Fright Like a Girl

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Em junho do ano passado li Rinha de Galos, da María Fernanda Ampuero. Foi meu primeiro contato com a literatura da autora, que já tinha sido extremamente recomendada para mim. Comentei algumas vezes aqui no blog do quanto gosto da literatura da América Latina, principalmente da escrita por mulheres, então é claro que assim que me foi possível eu fui atrás de Rinha de Galos.

O livro é um chute na cara e um soco no estômago extremamente bem dados. Falei um pouco dessa leitura aqui no blog. Então, quando a Editora Moinhos trouxe outro livro da autora, Sacrifícios Humanos, eu logo adicionei na minha lista. Aproveitei para lê-lo esse mês, no Desafio do Conforto Literário, que organizei com a Michelle e estou participando desde janeiro.


 Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero (Editora Moinhos, com tradução de Silvia Massimini Felix), é, assim como Rinha de Galos, uma antologia de contos curtos, com 12 contos no total. O livro, também, é bem curtinho, com menos de 120 páginas, mas passa na sua vida como um furacão dos mais potentes.

Ao longo dos contos nos deparamos com histórias dramáticas e cruéis, histórias de violência e horror, de imigração e de raízes e tradição, de mulheres que caem nas histórias de homens que, logo em seguida, lhes mostram a verdadeira face. De trabalhadores e trabalhadoras e sofrimento e suor e sangue. Há também uma certa inocência e ironia em algumas personagens dos contos.

Mulheres desesperadas são a carne da moenda. Nós, imigrantes, além disso, somos os ossos que trituram para que os animais comam.

A maioria das histórias reunidas em Sacrifícios Humanos se apoia no dia a dia, na humanidade e na sua própria podridão mas há uma inclinação sobrenatural em alguns deles, como em "Irmãzinha" e "Sacrifícios". Mas isso é apenas um pequeno artifício para o terror palpável, para o terror de carne e osso que se esconde nas narrativas de Ampuero.

Meus contos favoritos do livro foram "Biografia", "Irmãzinha" e "Invasões". Senti que Sacrifícios acaba sendo "mais leve" que Rinha de Galos, ainda que ambos tenham leituras pesadíssimas. Mas, de alguma forma, mesmo que ambos falem dos mesmos temas, a leitura me pareceu menos tenebrosa. Como comentei na resenha do outro livro, em que eu tive que parar vários momentos para consertar meu rosto, que estava retorcido de nojo, esse eu não tive tantos momentos assim.


Me pareceu que a violência aqui era muito mais direta, muito mais mundana. Não era tão absurdo como Rinha. Como assistir a um noticiário, sabe? Não é apatia, é só que você meio que conhece algumas daquelas histórias, você espera que elas se desenrolem da forma que se desenrolam. E isso não é uma crítica negativa. Ver certas narrativas de abusos e horror narradas dessa forma, no livro, expõe diversos sentimentos nossos, todos de uma vez. Sabemos que são histórias de ficção, mas são histórias que poderiam ser reais (e que acabam sendo, em diversos lugares), e isso sempre mexe muito com a minha cabeça.

Eu acho que se eu fosse recomendar um livro para começar a ler María Fernanda Ampuero, seria esse aqui. E, depois, seguir com Rinha de Galos. Acho que funciona bem, ainda mais para quem não está acostumado com a literatura absurda e estranha da América Latina.

Sacrifícios Humanos, de María Fernanda Ampuero, pode ser comprado em formato físico ou ebook na Amazon* ou no site da Editora Moinhos.

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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

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Em dezembro, mês do meu aniversário, eu queria fazer algo divertido para mim. Eu só ia ler livros que ainda não li dos meus autores favoritos. Como, por um acaso, eu tinha esses livros em casa, achei que seria divertido fazer essa lista de leitura especial. 

