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O que acontece quando um cara entendido de terror se propõe a fazer um filme com diversos elementos e características de casas assombradas, reunidos em um único lugar?

Rose Red é uma minissérie de 2002, escrita por Stephen King e dirigida por Craig R. Baxley. Diferente da maioria esmagadora de outras obras do King, essa aqui não foi adaptada de um livro do autor (não confundir com Rose Madder, que não tem nada a ver com essa história). Rose Red é, na verdade, criada especialmente para as telas. 

Isso tem uma história por trás: dizem por aí que King queria fazer um remake de Desafio do Além, lançado em 1963 e dirigido por Robert Wise, que adapta o livro Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. King é um grande fã de Jackson, então apresentou a ideia para o Spielberg. Ninguém sabe bem o que houve, mas o Spielberg não se interessou muito. Não sabemos se era porque ele estava em outra vibe ou o que aconteceu. O roteiro do King ficou guardado, e três anos depois da Dark Castle surgiu com A Casa Amaldiçoada, dirigido pelo grande Jan de Bont que errou demais a mão nessa farofa.

Aí, em 2002, King apareceu com Rose Red. Na história, a mansão amaldiçoada Rose Red foi construída no centro de Seattle como presente de casamento de John Rimbauer para sua esposa Ellen. Desde cedo a casa era bastante estranha, tudo bem, mas as coisas começaram a piorar com os anos: os homens eram mortos pela casa, e as mulheres desapareciam. Em uma atividade semelhante à da casa Winchester, Ellen começou a construir quartos em Rose Red. Quando Ellen morreu, a casa começou a se construir sozinha.

Muitos anos depois, a professora de psicologia dra. Joyce Reardon (Nancy Travis) reúne um grupo de paranormais para irem até Rose Red. A casa está adormecida, afirma ela, então não há perigo para aqueles que aceitarem ir. Ela promete um pagamento de $5 mil dólares para cada um deles, e ca\da um deles tem um talento especial: Emery Waterman (Matt Ross), um vidente com retrocognição que consegue ver espíritos; Nick Hardaway (Julian Sands), um telepata poderosíssimo; Pam Asbury (Emily Deschanel), que tem habilidades psicométricas e, quando toca em algo, consegue sentir as vibrações e estados pelos quais o objeto ou pessoa passou; Cathy Kramer (Judith Ivey), que tem habilidades de psicografia; e Victor Kandinsky (Kevin Tighe), que tem precognição. O grupo é quase como os Vingadores dos médiuns. 


Mas Joyce está interessada particularmente em uma outra pessoa: Annie Wheaton (Kimberly J. Brown), uma adolescente com poderes que deixa todos os outros médiuns no chinelo. Depois de muito insistir e de oferecer ainda mais dinheiro a ela, sua irmã, Rachel (Melanie Lynskey), aceita levá-la para o experimento em Red Rose.

Além desse grupo no mínimo excêntrico, está também Steven Rimbauer (Matt Keeslar), único herdeiro da família Rimbauer e atual proprietário da mansão Rose Red.

Se você tem algum contato com histórias clássicas de casas assombradas (principalmente aquelas feitas ali pelos anos 1960 e 1970) e/ou com as histórias do Stephen King, você deve imaginar que as coisas aqui não terminam muito bem para uma parte dos envolvidos. Joyce é, na verdade, uma mulher que tem perseguido a fama e quer, a todo custo, volta a fazer sucesso. Os membros de sua comitiva mediúnica são somente peões em seus vontades. E isso fica claro a nós desde muito cedo no filme. 

Mas o ponto alto da trama não está em seus personagens, infelizmente. King consegue criar personagens cativantes sempre, ao mesmo tempo que consegue criar aqueles personagens que a gente tem vontade de dar um chute no traseiro, é verdade (mesmo com todos os tropos que o autor segue em seus personagens, que eu já mencionei no texto de Joyland); mas aqui, em Rose Red, eu acho que o grande e maior triunfo de King é em sua casa assombrada, a própria Rose Red.

Dentre as casas assombradas, a mais assombrada

Uma das coisas que eu mais gosto no Stephen King é a forma como ele conhece o terror, independente que eu concorde com as opiniões dele ou não. Já contei algumas vezes que comecei a ler King com os livros de não ficção dele, e acho que isso pesou demais em delinear minhas coisas favoritas no autor. Então, quando vejo pequenas referências, quando entendo de onde ele tirou suas inspirações e, principalmente, quando ele faz uso e até subverte alguns tropos clássicos do gênero, eu fico encantada.

