Fright Like a Girl

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Lendo textos e ensaios e livros sobre a história do terror (na literatura e no cinema), é impossível, praticamente, não encontrar menções ao livro Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson. Considerado um dos grandes clássicos do gênero do século XX, o livro inspirou uma série de outros autores e de tendências nos anos após seu lançamento. 

Quando tive que escolher um livro apocalíptico para o Desafio Fright das 5 às 7 de junho, eu logo pensei nele. Como vocês, fiéis seguidores, podem ter percebido, tenho escrito pouco aqui, porque, na verdade, tenho lido pouco. Tenho dormido mais cedo e lido menos, então pensei em escolher um livro que já estava há muitos anos na minha lista de leitura e que ainda não tinha tido a oportunidade.

Eu sou a Lenda (li na edição da Aleph, com tradução de Delfin) conta a história de Robert Neville, um homem que se vê sobrevivendo sozinho em um mundo assolado por uma praga que transformou a todos em mortos-vivos vampiros. Ao longo do livro, através da narração em terceira pessoa, descobrimos aos poucos o que aconteceu com o mundo que o fez chegar a esse ponto, como são esses vampiros, quais são suas características especiais e o que faz deles uma ameaça tão potente. 

Neville era um cara que tinha esposa, tinha uma filhinha, e tudo lhe foi tomado por essa terrível realidade que se abateu sobre ele. Nós acompanhamos o dia a dia de um homem alquebrado, mas espantosamente são (apesar de seus momentos de devaneios e raiva), visto que por muito menos outros teriam perdido completamente a cabeça (eu teria).


A narrativa de Eu Sou a Lenda também não pega leve com Neville. Ele não é exatamente um cara legal, ótimo, boa pinta. Ele é um cara que tem seus defeitos (e vários) e isso fica muito claro pela forma como ele pensa nas mulheres e seu instinto sexual diante de estar sozinho no mundo, na forma como ele lida com determinadas situações, na forma como ele se sente quando está completamente sozinho e afunda a cara na bebida. 

Se isso é bom ou ruim, aí vai do leitor. Mas é interessante ver como isso é colocado ao longo da história. Para mim, o fato de ele ser um cara extremamente humano diante de uma situação tão catastrófica e essas sensações extremamente humanas dele serem expostas da forma que estão conforme avançamos no livro deixa as coisas ainda mais críveis.

Em um mundo de horror monótono, não podia haver salvação, nem nos sonhos mais loucos. Ao horror, ele se ajustou.

Um dos pontos altos do livro de Matheson, para mim, foi o desespero que emana repetidamente dessas páginas. O começo é morno, mas conforme avançamos em direção ao final nosso próprio desânimo enquanto leitores, pessoas que acompanham essa história, aumenta junto ao do personagem. Há uma situação mais ou menos no meio do livro que leva esse sentimento doloroso ao ápice para que, no final, a gente solte um suspiro pesado de terror que ficou entalado na garganta desde aquele momento.

É bacana acompanhar essa derrocada. É uma descida ladeira abaixo com uma sensação de vazio constante que preenche a gente. É, um vazio que preenche, sim. A gente fica meio desacreditado, mas completamente ciente daquilo tudo. E uma coisa que o Matheson coloca ao longo da narrativa, mais de uma vez aliás, é essa capacidade do ser humano de se adaptar a quase qualquer coisa, por pior que seja. 

É bastante deprimente, sim, mas muito crível. Não crível do tipo "meu deus, os vampiros vão dominar o mundo". Mas crível do tipo "caramba, os seres humanos podem sim ser, e sempre que tiverem a chance serão, horríveis".

Não quero dar spoilers, mas também preciso mencionar que adorei a forma como ele quis lidar com a tradição dos vampiros. Nessa realidade de Eu Sou a Lenda, as histórias de vampiros existem. Ele cita Drácula e alguns outros, e essas histórias chegam a auxiliar nosso protagonista a entender o que pode estar acontecendo. Mas, na verdade, é tudo extremamente científico. É um toque bem bacana.

