Fright Like a Girl

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No sertão do nordeste, algo tem incomodado seus moradores. Histórias assombrosas, capazes de tirar o sono dos mais corajosos, ganham vida nas mãos de Márcio Benjamin em Sina.

Recebi Sina junto com os outros lançamentos incríveis de terror brasileiro da DarkSide Books em outubro do ano passado, e ainda não tive tempo de ler todos. Esse mês, pro Desafio Literário Fright das 5 às 7, cuja categoria era exatamente terror brasileiro, a minha intenção era ler vários títulos juntos e fazer um apanhadão de resenhas neste blog.

Mas a vida prega peças na gente, não é mesmo? Por sorte eu não me prendo a planos, e lerei os outros livros nos próximos meses. Mas resolvi começar com esse aqui.

Já conhecia o trabalho do Márcio de outros carnavais. Na verdade, tenho uma coleção dos livros dele aqui comigo (todos autografados, ok?), que comprei quando começamos a nos seguir no twitter certa vez. Meu primeiro contato com suas histórias foi com Maldito Sertão, e adorei todos os contos ali. Então, quando vi que o Márcio seria publicado pela DarkSide, achei muito legal. 

Em Sina, de Márcio Benjamin, acompanhamos Trancoso, um contador de histórias que, ao passar por uma cidadezinha, quando sua caminhonete chega aos fins de seus dias, acaba pedindo ajuda a um grupo de velhas paradas ali. Não sabendo que essas senhoras eram muito mais poderosas do que aparentavam, Trancoso lhes conta três histórias para que elas deixassem ele entrar na cidade sem maiores problemas.

Ao entrar na cidade, porém, Trancoso é confrontado por cenas de seu passado. Tentando fugir desesperadamente dali, ele acaba percebendo que tem algo muito errado com o local.

Ao longo do livro, que é dividido em pequenas partes, como se fossem contos, vamos descobrindo mais sobre a vida de Trancoso, sobre seus velhos conhecidos e sobre toda a estranha, excêntrica, curiosa e incrível vida que corre por esse sertão abençoado e amaldiçoado de Márcio Benjamin. Histórias que são contadas pelo personagem principal, que ecoam velhas narrativas já conhecidas por quem se interessa por nossas lendas, e até mesmo autores que fizeram história no horror brasileiro antigo.


Algumas das minhas partes favoritas, por exemplo, foram alguns ecos de "Os Porcos", de Júlia Lopes de Almeida, que Márcio Benjamin empregou de forma muito interessante ao longo de Sina. 

Ainda que trate de algumas histórias antigas, como lendas e folclores, Sina ainda tem um quê de atualidade. Benjamin também emprega uma forte crítica a algo que vemos em ascensão no Brasil nos últimos anos, que é a liderança religiosa utilizando a população como massa de manobra para seus próprios interesses, causando muito mais mal do que bem a comunidades que já são carentes de muito, deixando-os também carentes de espírito.

É um livro relativamente curto, gostoso de ler e que eu me diverti imensamente com algumas passagens. Adorei os personagens, as surpresas que o enredo guarda, a mistura do horror com outros gêneros e todos esses pequenos detalhes que acho que Márcio conduziu tão bem. 

Ah! e não menos importante, o livro tem ilustrações do Shiko, que é um artista incrível que faz coisas assim, sem condições. Então a obra toda é bem bacana.

Sina, de Márcio Benjamin, está disponível em edição física na Amazon* e na Loja Oficial da DarkSide Books.

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*Comprando com meus links da Amazon, você dá aquela forcinha sem pagar nada a mais por isso :)
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Para começo de conversa, eu nem sabia se queria trazer essa resenha para cá. Veja bem: não é o tipo de livro sobre o qual eu escrevo, e eu tenho um certo tipo de problema em misturar as coisas que faço. Ao mesmo tempo, não queria ter que abrir um blog para escrever só sobre livros que leio e que não são de terror, ou que não tem elementos insólitos, ou qualquer coisa do tipo. Então fiquei com essa dúvida: o que eu faço?

E resolvi fazer isso mesmo: escrever um pouco sobre minha leitura de Aos Meus Amigos, da Maria Adelaide Amaral. Não é, realmente, um livro de terror, ou de mistério, ou qualquer coisa semelhante. Mas e daí.

