Psychotic Women, da Kier-La Janisse.)




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Há muito tempo que eu não escrevo sobre filmes aqui no blog. Na verdade, até tenho uns textos guardados no rascunho, que ainda não encontraram seu caminho para serem publicados — e, apesar disso, sigo falando de filmes lá no 365 Filmes de Horror, blog que montei com meus amigos pra postar umas dicas de filmes, escrever um pouco, conhecer o gosto do pessoal.

Mas quando eu assisti Medusa, dirigido pela Anita Rocha da Silveira, eu precisava escrever, sabe. Não era só dizer que gostei, ou fazer alguns apontamentos. Eu precisava falar sobre ele, sobre os elementos, sobre a atmosfera, a brilhante escolha da trilha sonora, da iluminação, de tudo.

Se você é meu leitor há algum tempo, seja aqui, no finado twitter, no instagram, ou se ouvia o The Witching Hour, deve saber que eu sou uma grande fã da Anita Rocha da Silveira. Mate-me Por Favor, filme anterior da cineasta, é um dos meus favoritos da vida. Acho ela uma diretora extremamente competente, ainda mais quando o assunto é juventude. Então, quando saiu o anúncio de Medusa, eu não estava me aguentando de vontade de assistir. Por sorte, recebi o convite de cabine online e pude conferir antes do filme estrear no circuito comercial brasileiro.


Aliás, queria abrir aqui o parêntese para elogiar as cabines online. Vocês salvam a vida dos produtores de conteúdo do interior. Muito obrigada agência Sinny e Vitrine Filmes que disponibilizaram essa pra gente.

O filme abre com uma cena de perseguição de uma jovem. Quem a persegue é um grupo de garotas que, assim que a pegam, começam a dizer coisas terríveis a ela e dizem que ela tem que aceitar Deus no coração e renunciar aos pecados do mundo. Logo em seguida, depois que as jovens já terminaram seu "trabalho" e seguem caminhando, enquanto vemos os créditos de atrizes e atores que estiveram no filme, ouvimos "Cities in Dust", da Siouxsie And the Banshees. "We found you hiding, we found you lying choking on the dirt and sand. Your former glories and all the stories, dragged and washed with eager hands. Oh, oh, your city lies in dust, my friend."

Esse início já nos dá um bom panorama sobre o filme: um grupo de jovens justiceiras a serviço de Deus contra os pecadores. A premissa é bem simples, mas a forma como Anita Rocha da Silveira a desenvolve é, novamente, assim como em Mate-me Por Favor, impressionante.


Ao longo do filme nós desnudamos não somente o fanatismo religioso assustador desses jovens — tantos das justiceiras quanto do grupo masculino equivalente, que, ao contrário das moças, agem às vistas de todos —, mas também a hipocrisia das tentativas de se manter uma aparência insustentável. 

De pano de fundo dessa narrativa temos a história de uma moça que, ao ser taxada como messalina, meretriz, prostituta, de ser "livre demais", acabou sendo desfigurada por uma mulher mascarada —  com as mesmas máscaras que as jovens utilizam agora. Obviamente elas utilizaram essa história para criar seu grupo de vigilantes, mas o que chama a atenção mesmo é a fascinação que duas das jovens têm não pela mulher que "vingou" as morais e os bons costumes, mas com a própria moça que foi desfigurada. Elas não se importam tanto em quem fez o serviço, mas querem descobrir onde está a jovem que sofreu com essa justiça torta. 

Assim como no filme anterior, Anita também utiliza aqui o elemento dos cultos religiosos jovens, cheios de neon e músicas pop chicletes. É nesse ambiente que essas garotas, por exemplo, encontram seus pares, fazem amizades e socializam. E é também nesse ambiente que elas fazem política. Tudo muito bem baseado na realidade, infelizmente.


Aqui eu nem sei se posso dizer que houve algum exagero da parte de Anita ao retratar essa juventude doente e fanática. Tempos atrás assisti ao documentário Extremistas.br, da GloboPlay, e posso dizer que atitudes ali, de pessoas reais, que estavam sendo gravadas para um documentário, chegam muitíssimo perto de atitudes que esses jovens têm ao longo da narrativa.

Outro ponto interessantíssimo a ser observado é como essas jovens não deixam a feminilidade de lado. Elas ostentam essa feminilidade e utilizam isso como um troféu. Uma das líderes do grupo, Michele (Lara Tremouroux), tem até um canal no youtube para falar como as jovens podem melhorar sua imagem. No auge da ironia, ela também mostra como as jovens podem esconder certos tipos de machucados. E é essa ironia tão latente que faz o filme, para mim, ser tão grande. Tudo é muito irônico e hipócrita, assim como vemos que as coisas são, realmente, em certos tipos de cultos e igrejas. É uma crítica extremamente bem apontada.


Mari Oliveira está excelente no papel principal, como Mariana. Ela é uma das líderes desse culto de vigilantes do senhor, e é, também, uma das primeiras a começar a decair. Mari já fez um papel excelente no filme anterior da cineasta, e nesse ela continua se destacando. O título do filme, também, não pode passar despercebido: Medusa é uma figura que tem passado por ressignificados, sendo hoje vista uma personagem que sofreu uma punição (de uma Deusa), em algumas versões do mito, por algo que não foi sequer culpada.