Talvez por isso Salem's Lot seja meu livro favorito dele. Mas isso é tema pra outro texto. 

O ponto aqui é que o King conhece casas assombradas, e Rose Red é um enorme reflexo disso.


A começar pela ideia de reunir um grupo paranormal e ir até um local assombrado. Durante os anos 1960 e 1970 (alguns anos para mais, alguns para menos), onde alguns dos maiores clássicos do gênero foram feitos, a citar Assombração da Casa da Colina (1959), Hell House (1971) e Golgotha Falls (1984), a parapsicologia estava em alta. Seja pelo envolvimento de Lorraine e Ed Warren em suas peregrinações assombradas pelos Estados Unidos, seja pelos casos de possessão que estavam pipocando mais que nunca em diversos lugares (Enfield, Amityville, o caso de Anneliese Michel e até mesmo o surgimento do livro O Exorcista, que narra uma experiência do final dos anos 1950 mas vê a luz e a popularidade nos anos 1970), o fato é que a parapsicologia ficou um tempo na moda. E, nessa, a literatura e até mesmo o cinema se aproveitaram para colocar grupos liderados por algum parapsicólogo para investigar fenômenos paranormais em locais assombrados.

E, é claro, aí temos a casa. Rose Red é uma força sobrenatural por si mesma. Ela é o amálgama de todas as casas assombradas que Stephen King consumiu avidamente ao longo dos anos e resultado de uma extensa pesquisa, isso é notado facilmente. Cenas que espelham esses romances consagrados que citei, além de referências óbvias como Shirley Jackson mencionada por um dos personagens e a casa Winchester, sempre com novos quartos, só comprovam que Rose Red é quase um parque de diversões para os fãs de terror: ela é o conjunto da obra, a casa assombrada final.


Se Rose Red tivesse tido um pouco mais de investimento, talvez uma mão mais firme na direção, um pouco mais de cuidado na produção e um roteiro mais limpo, ela poderia ser a maior casa assombrada de Stephen King — quiçá competindo diretamente com as maiores casas assombradas do terror.

Rose Red poderia ser ainda mais assustadora que o Overlook.

Para mim, a força de O Iluminado reside principalmente na ligação de Torrance com a bebida, e como isso o transformou em uma pessoa aberta aos horrores do Overlook. Um local assombrado, sim, mas mais ainda para aqueles que eram suscetíveis a ele. Muitas coisas horríveis aconteceram ali, como bem sabemos através do livro, e como, imagino, muitos fãs adorariam saber mais sobre o passado do hotel horripilante. Overlook tem seus fantasmas e é uma construção aterrorizante, com suas vontades próprias. Mas, e apesar de tudo, o Overlook é menos vivo, por assim dizer, do que uma Casa da Colina, ou uma Hell House. 

Diferente de Rose Red. 

Rose Red se constrói e desconstrói a seu bel prazer. Mais fascinante e perigosa (e com mais graduações na arquitetura e construção civil) do que a Casa Winchester, Rose Red se sobressai entre as casas mais perigosas da ficção.


Por que, então, ela falhou tanto em se fixar no imaginário dos fãs?

Infelizmente, pelos motivos citados anteriormente: sendo uma obra criada somente para as telas, eu tenho para mim que o roteiro não ficou da forma como poderia ter sido com as mãos do King em uma narrativa longa, por exemplo. Isso, é claro, é só especulação. Mas sinto que essa casa tinha um potencial absurdo, que ela poderia ser muito mais do que foi. A história da sua criação poderia e deveria ter sido melhor construída, seus fantasmas poderiam ser muito mais aterrorizantes com um carinho a mais pelo roteiro. 

Com a falta (ou mesmo a preguiça de detalhar, talvez) desses personagens base, desse background da história, dos motivos que levaram a casa até ali, a história se torna vazia. Independente do esforço para criar essa mansão assustadora, que pode fazer um milhão de coisas, como construir quartos e sumir pessoas, ela acaba perdendo sua força. 