Conforme os anos se passam eu fico mais interessada de ler algumas dessas histórias. Talvez, se eu tivesse lido esse livro há alguns anos, eu não teria gostado dele tanto quanto gostei hoje. Então acho que meu instinto de dar tempo ao tempo tem sido muito útil para mim.

Ainda não assisti o filme com o Will Smith de 2007. Na verdade, só vi a adaptação com o Vincent Price. Queria ter assistido ambas antes de fazer o texto, mas não tive tempo (passei meu final de semana inteiro assistindo Terrifier), então esse complemento vai ter que ficar para outra hora. Mas foi uma leitura que eu gostei bastante de fazer, e finalmente posso tirar esse livro da minha lista de leitura.

Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, está disponível na Amazon* em formato físico ou ebook.



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Afinal, o que é um cientista fascinado pelo poder dando à vida uma Criatura a partir do zero perto da total e completa maldade e preconceito do ser humano?

Perdi as contas de quantas vezes li e reli Frankenstein, de Mary Shelley. A ocasião mais recente foi a trabalho. Parece que todas as vezes que leio esse livro eu saio dele com uma coisa nova no coração. A grandeza dos detalhes, a forma como Mary inseriu tantas referências de sua vida ao longo da narrativa que escreveu tão jovem — isso, por si só, um enorme feito, seja hoje em dia, seja em 1816. 

Frankenstein é um dos meus livros favoritos não por acaso. Acho que ele tem uma alma tão profunda, tão decente, tão honesta e ainda assim tão simples, que faz dele mais do que completo: para mim (e para muitos, ainda bem) ele é uma obra-prima de primeira qualidade. Uma das maiores criações humanas, um dos maiores elogios ao ato de saber ler e poder encontrar razão (e um sem-número de emoções) em suas linhas.

Uma coisa que nunca muda, para mim, desde a primeira vez que li esse livro, há alguns anos, é a forma como a Criatura é um ser incompreendido. Abandonado e solitário, a Criatura de Frankenstein é um dos maiores exemplos de como o ambiente e os agentes externos podem alquebrar uma alma, transformar o coração. 

Como uma jovem com tão pouca idade conseguiu expressar em palavras como é se sentir extremamente só, abandonado e desiludido? Se sentir completamente diferente de todos os seus pares, mesmo que eles não fossem iguais a eles, transformando-o em um pária antes mesmo que ele tivesse seus arroubos violentos contra seu criador?

Talvez ela mesma tenha passado por situações em que se sentiu um espírito forasteiro. A história de Mary Shelley é cheia de detalhes tristes, onde ela teve que se diminuir tantas e tantas vezes para caber em lugares menores. Filha de dois gênios da literatura política do final do século XVIII, não digo que ela estava fadada ao sucesso, ou que grandes coisas esperavam por ela. Mas como caber em lugares tão pequenos quando se tem uma alma, um espírito e uma vida tão grandes?

O que eu tiro dessa centésima leitura de Frankenstein, dessa vez, é como a solidão e o abandono são alguns dos verdadeiros horrores que encontramos nessas páginas. 

A narrativa já se inicia com as cartas de Walton contando à sua irmã, Margareth, como este se sente sozinho e como deseja, ardentemente, um companheiro a quem dividir seus momentos felizes e seus momentos tristes. Em sua empreitada pela glória, em um experimento científico que espelha, de certa forma, o do próprio Victor Frankenstein, Walton se encontra solitário. 

Victor, também, ao se encontrar com Walton, se sente solitário, mas por motivos mais complexos. Através do remorso e da miséria que sente em seu coração por ter criado algo tão sacrílego quanto uma Criatura a partir do zero, longe das concepções aceitas por Deus e pela sociedade de dar à vida, Victor se afasta da convivência. Primeiro, se tranca em seu quarto ao longo de seus estudos; em seguida, retornando para a casa de seus parentes, passa três dias, já se avizinhando de sua cidade natal, para ficar sozinho. Quando acontece o incidente de Justine, novamente Victor se recolhe à solidão.

Mas quem mais sofre com a solidão e com o abandono, sem ter escolhido por isso, é a própria Criatura.