Se vocês me perguntarem "Jéssica, você conseguiu ler tudo?", eu vou ter que ser sincera e dizer: não. Não consegui. Eu me superestimei achando que conseguiria terminar Dança da Morte, do Stephen King, ainda em dezembro, tendo começado ele no dia 21, mas esse sonho se parece cada vez mais distante de concretização. Mas, até aí, sem problema. Também não terminei ainda o da Shirley, e também tudo bem.

Os outros livros escolhidos foram Temporada de Caça, do Stephen Graham Jones, A Loteria e Outros Contos, da Shirley Jackson e The Dangers of Smoking in Bed, da Mariana Enriquez. Escolhi este último para começar. (Também li um livro da Agatha Christie que eu tinha certeza que ainda não tinha lido mas, de novo, fui burra e só descobri que já tinha lido sim quando vi o exemplar na minha estante, mas eu faço muito isso com a sra. Agatha). Eu devo fazer resenha de todos eles (menos o da Agatha), mas vou começar por esse da Mariana. 

A essa altura do campeonato eu nem tenho mais palavras para descrever meus sentimentos pela Mariana Enriquez. Ela é, sem dúvida, uma das minhas autoras favoritas. Eu já tinha amado As Coisas que Perdemos no Fogo e Este é o Mar, mas quando li Nossa Parte da Noite foi como se minha vida tivesse mudado. Nunca mais fui a mesma pessoa. Eu escrevi sobre ele aqui no blog, e não canso de recomendar por aí. 

The Dangers of Smoking in Bed, de Mariana Enriquez, foi publicado originalmente em espanhol. Mas eu comprei a edição em inglês mesmo, que foi traduzida para o idioma por Megan McDowell. O livro é composto por doze contos, e uma coisa que eu pude perceber, se minha memória não está me enganando, é que esse livro é muito mais cruel e cru do que As Coisas que Perdemos no Fogo.

Li As Coisas que Perdemos no Fogo ainda em 2018, e não o reli depois disso. Somente o conto "A Casa de Adela", que reli por causa de sua ligação com Nossa Parte da Noite. Mas me lembro de ser um livro com contos muito melancólicos. Me lembro de ter algo triste atrelado a eles. Mas, novamente, pode ser minha memória me enganando.

Já The Dangers of Smoking in Bed é um livro muito mais cruel. Tanto seus personagens, quanto as situações e temas abordados, tudo parece mais cru e mais mórbido. Eu não sei exatamente identificar o motivo, e também, como disse, preciso reler As Coisas que Perdemos no Fogo, mas logo de cara, ali nos primeiros contos, foi essa a sensação que me passou. 


Não que isso seja uma coisa ruim, pelo contrário. Acho que gostei ainda mais de Dangers... do que tinha gostado de As Coisas... Apesar de ambos serem excelentes livros de contos, Dangers... ainda deve ficar na minha memória por um bom tempo. Os contos perpassam as situações familiares, crueldade, problemas sociais e até mesmo solidão, tecendo uma teia assustadora sobre a humanidade, suas intenções, seus motivos. 

Eu posso dizer com tranquilidade que amei todos os contos do livro, mas não posso deixar de pontuar meus favoritos, que foram: "Angelita Unearthed", "The Well", "The Lookout", "Kids Who Come Back" e "Back When We Talked to the Dead". Acho que de todos, o meu favorito ainda foi o "The Well", que quando terminou eu fiquei completamente perdida, olhando pro nada, pensando "caraca, não é possível". 

Não vou dar uma sinopse de cada um dos contos, mas posso dizer que cada um é mais arrasador que o outro. Eles destroem sua esperança, sua empatia, seu coração, e diversos outros bons sentimentos. Uma delícia, recomendo fortemente, ajuda a manter os pés no chão.

Acho que já comentei isso uma vez, mas queria comentar novamente: acho um absurdo que ainda hoje não sejam todas as obras da Mariana Enriquez que estejam disponíveis em português. Essa mulher é uma potência. Infelizmente, por exemplo, The Dangers of Smoking in Bed está somente disponível em inglês e espanhol (e alemão e francês, se não me engano). Quem quiser se arriscar em um desses idiomas, eu recomendo fortemente. É um livro fortíssimo, com contos aterrorizantes e cruéis, do jeitinho que a gente gosta. 