Rose Red é um filme até chato de achar (mas tem no youtube do Cine Antiqua). Não é ruim, mas não é bom. Fica ali no eterno meio termo do que poderia ter sido, mas não foi. O que é uma pena. Rose Red é uma casa assombrada das mais interessantes, mas duvido que veremos mais dela, com uma melhor construção ou um melhor pano de fundo.


Observação post scriptum: há, sim, um livro sobre Rose Red. O livro se chama The Diary of Ellen Rimbauer: My Life at Rose Red, e foi escrito por Ridley Pearson, utilizando o pseudônimo da doutora Joyce. Houve uma adaptação mais tarde, em 2013. Mas não aumenta muito o lore principal da coisa toda. E, tecnicamente, não é do King, então não sei até que ponto podemos considerar canônico. 

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Sejam todos muito bem-vindos a mais um mês do Desafio do Conforto Literário Fright das 5 às 7, o novo desafio que de desafio não tem nada, porque são só coisas que a gente já lê mesmo. 

Esse mês a categoria foi: Uma história de Stephen King que não tenha sido adaptada como longa metragem. Nesse mês, Michelle e eu pensamos em algo realmente desafiador. Apesar de King ter MUITAS histórias, muitas delas já foram adaptadas em séries e filmes. 

A gente queria algo sem adaptação. A maioria das pessoas que está fazendo esse desafio conosco e nos marcou em suas fotos leram Ascensão. Eu ainda não li, mas depois da enxurrada de gente que leu e nos marcou, vou ser obrigada a colocar nas minhas próximas leituras. A Michelle escolheu Joyland, e vocês podem conferir o texto dela aqui. Eu já falei sobre Joyland também, aqui no blog.

Eu estava meio enjoadinha para leituras esse mês. Minha ideia era talvez pegar Duma Key, ou comprar Depois para ler para o desafio. Mas, ganhei o livro de contos Com Sangue da Dricão (obrigada, amiga), e resolvi ler o conto título da coletânea para o desafio. O livro foi traduzido pela Regiane Winarski. Não li ele inteiro ainda, foquei no conto do desafio porque fiquei com medo de não dar tempo (eu tinha duas semanas ainda, mas sou afobada). Mas devo trazer uma resenha dele completo nas próximas semanas.


Em "Com Sangue", acompanhamos a detetive Holly Gibney em mais uma caçada. No município de Pineborough, na Pensilvânia, um homem entregou uma caixa em uma escola. Tempos depois, a caixa explodiu, deixando várias crianças e professores feridos, alguns mortos. Enquanto estava na Achados e Perdidos, sua empresa de investigação, Holly assistiu à notícia na TV. Algo ali chamou sua atenção: nas duas vezes em que viu o repórter, ele estava com uma minúscula diferença, uma pinta perto da boca, o que fez Holly ficar desconfiada.

Os dias se passam, e Holly não consegue tirar aquilo da cabeça, até que uma ligação a avisa de que ela não está sozinha em suas conspirações. Então Holly parte em busca dessa estranha criatura, tentando evitar que outro atentado aconteça.

Eu ainda não tinha lido nada da Holly Gibney, o que considero uma vergonha. Lembro de uma live que participei com a Regiane certa vez (talvez tenham sido duas até), em que ela comentou que sua personagem favorita do King era a detetive Holly. E eu lembro que fiquei muito empolgada pra ler, mas se você me acompanha há algum tempo sabe que eu sou enrolada, e isso não aconteceu.

Mas aí, quando vi que "Com Sangue" era com a Holly, achei que seria a ocasião perfeita. E foi mesmo. É o maior conto do livro e eu não queria parar de ler. Deus abençoe Stephen King, que costuma me colocar e me tirar de ressacas literárias com a mesma facilidade. Eu adorei, de verdade. Amei o conto. Estou ansiosa para ler tudo da Holly Gibney, incluindo o novo livro do King que será sobre ela. É uma personagem tão humana, tão real, gostei muito da forma dela de analisar as coisas, dessa intuição que não a deixou desistir. Realmente uma baita história, acho que não poderia ter escolhido uma melhor pra esse momento. 

A próxima categoria do desafio, para abril, é um livro de terror brasileiro. Tenho algumas muitas opções aqui, e ainda não escolhi qual vai ser. Mas já estou ansiosa.

Com Sangue, de Stephen King, pode ser comprado na Amazon* em formato físico ou digital. 