Era uma tarde quente de novembro, no ano passado, quando eu estava sem nada para fazer — o que sugere que era um final de semana — quando decidi vasculhar alguns livros que eu tinha estacionados aqui. Minha mãe, em um esforço significativo, comprou para mim a coleção Mulheres na Literatura da Folha de São Paulo. Ela ia todos os domingos à banca de jornal para pegar o volume novo. Tenho a coleção toda aqui, mas confesso que li poucos dos livros.

Então nessa tarde especial em novembro resolvi olhar para essa coleção e escolher um livro curto. Eu acho que estava entre-livros, e estava de saco cheio, e não queria ler absolutamente nada, mas queria desesperadamente ler alguma coisa (é um sentimento muito próprio que deve ter alguma palavra em alemão que o represente). Então encontrei o livro Tarsila, da Maria Adelaide Amaral. É uma peça teatral, sobre a vida de Tarsila do Amaral, seus encontros e desencontros. Não sabia muito sobre a vida da artista, mas o livro é muito instigante: uma narrativa ágil, fluida, com diálogos excelentes, logo eu li o livro inteiro e fui atrás de saber quem era Maria Adelaide Amaral.

Dramaturga, escritora, Maria Adelaide Amaral tem alguns livros publicados, escreveu algumas novelas, mas o que mais me chamou a atenção, naquele momento, foi Aos Meus Amigos, livro publicado em 1992. Maria Adelaide se inspirou na morte do jornalista Décio Bar, seu amigo pessoal, para escrever essa história, que, entre outras coisas, narra os caminhos de um grupo de amigos.


Eu me interesso muito por narrativas com certos dramas pessoais, que nos levam a encarar de frente sentimentos tão feios de pessoas. E Aos Meus Amigos tem um monte desses sentimentos. 

Tudo gira em torno da morte de Leo (o personagem inspirado em Décio Bar), que cometeu suicídio. Ao longo das três partes do livros vamos conhecendo cada um de seus amigos, seus amores, sua vida, a vida dessas pessoas que se encontraram depois de tantos anos sem se ver para celebrar essa pessoa que, antes, fez parte de suas vidas.

Alguns desses amigos são de um grupo da infância, amigos que cresceram juntos; outros, chegaram já mais tarde. Mas todos eles formam um mosaico de personagens muito rico. Publicado em 1992, Adelaide escreve principalmente sobre personagens que fizeram parte dessa intelectualidade cultural brasileira das décadas de 1960, 1970; eram jornalistas, escreviam em revistas, editores, alguns deles foram presos e torturados na ditadura, frequentavam os bares e as reuniões de partidos que iam contra o governo totalitário do período. Tudo isso tem o peso nesses personagens, mas nunca voltamos ao passado: a narrativa é sempre no agora, nos sentimentos de hoje. Apesar de olharem ao passado com certa nostalgia, o grande impacto do livro está, para mim, no que essas pessoas se tornaram. 

Amores perdidos, amizades desfeitas, traições, tristezas guardadas de décadas, muita amargura e situações extremamente delicadas entre essas pessoas são pensadas e repensadas neste livro que, apesar de tudo, tem uma narrativa tão rápida, tão ágil, que faz você engolir aos trancos e barrancos algumas das partes mais danosas. 

Aos Meus Amigos é um livro, para mim, principalmente sobre perdas. Não só a perda de Leo, mas cada personagem ali perdeu alguma coisa importante, mesmo que seja um pedaço deles próprios. 

Sendo um livro publicado em 1992, também, tem algumas partes que hoje a gente pode torcer um pouco o nariz (atento até ao fato do uso do termo homossexualismo que, hoje, já está em desuso há anos, por causa do uso pejorativo do sufixo ismo [minha edição é de 2012, não tenho certeza se há uma edição mais nova no mercado onde isso já foi consertado]; ou mesmo a um dos personagens que gosta de "garotos", com esse sentido mesmo), mas a forma como Aos Meus Amigos constrói essa paisagem dessas pessoas, que cresceram juntas, lutaram juntas por um ideal que já não acreditam mais, e que perderam tanto juntas, é um tipo de documento histórico interessante de analisar. Porque a literatura de certa época é, também, documento histórico. 