The Dangers of Smoking in Bed, de Mariana Enriquez, está disponível na Amazon* em formato físico ou digital. 

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Gosto muito quando leio algo que me tira o ar, que me deixa naquele estado de suspensão que eu penso "caramba", e fico olhando para um ponto por alguns minutos. E essa perda de ar, esses minutos de contemplação, pode acontecer por diversos fatores. Pode ser um "caramba" do tipo "o que aconteceu aqui" ou um "caramba" de uau. Acho que uma das melhores "funções" (entre aspas, por falta de uma palavra melhor) da literatura é poder te deixar nesse estado, te tirar um pouco do dia a dia e te colocar em um lugar diferente. 

E colocar a gente em um lugar diferente também anda junto com outra das melhores "funções" dos livros é poder fazer a gente enxergar com outros olhos, conhecer outras realidades, outras pessoas. E isso literalmente. Às vezes um livro é tão íntimo de quem o escreveu que acabamos conhecendo uma certa profundidade desses autores.

Esse é o caso com O Parque das Irmãs Magníficas, da autora argentina Camila Sosa Villada. O livro foi lançado aqui no Brasil pela editora Tusquets, com tradução de Joca Reiners Terron. Eu sempre gosto de dar minhas próprias sinopses para os livros que comento, mas antes de tentar dar uma resumida neste aqui eu queria trazer um pedaço da sinopse que consta no site da Amazon:

"O romance O parque da irmãs magníficas é isso tudo: um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror, o retrato de uma identidade de grupo, um manifesto explosivo, uma visita guiada à imaginação da autora. Nestas páginas convergem duas facetas da comunidade trans, facetas que fascinam e repelem sociedades no mundo inteiro: a fúria travesti e a festa que há em ser travesti."

Quando o livro foi lançado aqui, ano passado, eu fiquei muito curiosa. Não somente por ser uma autora argentina, mas principalmente pela descrição dessa sinopse: um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror. Vi algumas conhecidas e blogs que acompanho falando muito bem, e fiquei muito curiosa em lê-lo. Comprei em ebook em uma promoção da Amazon e comecei a leitura enquanto estava em uma espera longa e triste pra ser atendida no posto de saúde certo dia.


Ao longo da narrativa, acompanhamos a trajetória da narradora, entrelaçando a história de sua infância e de sua chegada ao parque de que o título fala, conhecendo suas companheiras, e retornando para nos contar sobre como ela se sentir durante o dia, durante a faculdade, nos momentos em que assumia uma versão sua da qual não se sentia confortável, mas era socialmente imposta a aceitar. 

Conhecemos personagens que parecem realmente saídos de uma história fantástica. A narrativa de Sosa Villada tem essa característica especial, parece uma poesia, mas extremamente crua; e parece realmente uma mistura de conto de fadas com história de terror. Nesse caso, não somente pelas situações terríveis que a autora narra sobre as dificuldade de se ser trans, travesti, ou uma trabalhadora sexual, mas por causa de todo o clima insólito que Sosa Villada dá ao seu livro.

"Enquanto isso, as que permanecemos por aqui, bordamos com lantejoulas nossas mortalhas de linho."

Se eu entrasse um pouco mais em detalhes sobre o que acontece e como acontece, talvez eu acabaria falando demais, e perderia um pouco o brilho da descoberta. Mas acompanhar essa personagem narradora pelos caminhos e sua vida, pelas teias que compõem suas relações e seus afetos, é um caminho muito especial, é uma história cheia de detalhes, de experiências difíceis, que te deixa vidrado, e no final parece que você conhece aquela personagem. Tudo é muito cru, muito verdadeiro, mas também tem muito sentimento nessas linhas.