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Eu não costumo projetar quando farei determinadas leituras. Já comentei isso algumas vezes aqui no blog, inclusive  quando pensei com a Mi em fazer o desafio literário. Nunca consigo participar de clubes de leitura, nunca consigo decidir com antecedência que leitura fazer no mês (mas tenho tentado, vou até fazer uma lista de possíveis leituras para fevereiro, aguardem). 

Quando decidi ler A Dança da Morte, entretanto, eu tinha claro para mim que queria que essa leitura acontecesse no recesso de final de ano. Eu não costumo ler dois ou três livros ao mesmo tempo, e pelo tamanho desse tijolo eu imaginei que seria melhor o período de férias.

Acho que acabei demorando demais para começá-lo. Na verdade, comecei a lê-lo já no dia do meu aniversário. Acabou que essa leitura se estendeu por um mês e uma semana. Tive até que recorrer a outras leituras, porque tinham dias que eu não tava muito afim de enfrentar toda aquela treta.

Foi uma longa jornada que deixou meu coração (e minha mente) em frangalhos. 

Mas finalmente chegou ao fim. 

E este aqui é o texto da vitória.

Não me levem a mal. Amo livros. Leio bastante. Adoro ler. O problema do livro não é ele ter 1200, 1500 ou 2000 páginas. Se juntar os livros que leio no mês, eu leio mais ou menos isso mesmo. Mas A Dança da Morte é um livro denso. Não é que ele é difícil, mas ele tem muitas personagens, e tudo é terrível, e é um pouco desgastante. O livro não é ruim, longe disso, é um épico cheio de sabores e dissabores. Mas é longo. 

Então, o primeiro aviso que dou para quem quiser se aventurar nesse livro, é: vá preparado. Esteja pronto para mergulhar em 1200 páginas e ter sentimentos avassaladores e confusos. Mas vamos por partes.

A Dança da Morte, livro escrito por Stephen King (li a edição publicada pela Suma, com tradução de Gilson Soares), foi publicado originalmente em 1978, com uma versão expandida em 1990. Já teve duas versões para TV (uma delas com o grande astro do meu coração Rob Lowe) que ainda não assisti, mas estou esperançosa que até o final do ano assisto pelo menos uma delas (kkkk vamo na fé). Na história, uma epidemia (!) de gripe (!!) varreu o mundo (!!!) assassinando cerca de, sei lá, 90% da população. Os personagens do livro, aqueles que sobraram, se dividiram em duas "facções": os que sonharam com o Homem Escuro — Randal Flagg, personagem clássico do lore do Stephen King que aparece também em A Torre Negra e outros — e se dirigiram para Las Vegas, Nevada; e aqueles que sonharam com Mãe Abagail, e se dirigiram para Boulder, no Colorado.


Basicamente, em uma divisão simples, as pessoas "boas" foram para Mãe Abagail, e as pessoas "ruins" foram para Randal Flagg.

No livro, nós acompanhamos desde o momento em que houve uma falha de segurança e esse vírus escapou para o mundo. Levando em consideração que estamos, ainda, enfrentando um vírus bastante assustador que nos deixou em uma pandemia por quase três anos, foi extremamente aterrorizante ler o avanço e as mortes causadas por ele. No caso dessa história, o vírus foi uma criação do governo norte-americano para ser usado como uma arma biológica. 

Agora, uma curiosidade sobre mim: eu odeio esse tipo de coisa, porque eu sinto em mim. É um negócio muito esquisito. No começo do covid eu lia notícias e parecia sentir os sintomas mesmo não estando com sintoma nenhum. Isso se arrasta para outras coisas também. Por exemplo: vejo cenas com insetos em filmes, e sinto que os insetos estão em mim. É horrível. Então passar por essa primeira parte do livro foi um negócio, olha, sem palavras.

Pois bem, é nesse cenário de tragédias que vamos conhecendo os personagens mais importantes. Mãe Abagail surge como um farol em meio às trevas, servindo como aliada de Deus na jornada do povo que sobrou do pós-vírus. Flagg, em contraponto, é o Mal encarnado. Do lado de Mãe Abagail temos Stu Redman, Frannie Goldsmith, Nick Andros, Tom Cullen, Larry Underwood, Glen Bateman, Kojak (o cão), Ralph Brentner, Susie Stern, Lucy Swann e Juíz Farris. Do lado de Flagg, são Lloyd Henreid, O Homem da Lata de Lixo, Nadine Cross e Harold Lauder. Esses dois últimos são um pouco de spoiler, porque eles começam a jornada indo para Boulder, mas acabam indo para Las Vegas, mas não vou contar como e nem o motivo. Flagg também tem alguns outros ajudantes, mas os mais importantes são esses. 