Yet mine shall not be the submission of abject slavery. I will revenge my injuries; if I cannot inspire love, I will cause fear.

A solidão da Criatura, entretanto, vem de um lugar completamente diferente da solidão sentida por Walton e Victor. Enquanto os dois, jovens que sonham (e já sonharam, antes) em buscar a grandeza, se sentem sozinhos um por se estimar demais, e outro por se estimar de menos, a Criatura é só porque lhe foi negada qualquer tipo de companhia. Longe de ser um estado que escolheu, ele está ali por imposição.

Walton acredita piamente, como podemos ler através de suas cartas, que os marinheiros que ele escolheu (e alguns até que levou até a morte) não eram dignos de sua amizade. Pessoas simples, até rudes, são meros servos em sua empreitada. Victor, por outro lado, desde que começou sua investigação sobre como fazer vida através do que já está morto, se colocou no lugar de solidão por pura comiseração que sente por si mesmo. Pobre Victor, o jovem rico que, graças a atitudes irresponsáveis, agora se vê seguido por aquilo que não deveria ter feito. 

A Criatura, ao contrário, sonha em ter companhia. Qualquer uma. Ele procura incansavelmente qualquer companhia que possa lhe querer. Vaga por diversos lugares, sendo maltratado e escorraçado por onde quer que passe. Ele só quer alguém para ter com quem aproveitar a vida, que ele, que a ganhou de forma tão a contragosto, acha maravilhosa. 

E desse sentimento de solidão da Criatura nasce sua revolta. Novamente, se comparado a Walton ou a Victor, a Criatura é muito mais humana. Walton e Victor, ao se negarem essa companhia, essa amizade, caem em um lugar de autopiedade que, às vezes, soa ridícula aos ouvidos. Não querem compartilhar seus fardos e suas alegrias com seus iguais, os dois por seus próprios motivos, mas se sentem os seres mais tristes que já pisaram na Terra. 

Enquanto isso, a Criatura é acusada de ser um monstro vil e perigoso. Culpado dos maiores ultrajes (até daqueles que ele não fez), o que resta a ele a não ser pedir uma igual, para que possa ter, também, qualquer um para desfrutar da companhia? E até isso lhe é negado, porque Victor acredita firmemente, desconhecendo completamente aquilo que criou, que a Criatura é realmente um poço de destruição. E é desse lugar que nasce a raiva mais profunda da Criatura. É aqui, também, que a solidão dos três fica tão evidentemente diferente.

Am I to be thought the only criminal, when all humankind sinned against me? (...) I, the miserable and the abandoned, am an abortion, to be spurned at, and kicked, and trampled on. Even now my blood boils at the recollection of this injustice.

Ao longo dos anos, Frankenstein foi interpretado (e reinterpretado e utilizado) de diversas formas. Em sua primeira e mais óbvia camada, vemos uma história de um homem inebriado por poder, que lida com coisas que não deve, e acaba criando um "monstro terrível". Em suas camadas mais profundas, porém, existem tantos temas e detalhes, tantas pequenas belezas e situações aterrorizantes, que poderia gerar conversas por mais quatrocentos anos. Frankenstein, assim, também se torna atemporal. 

Ao longo de sua vida, Mary também se sentiu sozinha diversas vezes. Não por escolha, na maior parte delas. Quando se casou com Percy, por mais feliz que estivesse, Mary foi atirada porta a fora de sua própria casa por seu pai. Ao longo dos anos, com as aventuras do marido e falta de dinheiro, Mary também deve ter sentido o peso da solidão sobre os ombros algumas vezes. E, aos poucos, foi perdendo aqueles que eram mais caros a ela: filhos que não nasceram, ou que nasceram mortos, ou que morreram pouco tempo depois, irmã, Percy, amigos.  

Não posso dizer com certeza que tudo que Mary escreveu em Frankenstein foi totalmente premeditado, se minha leitura dessa solidão que toma as páginas do livro é algo que eu mesma quis ver, que me saltou aos olhos, em um momento em que eu me sinto solitária. Entretanto, se eu pudesse me encontrar com a Mary Shelley uma única vez, eu perguntaria a ela se sua criação monstruosa lhe trouxe algum tipo de acalento. Se ela deixou, pelo menos um pouco, de se sentir sozinha.