Não é um daqueles livros que demora a engrenar. Nas primeiras páginas eu já estava interessada, e ao final do primeiro capítulo já estava vendida. O Parque das Irmãs Magníficas é uma história envolvente, trágica, surpreendente, emocionante, triste e extremamente interessante. Um daqueles livros que a gente não quer parar de ler. 

Você pode comprar o livro no site da Amazon*, ou da própria Tusquest.

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Tem livros que são como um chute na cara, que reviram nossas entranhas e nos fazem olhar para lugares extremamente desagradáveis. Nos últimos anos, os livros que mais tive essas reações foram os das autoras latino-americanas. 

Já contei algumas vezes como se deu essa minha aproximação dessa literatura. Eu estava quieta, tranquila na minha, quando fui apresentada aos livros de Mariana Enriquez e Samanta Schweblin. Isso era 2018, eu estava começando a sair da minha zona de conforto da literatura. Desde então, foi só ladeira abaixo. Uma ladeira íngreme e tortuosa e assombrosa e que muitas vezes me deu calafrios. Mas que, até agora, não tenho nenhuma reclamação.

Quando a Michelle me desejou boa sorte, antes que eu começasse Rinha de Galos (lançado aqui no Brasil pela Editora Moinhos, com tradução de Silvia Massimini Felix, a mesma tradutora de Mandíbula, de Mónica Ojeda) da equatoriana María Fernanda Ampuero, eu achei engraçado. Porque eu sabia que vinha um livro forte por aí, mas pensei "bom, Michelle e eu já lemos muitas coisas iguais, será que é mesmo tão potente?". Naquela noite eu li uns quatro ou cinco contos, um atrás do outro, e cada um deles me atingia com uma violência diferente. 

Os contos de María Fernanda Ampuero são crus, terríveis, têm momentos nauseantes, mas são extremamente humanos. Por pior que algumas atitudes e escolhas pareçam, por mais absurdas e estranhas que algumas passagens sejam, é muito visível que há algo de intrinsecamente humano em cada um deles. Ampuero não usa de sobrenatural ou qualquer artifício mágico para causar terror ou trazer absurdo para suas histórias. Não que você diga "poxa, talvez eu conheça alguém assim", não é que dê para conhecer as pessoas que habitam esses contos, não é exatamente isso — mas, de certa forma, dá. De certa forma, é.

"Voltar, como todo mundo sabe, é impossível. Depois dos abraços e lágrimas, vem o verdadeiro reencontro, estar cara a cara com as mesmas pessoas quando nós já somos outros, estar diante delas quando não sabemos quem são. Ou seja, ninguém diante de ninguém."

É como se uma porta se abrisse e você visse no fundo dos olhos de alguém alguma passagem muito estranha da vida dela. E eu digo isso um pouco assustada, porque houveram momentos da leitura, que fiz toda no horário antes de dormir, sozinha, protegida embaixo do meu lençol, em que eu tive que consertar meu rosto, que estava retorcido em uma careta de nojo e angústia.

Não foi uma leitura fácil, no sentido de tranquilidade mental. A fluidez do texto, e o tamanho dos contos, claro, são fáceis. A tradução de Silvia é excelente, e a escrita de Ampuero é, em si, muito objetiva, mas os temas são densos, exige de você um sangue frio para assistir tudo o que está escrito ali sem ter um ou dois (ou mais) colapsos nervosos. Assassinatos, cenas extremamente explícitas, incesto, abuso, violência física, e mais uma meia dúzia de situações que fazem a gente se contorcer enquanto lê. Mas também, nas entrelinhas, pensamentos sobre classe, raça, sobre traumas, sobre terrores escondidos bem lá no fundo da nossa alma.