O segundo aviso, que é mais como um conselho, é um que eu sempre dou quando qualquer pessoa me fala que vai ler Stephen King: não se apegue a nenhum NENHUM personagem. Eu repito isso incansavelmente, e continuo não seguindo meus próprios conselhos. Esse livro foi um massacre de favoritos. 

A Dança da Morte é um épico sobre o bem e o mal. Ponto. Mas, por mais que King tenha tentado delimitar exatamente o que é um e o que é o outro, essas fronteiras são muito borradas. Eu diria que mais do que uma história sobre bem e o mal, é uma história sobre as forças que exercem ambos os lados, e quem é forte o suficiente para lidar com cada uma delas. O lado de Boulder, que representa o bem, tem vários defeitos. A própria Mãe Abagail, que é a voz de Deus na Terra, tem lá seus problemas — eu guinchei quando ela disse que o comunismo era coisa do mal. Mas dá pra entender essa batalha que King armou: acima de ter defeitos ou qualidades, o que importa é o que você faz com isso, e como você se defende quando a voz macia da maldade fala no seu ouvido, ou quando a voz da bondade surge como um trovão e te manda fazer sacrifícios impensáveis. 

É um baita livro, não tenho como discordar. Eu me diverti muito lendo, e também fiquei muito nervosa e tive uma série de outros sentimentos complexos no meio do caminho. 

Se eu tivesse que fazer uma crítica, entretanto, nem seria pelo tamanho deste calhamaço que me deixou com dores nas mãos até o momento em que escrevo este texto. Seria, sim, por um problema que o King carrega desde os anos 1970 e até hoje não mudou. Digo até hoje porque ele cometeu algo semelhante em Joyland (que eu escrevi aqui), que é um livro recente. Tom Cullen, um dos meus personagens favoritos do coração, tem algum tipo de deficiência intelectual que não fica clara. E, bom, ele é um tipo de ser especial por causa disso. King usa esse recursos em diversos outros livros e isso é um bocado problemático. O trope, no TV Tropes, está categorizado como "Inspirationally Disadvantaged", algo como "desfavorecido inspirador".  Novamente, eu não questiono a intenção do King. Esse livro foi escrito em 1978. Mas é algo que deve ser pontuado, e que eu vou continuar pontuando.

Mas, fora isso, e apesar de momentos que me irritaram bastante, eu gostei bastante da leitura. Foi longa, fiquei meio injuriada, mas foi ótima também. E fico feliz de ter tirado ele da minha lista de leituras de Stephen King. Já risquei dois dos maiores calhamaços dele. Me sinto pronta para seguir em frente. 

A Dança da Morte, de Stephen King, pode ser comprado na Amazon* em formato físico ou digital. 


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Já contei algumas vezes sobre como comecei a ler Stephen King. Comigo, King foi tipo conhecer o conceito de um sentimento, antes de experimentá-lo: eu conheci seu nome, obras derivadas, antes que pudesse me encaminhar para ler o que ele tinha escrito.

E li primeiro seus livros de não ficção, antes de me aventurar pela ficção. Dança Macabra caiu em minhas mãos quando eu estava dando meus primeiros passos rumo ao terror. Conhecia bem pouco desse mundo, porque eu e o terror demoramos muito para nos conhecermos melhor. Nos tornamos íntimos nos últimos seis anos. Então, eu precisava conversar com alguém que conhecesse de verdade o gênero, para me ajudar nesses primeiros passos.

Desde a primeira página de um livro do King que li eu percebi que era exatamente isso, uma conversa. Stephen King conversa com você como se ele fosse um velho amigo que te conta uma história, cheia de ensinamentos, passagens aterrorizantes, um intenso drama pessoal, ou o que quer que ele esteja querendo te contar naquele momento.

Mesmo com Dança Macabra, onde ele escreve sobre o gênero do terror, parece uma conversa. Era exatamente daquilo que eu precisava.