Ditadura para mim é um assunto muito doloroso. Nas aulas que tive na escola, nos livros que li, nos documentos, nos filmes, a ditadura (brasileira, argentina, do restante da América Latina) é, para mim, um dos temas mais delicados. Quando soube dessa história escrita pela Maria Adelaide eu tive que lê-la e precisava expor um pouco dos meus sentimentos aqui, dessas pessoas que sobreviveram e que se tornaram o que se tornaram: seus sonhos esquecidos, suas vontades deixadas de lado, até mesmo a forma como olham para a vida. 

Se esse livro tivesse um gosto, seria um gosto extremamente amargo, mas que quando desce pela garganta você consegue sentir um fundinho doce. Gostei muito da leitura porque me deixou com muitos sentimentos mistos: é uma história triste, mas também tem momentos tão humanos, tão profundos, tão doloridos, e outros que te causam uma reflexão tão profunda sobre si mesmo que eu não poderia deixar de prestar atenção nela por um momento. 

Em 2008 a TV Globo adaptou o livro como uma minissérie, exibida em 25 capítulos, intitulad. Infelizmente ainda não assisti porque até agora não encontrei em lugar nenhum, somente alguns box sendo vendidos. Mas pretendo assistir em algum momento. O elenco conta com Dan Stulbach, Denise Fraga, Débora Bloch, Matheus Nachtergaele, Fernanda Montenegro, Aracy Balabanian, Nathália Timberg e tantos outros nomes incríveis. 



E se você se interessa em conhecer mais autoras brasileiras, saiu ontem (05/12) o desafio anual de leitura do Leia Mulheres, e o tema deste ano será Brasil. Cada mês tem um tema, e ao longo dos meses terão dicas de algumas autoras que podem se encaixar em um ou mais temas. Todos os anos eu tento participar, e sempre acabo parando no meio. Mas vou fazer a lista e tentar seguir em 2023 de novo, porque o negócio é tentar. Vou postar minha lista aqui no blog também, pra ajudar a quem está procurando por novas leituras

Aos Meus Amigos, de Maria Adelaide Amaral, pode ser lido tanto em fevereiro, na categoria "um livro que tenha a ditadura como tema", como em novembro, com a categoria "um livro lançado na década de 1990". Participe, não deixe de seguir a página do Leia Mulheres no Instagram (@_leiamulheres) e conhecer autoras brasileiras.


Aos Meus Amigos, de Maria Adelaide Amaral, está disponível para comprar na Amazon*, em formato físico ou em ebook.

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Eu gosto de anotar os livros que leio e, no final do ano, fazer um balanço do que li e do que deixei de ler. Quando fiz a lista de favoritos de 2021 eu percebi que tinha lido poucos livros escritos por brasileiros — e ensaios, e não ficção, e livros de pessoas não brancas — e que era algo que queria melhorar esse ano. Acabou que não aconteceu exatamente da forma que eu queria, tudo bem, vou manter essas leituras para 2023. Mas uma coisa que consegui, sim, fazer, foi ler mais livros que estavam parados aqui na minha estante ou no meu kindle.

Isso foi ótimo, na verdade. Encontrei alguns bons livros que ainda não li e, dos que eu tinha certeza que não iria ler, doei vários para a biblioteca pública aqui da cidade.

Quando fui escolher minhas leituras, prestei atenção nos livros que comprei e que me deixaram numa baita vontade de ler e que, por um motivo ou outro, acabei adiando. Quando viajei esses dias atrás para Ribeirão Preto, eu pensei "está na hora de desbravar Antares com Erico Verissimo", e assim começou minha saga ao lado dos Campolargos, dos Vacarianos, e de todos os personagens excêntricos e tão, tão humanos que fazem parte da vida social de Antares.

Eu nunca tinha lido nada do Verissimo antes e isso só completa a lista de todos os livros que quero ler e que ainda não li, autores que quero conhecer e não conheci, clássicos que eu inclusive tenho e ainda não me aventurei. Mas, levando em consideração meu gosto e minha personalidade, achei que seria perfeito começar com esse livro. Eu sabia o básico do básico: certo dia, mortos de Antares se levantam de seus caixões e aterrorizam a cidade. Mas todo o resto foi uma completa surpresa pra mim, e foi uma grata surpresa.