No entanto, foi uma leitura excelente, me atingiu em cheio, me deixou um bocado desconcertada e desnorteada. Daquelas que a gente demora muito a esquecer. Os contos não seguem um fio condutor, apesar de alguns tratarem de temas semelhantes, e um ou dois até estarem interligados por alguma cena ou momento em comum. Meus favoritos foram "Monstros", "Griselda", "Nam", "Cristo", "Paixão", "Luto" e "Ali", mas todos tem um ou outro detalhe que te fisga. 

Se você é escritor de horror ou gosta de aprender curiosidades sobre processos criativos, a María Fernanda Ampuero tem com um curso pelo site Doméstika, Introdução à escrita de histórias de terror. Pretendo fazer em algum momento, mesmo que eu não seja escritora de ficção, porque sou curiosa e gosto de ver autores falando sobre seus processos. 

Já o livro Rinha de Galos pode ser comprado pela Amazon ou através do site da Editora Moinhos. 

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Ah, a juventude. Época de descobertas, de novas experiências, de muitos primeiros passos rumo à vida adulta e como sua personalidade será nos anos seguinte. 

Pode ser um período muito bom ou muito ruim. Pode, ao mesmo tempo, ser um período muito bom para quem o está passando, e péssimo para quem tem que conviver com essa pessoa. E vice-versa. O terror (e as obras que flertam com ele) é um gênero muito interessante para abordar esse período. 

No episódio 4 da segunda temporada de History of Horror, do Eli Roth, sobre bruxaria, Megan Fox, estrela de um dos clássicos do terror adolescente, Garota Infernal, comenta algo interessante. Ela diz que o terror é um excelente gênero para lidar com essas questões da puberdade e adolescência, porque você pode tornar físico algo que diversas garotas estão sentindo internamente o tempo todo. E, acrescento, às vezes nem precisamos tornar físico. Mas o terror tem essa dimensão, essa possibilidade, de mostrar sentimentos conflituosos e aterrorizantes — que é, afinal, como muitos jovens se sentem.

Nessa última semana eu recebi Mandíbula, de Mónica Ojeda, com tradução de Silvia Massimini Felix, da Autêntica Contemporânea, novo selo da Editora Autêntica. Mandíbula é um lançamento importante no Brasil, pois Mónica Ojeda é um nome forte da literatura latino-americana e até então, não tinha tradução para o português (em janeiro de 2021 a Editora Jabuticaba lançou um de seus livros de poema, História do Leite, mas sua ficção permanecia sem tradução).

Mónica Ojeda nasceu em Guayaquil, a maior cidade do Equador. Mais adiante, se mudou para Barcelona. Em 2017 foi incluída na lista Bogotá39, uma lista que mapeia e celebra os 39 autores mais promissores da América Latina abaixo dos 40 anos. 

A primeira vez que ouvi falar em Ojeda foi enquanto pesquisava sobre o gótico e o terror latino-americano para o texto que escrevi para a Revista Quatro Cinco Um. Meu interesse por essa literatura, àquela altura, já era imenso. Mas eu queria mapear outros nomes, conhecer mais, saber de outras autoras. Para mim, há algo na literatura latino-americana que me fascina: há uma crueza, uma poesia, um sentimento muito próximo e muito próprio. Não é pertencimento, mas é proximidade. É uma violência palpável, uma parte da história, um sentimento que assopra um ar gelado e seco na sua nuca. Próximo.

Então, eu tinha acabado de terminar uma leitura no dia anterior ao que Mandíbula chegou, e não havia dúvidas que iria começar o livro imediatamente. Desde aquele momento, assisti aos acontecimentos do livro entorpecida e chocada, confesso, mas fascinada também, diante do trabalho narrativo primoroso de Ojeda.

Sobre o livro


Certo dia, Fernanda abre os olhos e se encontra em um local estranho. Ao despertar, percebe que está presa a uma cadeira, e que sua professora, Miss Clara, está com ela. Algo parece errado, e a jovem se dá conta de que Miss Clara a sequestrou.