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Há algum tempo venho ouvindo um burburinho sobre esse livro. Antes dele ser lançado em português, inclusive, acompanhei em alguns blogs como ele era considerado um dos melhores thrillers/horror dos últimos anos. Depois, quando traduzido, eu vi algumas amigas lendo e fiquei completamente obcecada (um beijo para a Adriana Cecchi e Ana Laux que quase fizeram com que eu explodisse de ansiedade pra ler esse aqui).

Finalmente encontrei um tempo e coloquei todos os livros de lado para me dedicar a ele. E rapaz, que caminhão foi esse que me atingiu.

A Última Casa da Rua Needless, de Catriona Ward, foi lançado aqui no Brasil pela Editora Jangada, com tradução de Thereza Christina Rocque da Motta. Na história, que é dividida em capítulos com os pontos de vista de personagens-chave, vamos juntando tudo como um grande quebra-cabeças maluco, tenebroso e angustiante.

Temos capítulos com Ted, Olívia e Didi. Eu vou dar breves resumos sobre cada um deles: Ted é nosso protagonista. Há algo de misterioso que ronda seus capítulos. Diferente dos capítulos de Didi, por exemplo, que são um pouco mais claros, os capítulos de Ted são mais nebulosos e precisamos prestar atenção nos menores detalhes para criarmos o panorama geral. Ted narra seus dias com sua filha chamada Lauren e é dono da gata Olívia. Olívia, a gatinha, mora junto de Ted. Ela ama viver em sua casa e gosta de observar o mundo lá fora por um buraquinho na parede da casa. Já Didi é uma mulher que perdeu a irmãzinha de seis anos quando ela mesmo só tinha dezesseis. Desde então, vem tentando encontrá-la.


No começo, tudo leva a crer que Didi suspeita que Ted seja o responsável pelo desaparecimento de sua irmã. Ele mesmo, logo no início, conta que sua casa foi revistada, que uma garota desapareceu em um local próximo à área onde ele mora, todas essas pequenas pistas. Além disso, como a própria narrativa de Ted é um tanto complicada (é uma narrativa em primeira pessoa, que se desenrola devagar — não no sentido de ser chato de acompanhar, pelo contrário, ela é construída de forma paciente, deixando pistas em diversos locais que vão se encontrar lá na frente do texto), nós demoramos um tempão para entender direitinho o que está havendo.

Eu comecei a ler o livro sem entender nada, depois tinha achado que tinha entendido, mas quando a ficha começou a cair de fato eu simplesmente fiquei tonta.  

É um daqueles livros que, quanto menos você souber, melhor. Não acredite em nenhuma informação. Não acredite em nenhum personagem. Não procure nada sobre a história. Só leia. 

Foi uma leitura impactante para mim. Eu não posso falar muito mais sobre ele, mas quero deixar minha recomendação fortíssima aqui. Se você pega dicas neste blog, por favor, considere ler esse. A forma como Ward amarrou suas informações e fez isso tão bem que até mesmo pequenos detalhes que a gente acha que ficaram para trás ou foram esquecidos são retomados adiante é impressionante. É um livro impressionante. Eu fiquei impressionada e devo continuar pensando nele por um tempão ainda.

A Última Casa da Rua Needless, de Catriona Ward, está disponível em ebook e formato físico na Amazon*. 

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Em 2021 eu estava numa vibe meio O Exorcista. Li o livro que deu origem ao filme, do William Peter Blatty; Li Exorcismo, do Thomas B. Allen, que é a história real por trás do caso que inspirou Blatty a escrever o livro, e assisti aos filmes da franquia. Quer dizer, o primeiro e o terceiro eu tenho certeza que vi — o quarto eu cochilei, não porque o filme estava ruim, mas gosto muito de cochilar no sofá enquanto alguma coisa passa, e eu estava cansada nesse dia. O segundo e o quinto acho que não assisti até hoje.