Medusa estreia dia 16 de março nos cinemas. Vou deixar o trailer logo aqui abaixo para vocês conferirem. Já Mate-me Por Favor está disponível na Netflix para quem ainda não assistiu. Eu recomendo muito. 




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Rever um filme que vimos há muitos anos e do qual nossa memória pouco se lembra é sempre uma aventuras. As chances de amarmos ou odiarmos uma obra da qual anteriormente a gente até gostava (ou desgostava), são enormes. É por isso que alguns preferem se manter na memória afetiva, não revisitando seus clássicos favoritos.
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Há uns três anos atrás, quando assisti ao documentário Horror Noire, da Shudder, que demonstra como os atores e atrizes negros foram subjugados dentro do cinema de horror, realizando papéis de apoio e raramente como protagonistas, alguns filmes me chamaram a atenção e fiquei muito curiosa para assisti-los. Como eu sou um pouco relapsa, até hoje estou atrás de alguns. Um deles foi Eve's Bayou, que recebeu o título em português de Amores Divididos. O filme foi escrito e dirigido por Kasi Lemmons, protagonizado por Samuel L. Jackson, Jurnee Smollett, Meagan Good, Lynn Whitfield e Debbi Morgan.
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Noite do Terror, de 1974, é um slasher bastante amado por seus fãs. Dirigido por Bob Clark, o filme nos mostra uma série de mortes de garotas em sua casa de fraternidade, antes de saírem para suas férias de Natal. Dentre todos os motivos para o filme ser tão querido, estão suas reviravoltas, a dificuldade em descobrir quem é, de fato, o assassino, pela quantidade de suspeitos e a falta de qualquer pista, e, pelo público feminino, está a variedade de personalidade de suas personagens, como afirma Sophia Takal em entrevista para o Movie Maker, diretora do novo remake de Black Christmas.

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O horror social está em alta. E muitos virão me dizer "mas sempre esteve, não podemos retirar a carga política de uma obra", e eu concordo, isso nem tem que ser discutido. Entretanto, é importante perceber como um tipo de atenção nesse contexto foi reforçado nos últimos anos, até que chegamos em um ponto altíssimo durante 2019. Temos uma lista extensa dos filmes que foram lançados esse ano (e até nos últimos dois ou três anos, certo, principalmente no Ocidente/Estados Unidos — visto que essa tendência no Oriente já é mais antiga) que se seguram nisso, utilizam essa força, para contar suas histórias.

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Gostando ou não das narrativas de Shirley Jackson, a importância da autora para a ficção de terror é imensurável. Tendo influenciado autores como Stephen King, que sempre a menciona em suas memórias ou livros de não ficção ou prólogos e epígrafes, é assustadora também a falta de divulgação, interesse e busca por suas obras.

Ao longo da vida desse site publiquei três resenhas da autora, que foi tudo que saiu dela aqui no Brasil nos últimos anos: Sempre Vivemos no Castelo, A Assombração da Casa da Colina e A Loteria, conto que saiu na coletânea Contos Clássicos de Terror (cujo livro comprei somente pelo nome da autora, sim).
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Como dito no texto Desafio de Março: terror dirigido por mulheres, resolvemos criar um desafio. Sabemos que as mulheres estão e sempre estiveram no terror, e é importante se lembrar disso diariamente, mas muitas pessoas (homens, sim) conseguem ignorar essa participação, não ligar, empurrar os problemas que a indústria do terror tem com as mulheres para baixo do tapete, e essas coisas desagradáveis. Tudo bem. Mas meu trabalho e o de tantas outras mulheres existem para que essa participação seja SEMPRE lembrada e reconhecida.

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Slashers nunca foram uma das minhas subcategorias preferidas no terror. Inclusive, posso dizer que foi uma das coisas que me manteve afastada do terror por muito tempo. Achava toda aquela perseguição e matança desnecessárias; e, convivendo com os fãs de terror que convivi, achava que só isso poderia ser considerado terror. Escrevi, meses atrás, um texto chamado “você não precisa gostar de slasher”, exatamente para ajudar a tirar isso da cabeça das pessoas: o terror e o horror não precisam ser só slasher, você pode gostar de outras coisas.

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Na imagem, da esquerda para a direita: Jovanka Vuckovic, Meosha Bean, Sloan Turner, Ana Lily Amirpour, Karyn Kusama, Gabriela Amaral, Soska Sisters, Anna Biler
Em fevereiro, nos Estados Unidos, é comemorado o "Women in Horror Month". O evento/festival/comemoração começou com a intenção de demonstrar e dar apoio às mulheres que trabalham na indústria do horror, tentando demonstrar que nós ocupamos um lugar importante, que terror não é coisa de homem, que mulheres são tão boas quanto qualquer um nessa indústria.
Em março, dia 08, comemoramos o dia internacional da mulher, uma data significativa para a luta das mulheres (e, para não fazer o texto maior do que o necessário, vocês podem ler um pouco sobre a data aqui).

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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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