Ainda na época da monografia, algum tempo depois desse primeiro contato, eu fui atrás de Sobre a Escrita. Porque eu estava iniciando o processo de escrever, e eu precisava novamente daqueles conselhos amigos. Recebi alguns ótimos, que sigo até hoje, já que meu trabalho depende muito da escrita. O livro foi essencial para mim. Ainda hoje é.


Então, quando estava quase defendendo minha monografia sobre vampiros, eu fui atrás do meu primeiro livro de ficção de Stephen King: Salem's Lot, a homenagem de King ao Drácula. Novamente, era aquela mão amiga que estava ali, me contando uma história assustadora dessa vez, sobre meu tema de estudo. Esse se tornou meu livro favorito do King. Já o reli algumas vezes. Escrevi sobre ele para o catálogo da mostra que aconteceu no CCBB em 2019. 

Nos anos que se seguiram, sempre que precisei de um conselho ou de um ombro amigo, quando algo importante se aproximava (mesmo que eu não soubesse), eu pegava um King da estante para ler. Quase instintivo. Não é só a história, nunca é. É como ele conta que resolveu escrevê-la, são os bastidores. É o que o levou até ali. 

Gosto especialmente disso no King. Gosto de saber o making off, o behind the scenes. Gosto de conhecer o processo. Isso é na minha vida no geral: gosto do processo das coisas desde que comecei a estudar história. Quando comecei a trabalhar com terror também me interessei pelos processos. Quando comecei a trabalhar com livros também fui para os bastidores. Com King, não é diferente. Talvez isso explique meu carinho pelas introduções e apresentações de seus livros, onde ele solta um monte de spoilers do que vai acontecer adiante. Isso nunca me importou. O processo é que importa.

Escrevi esse texto hoje só para desejar os parabéns a um dos meus autores favoritos, um daqueles que sempre me distrai, me aconselha, me dá algo novo para pensar. Atualmente estou lendo Saco de Ossos. Como sempre, tem sido uma aventura da melhor espécie. Espero que King ainda viva muitos anos e nos presenteie com muitas obras. Torço para conseguir ler a maior quantidade de livros dele que puder.

Feliz aniversário, Steve.

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Não faz muito tempo que leio Stephen King. Não posso dizer, por exemplo, que leio King desde que nasci. Olhando pelo lado bom, eu ainda tenho MUITOS livros dele para ler. E, como ele lança uns três livros por ano, acho que ainda terei livros do King para ler por muito tempo. 

O último livro dele que li foi Carrie. Acabei essa semana. Li nessa edição nova, da coleção Biblioteca Stephen King, da Editora Suma, com a tradução da Regiane Winarski. Gosto de ir escolhendo meus Kings conforme meu humor. Tenho outros livros dele parados na estante, mas foi esse que me chamou, eu só atendi ao chamado.

Já comentei aqui outras vezes que geralmente, intuitivamente, eu leio King em momentos de necessidade. Quando preciso de um apoio, uma palavra amiga, um ombro, um puxão de orelha. Para mim, King desempenha muito bem todas essas funções, às vezes ao mesmo tempo.

Nesse momento, nessas últimas semanas, estou passando por um processo interessante de descoberta e reflexão sobre mim mesma, sobre o que eu quero fazer dos meus dias, sobre quem eu quero ser quando crescer, essas coisas. Eu não estava contente com essa coisa de criar conteúdo, dessa necessidade de ver as coisas rapidamente e ter que opinar ao mesmo tempo, não estava contente com nada. Sempre adorei os bastidores, então resolvi dar um passo ou dois para trás. Depois de algumas decisões e alguns afastamentos, de definir prioridades e resolver questões internas, eu encontrei um ou dois rumos para seguir adiante. (Se você, leitor, ainda não tinha percebido, esse blog já estava se tornando muito mais pessoal há algum tempo.) 

Calhou de estar lendo Carrie enquanto eu passava por essa fase. Mesmo que nada em Carrie traga esses questionamentos, foi, de certa forma, um bom livro para passar um tempo e refletir um pouco.