O ponto é, alguns anos depois, estou aqui novamente falando sobre Exorcista. Não exatamente sobre Exorcista, mas sobre Legião. Recebi esse livro esses tempos atrás, junto de O Dicionário dos Demônios, e esse mês foi o momento e pegar ele para ler. Ouvi ele me chamando da estante, e foi uma leitura muito bacana.

Lançado pela DarkSide com tradução de Eduardo Alves, Legião acompanha a história do Detetive Kinderman, enquanto ele investiga uma série de assassinatos. Com as mesmas assinaturas de um antigo caso em que Kinderman trabalhou, o homem acaba ficando transtornado com a possibilidade daquele assassino, chamado Geminiano, ter sobrevivido quando todos achavam que ele estava morto. Kinderman parte, então, em busca de desvendar esse mistério. 

O plot é bem simples e o livro se parece muito mais com uma narrativa policial tradicional do que um livro de terror em si, apesar dos elementos sobrenaturais que estão inseridos aqui e ali. Aqui, apesar do horror, as coisas giram em torno da tentativa de Kinderman de achar o culpado dos assassinatos. Gosto dessa coisa de misturar elementos de vários tipos de narrativa, e acho que o que o Blatty fez aqui foi bem legal.

O assassino Geminiano lembra bastante o Zodíaco. Não tanto por suas assinaturas e seu modus operandi, mas tem alguns detalhes ali que tornam as histórias parecidas. Sua primeira vítima nessa nova leva de matança é um garotinho, seguido por padres. E aqui o caldo entorna um pouco, e as maiores reviravoltas se dão por causa desse motivos. É aqui, também, que está a ligação com O Exorcista, e alguns personagens da história anterior aparecem aqui também.


A história guarda muitas surpresas. Eu li extremamente atenta cada virada de página, porque a cada momento tinha algo novo que poderia acontecer. Quando você pensa que sabe o caminho que o livro está tomando, acontece uma coisa que te deixa até meio desnorteado das ideias. Me pegou muito de surpresa mesmo. Apesar de ter assistido o filme que adapta a obra, me lembro de pouca coisa, e também não poderia dizer se é uma adaptação fiel ou não.

Acho que o Detetive Kinderman merece um parágrafo a parte. De início, suas filosofias e seus pensamentos sobre a maldade presente no mundo estavam me tirando um pouco a paciência. Pensamentos longos, discussões consigo mesmo sobre o papel de Deus, suas intenções e afins, eu estava mesmo de saco cheio. Mas, chegando ao final, acho que tudo valeu a pena. Faz sentido, e fiquei emocionada com os últimos acontecimentos do livro, principalmente as últimas linhas. Não achei que o livro fosse me pegar tanto, mas me pegou.

Legião é o terceiro livro na trilogia de Blatty chamada "Trilogia da Fé", que começa com O Exorcista, segue para A Nona Configuração e encerra com este aqui. Apesar de Legião e Exorcista dividirem alguns personagens, eu não posso afirmar que A Nona Configuração também tenha essa ligação. Ainda não li e ainda não assisti o filme. Mas soube que Blatty considerava que A Nona Configuração era a verdadeira sequência de O Exorcista. Depois de escrever o livro, ele mesmo dirigiu o filme. Em seguida, também dirigiu Legião. Se você quiser saber mais sobre isso, tem esse texto aqui. Eu não li inteiro porque queria evitar spoilers, então fica o aviso.

Quero tentar assistir os três filmes em sequência, depois que eu ler o segundo. Acho que vai ser interessante. Gosto das questões levantadas por Blatty, ainda que, às vezes, eu perca um pouco a paciência.

Os livros O Exorcista, A Nona Configuração e Legião de William Peter Blatty podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto digital.


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Me lembro exatamente do momento em que me apaixonei pelo Stephen Graham Jones. Eu já tinha ouvido falar dele antes, em alguns sites, em listas de melhores livros de terror, mas ainda não tinha parado para ler nada dele. Mas certo dia vi o lançamento de My Heart is a Chainsaw, e aí eu tive *aquele* momento em que a gente olha para tudo de forma diferente. 