Narrado por vários narradores diferentes ao longo dos capítulos, passeamos pelo íntimo de Fernanda, de Miss Clara e, aos poucos, vamos entendendo como as duas personagens chegaram até ali. E mais: vamos entendendo todo o contexto das vidas de ambas e porque, no final das contas, esse livro é tão trágico, amargo e cru.

Fernanda inicia a história como uma jovem intragável. Filha de duas figuras públicas importantes de Guayaquil, onde se passa a história, é rica, e faz parte de um grupo privilegiado e desordeiro do Colégio Bilíngue Delta, High-School-for-Girls. Junto de Natália, Fiorella, Analía, Ximena e sua melhor amiga Annelise, Fernanda assumiu não somente o controle da sala, mas sob tudo a sua volta. Sua mãe teme a garota, por um episódio acontecido quando era criança (e pouco explicado desde então, quando Fernanda viu seu irmãozinho mais novo se afogar ou, o que muitos acreditam, que ela mesma o matou). Seu pai, ausente, apesar de carinhoso quando está por dentro, demonstra fraqueza diante da mãe.

Ao longo dos dias no colégio, o 5ºB, ou esse grupo em particular, corre sem disciplina, até que encontram um prédio abandonado certo dia, e começam a pôr para fora todo o tipo de selvageria e situações perigosas, impulsos de morte causados por uma educação regrada ou pela simples curiosidade de conhecer o mundo. O grupo inteiro participa, mas Fernanda e Annelise são as abelhas rainhas da colmeia. Annelise até inventa um certo tipo de divindade complexa chamada Deus Branco para os rituais do prédio. Mas as coisas vão longe demais.

Estar assustada faz com que você se sinta muito viva e muito frágil, como se você fosse um caco de vidro e pudesse se quebras a qualquer momento. Pode ser feio sim, mas também te desperta e te preenche de uma emoção enorme.

Miss Clara entra nessa história como professora do Colégio Bilíngue Delta. Uma mulher jovem mas alquebrada, cuidou da mãe no período de sua doença, mas desde cedo foi afetada por um tipo de amor impulsivo (e repugnante para todos que olhassem) por sua mãe. Clara adotou a mesma profissão da mãe, e passou a adotar suas roupas, seus trejeitos e até seus pensamentos. Desde cedo, também, era dominada por ataques de pânico e ansiedade, poucos compreendidos pela mulher que a deu à luz. 

Além de todos esses pequenos detalhes sobre a personalidade de Miss Clara, há também o fato de que algum tempo antes dela entrar no Colégio Bilíngue Delta, duas de suas alunas da escola anterior em que ela dava aula entraram em sua casa para roubar as provas que seriam aplicadas. 

Os detalhes dessa invasão, assim como os detalhes das personalidades dessas jovens do 5ºB do Colégio Delta, são expostos de forma desordenada, e isso é interessante porque, apesar de sabermos como é uma sala desagradável, é somente lá pelo capítulo XX em que Clara conta, com todas as letras, como o lugar é insuportável.


Há um vai e vem de ideias, um fluxo bagunçado de pensamentos, que se misturam com sessões do analista de Fernanda, memórias de Clara, até mesmo outros contatos entre as jovens. Essa multiplicidade de vozes dá forma ao livro: em alguns capítulos, mais longos, temos parágrafos mais compridos; em outros, mais curtos, temos questões lançadas em uma formatação à direita da página, por exemplo. 

Essas ideias jogadas, esse fluxo de pensamentos, ajuda a conhecer mais a fundo esses personagens, sem um filtro. Sabemos o que eles pensam, e isso nos traz questionamentos interessantes sobre papéis de gênero e questões sociais, de choques culturais, de choques de educações diferentes. Mas algo que permeia toda a história e que dá o tom em todos os conflitos é essa disputa entre mãe x filhas, alunas x professoras. 