A história do livro muitos já conhecem. Carrie era uma garota não muito querida em sua escola, que sofre com a mãe extremamente religiosa. No dia de sua primeira menstruação, que acontece enquanto ela está no banheiro da escola, algo meio adormecido desperta nela. As garotas que estavam no banheiro começam um movimento terrível de tirar sarro em Carrie, que acaba indo pra casa. Sue, uma dessas garotas, acaba se sentindo culpada pelo que fez, e pede que seu namorado, Tommy, acompanhe Carrie ao baile. Mas, claro, nada é tão simples em um livro do Stephen King. Carrie sofre a derradeira pegadinha de Chris, que junto do rapaz com quem estava saindo, arma dois baldes de sangue de porco no palco da celebração. Aí o pesadelo começa de verdade.

O livro tem vários recortes de jornal e partes de livros e estudos sobre os acontecimentos da noite do baile da escola, então sabemos que a noite do baile teve algum acontecimento grande desde o começo, como é bem típico de King. A história vem e vai do futuro ao passado, enquanto acompanhamos o desenrolar dos fatos através da narração e desses outros recortes. Eu gostei muito da forma como o livro foi montado, gosto desse tipo de material. Dá um aspecto real, mas sabendo que não o é.

"Mas quase ninguém descobre que suas ações magoam outras pessoas! As pessoas não se tornam melhores, só mais inteligentes. Quando se fica mais inteligente, você não para de arrancar asas das moscas, só procura motivos melhores para fazer isso. Muita gente diz que tem pena de Carrie White, a maioria garotas, o que é uma piada, mas aposto que nenhuma entende como é ser Carrie White, todos os segundos de todos os dias. E elas não se importam."

A adaptação mais famosa de Carrie foi lançada dois anos após a publicação do livro. Dirigida por Brian de Palma, é um filme muito fiel à história contada no livro, e também é bastante cultuado. Mas esses recortes fazem o livro ter um charme especial. Além do mais, alguns detalhes me fizeram gostar mais do livro. Carrie, por exemplo, tendo plena consciência de seus poderes, e fazendo o que fez sabendo sim o que estava acontecendo. No filme parece um pouco que foi acidente, descontrole. No livro ela perde sim um pouco do controle, mas não dá para se dizer que não foi de caso pensado.


Tem uma cena que gosto mais no filme do que no livro: quando Carrie retorna do baile, e se encontra com sua mãe. Gosto daquele momento no filme, acho ele mais representativo. 

Mesmo assim, as duas obras se complementam muito bem. São duas mídias que conseguem conversar de forma excelente. Como se o filme fosse uma extensão do livro. No filme sabemos o que aconteceu, mas nos livros nós temos todos os detalhes.

Você pode comprar Carrie através da Amazon*, em formato ebook ou livro físico, ou ainda no site da própria Companhia das Letras. A edição está muito bacana, e o trabalho da Regiane de tradução está, como sempre, excelente. Mas, caso você tenha um sebo preferido, você consegue achar edições mais em conta também.

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Já falei algumas vezes como gosto de pegar livros do Stephen King para ler quando estou descompensada com alguma coisa, ou com algum problema mais grave. Por essas e outras que eu não costumo fazer maratonas de leitura dos livros dele ou algo do tipo. Às vezes eu ouço o chamado e simplesmente vou.
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Novamente falando sobre um livro do Stephen King. Esse é o segundo em menos de dois meses, algo bem pouco comum por aqui. Já comentei algumas vezes de como King é, para mim, uma leitura de conforto. Mas não sei exatamente o que houve, que eu precisava tanto de conforto, que acabei lendo Love (com resenha aqui), e pouco depois li Revival, e também assisti umas três adaptações de seus livros na última semana. Aliás, se você tem interesse em acompanhar o que ando assistindo, pode me seguir no letterboxd: capirojesca.
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Ler Stephen King, para mim, é como encontrar o conforto. É como encontrar um velho amigo, que te conta uma história com carinho — que pode nem sempre acabar como esperamos, ou acabar bem. É quase como acordar em um dia frio, tomar uma boa xícara de café e se enrolar em uma manta macia. Ler Stephen King me traz muitos sentimentos, e suas histórias são faróis em diversos momentos para mim. 
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Lançado pela Editora Suma, com tradução de Andréa Costa, Quatro Estações é um livro com quatro contos de Stephen King, separados nas quatro estações do ano. A divisão é a seguinte: Primavera Eterna - "Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank"; Verão da Corrupção - "Aluno Inteligente"; Outono da Inocência - "O Corpo"; e Inverno no Clube - "Método Respiratório".

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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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