Na época eu não tava com grana pra comprar o My Heart, mas, por sorte, alguns dos ebooks do Jones não são tão caros, e resolvi comprar um livro de contos dele pra conhecê-lo melhor. Gosto de conhecer alguns autores por contos, quando é possível. Então comprei o The Ones That Got Away. Não terminei de lê-lo até hoje porque ele estava atrapalhando meu sono (sim, com pesadelos). Mas, logo no primeiro conto, "Father, Son, Holy Rabbit", já dá pra ter uma ideia da potência do autor.

Então, quando foi dezembro de 2021, eu li My Heart is a Chainsaw. O livro inteiro gritava "Jéssica, essa é pra você". Aí já era, eu estava completamente encantada e fascinada. Tem uma resenha dele aqui no blog. 

Sempre que eu tenho uma grana ou tem alguma promoção eu compro um livro do Jones. Já tenho, físicos, quatro deles em inglês (dois deles, devo dizer, comprei por menos de R$15,00 cada. Não sei o que tinha dado na Amazon, mas fiquei bem feliz). E mais uns dois ebooks. E, também, a edição em português de The Only Good Indians, Temporada de Caça, que foi lançado aqui ano passado pela DarkSide Books com tradução de Leandro Durazzo.

Pois bem, essa longa introdução do meu trajeto até aqui é só pra comentar que, quando peguei o livro de maior sucesso de Jones eu já tinha um histórico com ele. Não quero me gabar com isso, é só para dizer que eu já tinha uma ideia do que estava por vir.

Mas, se tratando do Stephen Graham Jones e sua escrita, a gente nunca tá realmente preparado.


Em Temporada de Caça, acompanhamos as consequências de um ato terrível de quatro homens no passado, enquanto eles lutam para sobreviver no presente. Alguns fugindo do que fizeram, outros se afogando na bebida, e até mesmo aqueles que realmente tentaram mudar de vida.

Lewis, Ricky, Gabe e Cass cresceram em uma reserva Blackfeet. Nenhum deles ligava muito para as tradições do grupo, com exceção talvez de Cass. No último dia da temporada de caça da região, algo horrendo aconteceu, que deixou marcas profundas na vida de todos — mas, principalmente, na vida de Lewis, que se lembrava do episódio com frequência conforme o aniversário de dez anos do que ficou conhecido por "Clássica Ação de Graças" se aproximava.

Um espírito vingativo começou a perseguir os quatro homens que haviam participado daquela tragédia. E cada um deles é caçado, assim como eles mesmos já haviam caçado antes. Cada um deles seguindo suas vidas têm seus próprios destinos interrompidos quando o ato que fizeram no passado finalmente vem cobrar seu preço.

É só disso que uma pessoa precisa, não? Uma boa amizade. Alguém com quem possa se soltar. Que segure a barra com você quando o resto todo for para o buraco.

Além desses personagens, temos também alguns outros importantes para a trama: Nathan e Denorah, dois jovens da nova geração da reserva; e, claro, o próprio espírito vingativo que persegue o grupo.

Assim como os outros livros do Jones, em sua maioria, acompanhamos personagens ou que residem em uma reserva indígena ou que saíram de lá. Outro elemento constante dos livros de Jones é a violência, truculência e muitas vezes irresponsabilidade da polícia diante de mortes indígenas, ou a constate culpabilização indígena diante de qualquer coisa que dê errado, seja na reserva, seja onde residem. Isso fica muito claro em My Heart, e fica muito claro em Mapping the Interior, e em Temporada de Caça não é diferente. Jones coloca no texto essas tensões que conhecemos bem de alguns noticiários. 

Assim como nos outros livros de Jones, também, não há meias palavras. Tudo é construído de uma forma muito bem articulada, muito crua, e terrivelmente tensa conforme avançamos para o final. 

Temporada de Caça é, acima de tudo, para mim, um livro sobre consequências. Como nossos atos reverberam para além da nossa vida, respingando até mesmo naqueles que estão próximos a nós.