Essa disputa por lugar é palpável durante todo o livro. Mães e filhas que não se entendem, mulheres que avançam sobre outras mulheres, a família como um lugar de disputa. A literatura latino-americana tem esse poder, algo que acompanhei em muitos livros e muitas autoras, que é de colocar a família como algo que está ruindo, algo que se mantém sobre alicerces muito frágeis, e algo que dialoga diretamente com o sentimento de milhares de pessoas que compartilham desse local. Nossa noção de família é diferente, afinal, de outros lugares. Não quero transformar a vivência latino-americana em uma generalização, mas é importante termos em mente esse contexto, é importante sabermos como essa experiência se dá. Esse é, neste livro, um dos pontos principais. 

A disputa entre juventude e amadurecimento também está presente no livro, através de Miss Clara que, apesar de professora, tem certo receio de se aproximar de suas alunas. Para ela, as alunas exercem um papel semelhante ao de filhas: o de engolir suas mãe (neste caso, professoras). Desde o acontecimento com as outras jovens, da escola anterior, Clara tem problemas de se aproximar das jovens do Colégio Delta.

Preciso abrir um parêntese para dizer o quão inteligente e interessante foi o trabalho de Ojeda ao incorporar os elementos de terror e cultura pop ao longo do livro. Fernanda é uma jovem apaixonada por filmes de terror, e Annelise é uma grande escritora de creepypastas. Miss Clara, aliás, é uma grande conhecedora de obras clássicas do gótico e do terror. Isso é importante para o livro porque, em determinado momento, Annelise desempenha um papel chave na narrativa e escreve um ensaio imenso sobre o que ela chama de "horror branco". Nele, ela fala sobre a experiência do medo na adolescência e como essa idade poderia ser conhecida como idade branca. É um texto excelente, que expõe as ideias da personagem, que é tão importante para o desenrolar do livro e que não precisa de mais que algumas páginas para a conhecermos.

Um dos pontos altos de Mandíbula é seu formato, as ideias equivocadas que temos até compreendemos o que se deu realmente na história, toda a crueza de sentimentos que essas jovens expõe ao longo do livro que é conduzido de forma magistral por Ojeda. Personagens que poderiam ser figuras reais, que, de certa forma, traduzem sentimentos reais.

 Se você gostou...


Se você gostou de Yellowjackets e de Mate-me Por Favor — o filme de 2015 de Anita Rocha da Silveira — você provavelmente vai gostar desse livro. Yellowjackets porque há, nesse grupo de garotas perdidas na floresta, um segredo gigantesco e algo sobrenatural (ou algo das mentes delas) que lembra um pouco esse grupo do 5ºB de Mandíbula. Eu diria até que se houvesse um encontro entre esses dois grupos provavelmente o resultado seria a morte de alguém.

Já Mate-me Por Favor tem esse impulso de morte que tem em Mandíbula. É um retrato tão simples da juventude, mas tão próximo, tão cru, que ambas as obras dialogam de forma muito próxima, mesmo sendo tão diferentes.

Compre o livro:

  • Mandíbula: Amazon | Autêntica Contemporânea
*Livro recebido para resenha pela Editora Autêntica
**Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)

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Infelizmente, ou felizmente, existem muitos livros no mundo e não existe tempo suficiente para ler todos. A forma que eu encontro de filtrar o que quero ler, geralmente, é procurando listas — na maioria das vezes procuro por listas sobre autoras mulheres, autoras LGBTQIA+, o que tem sido vendido e falado sobre o terror dos últimos anos, e por aí vai. Já encontrei algumas coisas incríveis assim (e meio que foi assim que conheci o Stephen Graham Jones).
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Meses atrás li Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel (tradução de Monica Maia), para um clube de leitura que participo. Foi meu primeiro contato com o realismo mágico e fiquei fascinada. Achei tudo muito incrível, como a mágica é usada no cotidiano em pequenas doses. 
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Tenho me interessado bastante por conhecer mais da literatura latino-americana. Isso surgiu há uns anos atrás, quando li Mariana Enriquez, mas só foi ganhar força realmente esses meses, após uma ou duas leituras que fiz.
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Quem escreve

Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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