O espírito vingativo utilizado por Jones é uma figura já até conhecido por alguns fãs de terror: a Mulher com Cabeça de Cervo, como foi traduzida, a Elk Head Woman, no original, e a Deer Woman, como também é reconhecida por aí. É uma figura vingativa na mitologia de alguns povos nativos americanos, e já apareceu em algumas outras obras, como no episódio sete da primeira temporada de Masters of Horror (do qual Jones até comenta sobre em seu agradecimento no livro), ou no quadrinho Bosque Profundo, de Carmen Maria Machado e Dani (que entrou nas minhas melhores leituras do ano passado, junto desse livro aqui, inclusive). 

Eu não posso recomendar mais a leitura de Stephen Graham Jones. Para mim, é um dos melhores autores da atualidade. Não só pra mim, claro, porque a enxurrada de prêmios que seus livros ganham anualmente também dizem alguma coisa, como o Bram Stoker Award, o Shirley Jackson Award e o Ray Bradbury Prize. Mas, se você quer uma opinião sincera de alguém apaixonada pelo gênero, eu digo de todo meu coração que Jones é uma aposta potente para trazer uns bons calafrios nas suas leituras.

Temporada de Caça, de Stephen Graham Jones, está disponível em edição física na Amazon* e na Loja Oficial da DarkSide Books. 


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Eu nunca fui uma pessoa da pesca. Quando era criança meu pai até tentou me levar para algumas pescarias, mas nunca rendeu frutos. Eu posso passar cinco horas ou mais na mesma posição lendo, mas passar mais de meia hora sentada, com uma vara na mão, esperando algum peixe desavisado aparecer e tentar se alimentar com a minha isca é demais para mim. 

Não sei se é por deixar o cérebro livre para todos os tipos de pensamento, contemplar o vazio, a espera, a inatividade, mas tudo isso me deixa inapta a praticar a pesca. Quem sabe eu ainda tente algum dia com fones de ouvido, ouvindo algum audiolivro, algum podcast, algo do tipo. Mas, por hora, simplesmente é uma atividade que não está no meu horizonte futuro.

Entretanto, eu cresci entre pescadores. Alguns parentes gostavam muito de pescar, e quando morei na área rural, na infância, e tinha um rio que passava a uma distância razoável de casa (mesmo rio que tentei aprender a pescar), lembro do pessoal que descia o pequeno barranco e ia até lá. 

Apesar de não ser uma atividade para mim, eu sempre fui muito curiosa em relação às atividades das pessoas. O que leva uma pessoa a amar a pescaria? Ficar horas no meio de um rio, parada, esperando? Às vezes embaixo de chuva, às vezes virar a noite? Mais do que gostar, sempre procuro entender. E acho que O Pescador, do John Langan, me deu algumas pistas sobre isso, depois de tantos anos.

O Pescador, escrito por John Langan, ganhador do Bram Stoker de 2016, foi publicado aqui no Brasil pela DarkSide Books, com a tradução de Débora Isidoro. Eu não conhecia o autor e fiquei muito curiosa para lê-lo. 

No livro, Abraham, ou Abe, é um cara comum, mas que desenvolveu um gosto muito forte pela pescaria depois da morte de sua esposa, Marie. Depois que ela faleceu, Abe primeiro caiu em um alcoolismo desenfreado, até se encontrar, de alguma forma, na pescaria. Trabalhando em um escritório durante o dia, Abe ia aos rios da região das Catskills, no estado de Nova York, para pescar um pouco. Depois de alguns anos de seu abismo pessoal, quando a tragédia da perda da esposa também destrói a vida de um dos seus colegas de trabalho, Abe se aproxima do rapaz, chamado Dan, e o leva para pescar com ele.

Algumas coisas conectam esses dois homens: as perdas das famílias, o sentimento de solidão, e o elo formado pela pescaria. Abe conta como era difícil se aproximar de Dan, como ele sentia que o colega tinha sentimentos duros demais com ele, se ressentindo pelo fato da esposa de Dan (e seus dois filhos) terem morrido em um trágico acidente, enquanto Marie, esposa de Abe, faleceu após um período doente — como se Abe tivesse tido o direito de se despedir, enquanto Abe não o teve. E, com essas controvérsias, como a pescaria se tornou a forma perfeita de ambos estarem em companhia, mas estarem sozinhos com eles mesmos; partilhando de um momento, mas sem precisar trocar amenidades.

Nesse momento acho que algo começou a fazer muito sentido para mim, como às vezes precisamos de companhia, mas também precisamos estar sozinhos, e como a pescaria pode ser a escolha perfeita de atividade para se fazer em grupo sem, necessariamente, estar em grupo. Às vezes nos deparamos com uma tristeza tão profunda que não podemos ficar muito tempo sozinhos, mas não queremos, também, conversar com ninguém. A pesca foi a forma que esses dois homens solitários e fechados encontraram para compartilhar um momento de dor enorme que ambos passaram e estavam passando. 


Mas O Pescador Ã© um livro de terror. E tudo isso é somente a primeira das três partes pela qual o livro é composto. Depois de um tempo indo pescar juntos, Dan sugere um local diferente para a pesca daquele fim de semana: um lugar conhecido como Dutchman's Creek. Enquanto estavam se dirigindo para lá e param para tomar café da manhã em um restaurantezinho que eles frequentavam, o dono do lugar conta a eles a estranha lenda que circula o local, a lenda do Pescador, que data de quase um século antes dos acontecimentos do livro, quando a região estava se formando. 

A lenda, contada pelo dono do restaurante, ocupa toda a segunda parte do livro. Nela, descobrimos que o local antes era uma vila, que foi despovoada para ser transformada em represa. Lá vivia um homem muito rico, que acabou se envolvendo com uma figura bastante estranha conhecida como Pescador. As coisas começaram a ficar bastante tensas no vilarejo quando uma mulher que, tecnicamente estava morta, começou a percorrer as ruas e a trazer uma série de infortúnios. Um dos habitantes do lugar, que tinha vindo da Alemanha com sua família após ter caído em desgraça por mexer com o que não devia e ter que recomeçar a vida nos Estados Unidos, acabou tomando para si a tarefa de lidar com o assunto.

Essa segunda parte foi minha favorita. É uma parte fluida, ágil, com capítulos curtos, como uma história em volta da fogueira (que são meus tipos de história de terror favoritas, deve ter a ver com as tardes que eu passava assistindo Are You Afraid of the Dark, quando menor).

"Você pode se perguntar por que estou tomando tanto cuidado. Algumas coisas são tão más que só por estarem perto de você já contaminam, deixam uma nódoa de maldade em sua alma como um caminho árido na floresta, onde nada vai crescer. Você acha que uma história pode transmitir tamanha maldade? Parece expectativa demais, não é?"

A terceira parte narra a pescaria em si. Langan já aponta que algo terrível acontece ali desde seus primeiros capítulos, preparando o leitor para o terror que vem na sequência. Não vou descrever o que acontece exatamente, mas vários momentos dessa terceira parte me deixaram em absoluto estado de "não creio que isso tá acontecendo", e aconteceu. 

Eu adorei a construção da lenda, os paralelos entre as histórias de todos os envolvidos, como tudo parecia se repetir tragicamente. Gostei muito da ambientação, da narrativa, e simplesmente adorei o final. Me surpreendeu muito. Foi um livro que demorei a ler, mais do que demoro normalmente, mas eu culpo o cansaço acumulado, não o livro, que tem uma narrativa instigante e que faz com que a gente queira continuar a leitura. As partes em que o próprio Abe diz que tudo não parece passar de "história de pescador", tamanho o absurdo daquilo que conta, deixa tudo ainda mais incrível e tão próximo de nós. Quem nunca ouviu uma boa história de pescador?

Você não precisa gostar de pesca para curtir a leitura de O Pescador, mas esteja preparado para criaturas estranhas, passagens que podem te tirar o sono e alguns acontecimentos dignos de embrulhar o estômago (Langan conseguiu algumas descrições bem vívidas em alguns momentos).

O Pescador pode ser comprado em formato físico pela Amazon*, na Loja Oficial da DarkSide Books, ou na sua livraria do coração.

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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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