Na primeira parte, denominada "Antares", conhecemos a história da cidadezinha desde que foi fundada até o momento em que a crise dos defuntos se deu. Através de um narrador que nos conta, com a ajuda de diários e afins, todos os pormenores da localidade, vamos descobrindo uma teia complexa de afinidades e desafetos sociais, até mesmo pequenos delitos e grandes crimes que ocorreram por ali. Tudo começa com o mais velho Vacariano daquelas paragens, que era um homem de muitos dotes, muitas riquezas. Certo dia, chegou um naturalista francês no pequeno rancho de Francisco Vacariano, e lhe contou sobre a estrela de Antares. Velho Chico achou bonito, achou que o nome parecia ter a ver com antas, e acabou utilizando o nome de Antares para a cidadezinha que começou a crescer por ali.

Por muitos anos Vacariano reinou soberano no lugar, até chegar o primeiro Campolargo e ambos se tornarem inimigos jurados. Foram 70 anos de agruras. Acompanhar a narração da treta dos dois é simplesmente uma das partes mais divertidas do livro. E quem deteve que isso virasse (mais) morte, já depois de 70 anos de brigas, quando quem reinava nas famílias era Xisto e Benjamin, foi Getúlio Vargas, que obrigou a ambos a fazerem as pazes.

Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram são designados pelos seus nomes verdadeiros.

Acho que isso foi uma das coisas mais divertidas pra mim. Ao longo do livro, Verissimo utiliza diversas passagens histórias para falar sobre o que havia em Antares. E o mais louco é que a população de Antares poderia ter saído de um jornal atual. É um pouco assustador perceber que os medos de hoje são tão parecidos com os medos (absurdos, posso dizer) do passado. Dizem por aí que a história é cíclica, mas lendo Incidente em Antares hoje, depois de todos os absurdos que presenciamos nestes últimos seis anos de (des)governo, eu diria é que não soubemos lidar com nossos fantasmas — ou, como no caso da cidade, com nossos mortos.

E não sabemos mesmo. Desde que o Brasil é Brasil há um medo, que eu acho que foi implantado no cérebro de algumas pessoas fracas e de mente frágil, que o país está a um passo de se tornar um país comunista (e, sinceramente, isso não poderia estar mais longe da verdade). Isso permeia Antares, e permeia o Brasil até hoje. Verissimo escreve sobre o assunto usando o sarcasmo e o cinismo, e encontramos razão na voz de Padre Pedro-Paulo, padre chamado de "comunista" pela "elite" antarense, mas as similaridades entre lá e agora são preocupantes e aterradoras (apesar de, claro, até cômicas).

Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justiça social.

Pois, voltando ao livro. A vida política do Brasil foi extremamente importante para Antares e isso fica bem claro ao longo da narrativa.

A segunda parte, já, intitulada como "O Incidente", culmina, bom, com o incidente. O ano é 1963. Ebulição política no cenário nacional. A elite brasileira (tonta, desde sempre) e algumas caças apaixonadas pelo caçador pedem a intervenção militar nacional. Por outro lado, os trabalhadores também não estão nada felizes com a situação em que estão vivendo.

Há uma greve acontecendo em Antares. Todos os trabalhadores de todas as indústrias e afins da cidade pararam. A cidade não tem energia, e diversos outros serviços estão parados. Apesar das discussões, não se chega a uma resolução com os gerentes das empresas. Em uma quinta-feira 12 de dezembro daquele ano, algo estranho acontece: sete pessoas de Antares morrem — entre eles, a atual matriarca dos Campolargos, Quitéria. Os trabalhadores de Antares, que se juntaram para protestar se uniram também aos coveiros da cidade e decidiram em pronto: ninguém enterra seus mortos na cidade. Há cerca de 400 protestantes em frente ao cemitério, e de lá ninguém passa. 

O problema começa de verdade quando estes mortos acordam e se levantam de seus caixões, exigindo serem sepultados como mandam os rituais. Se eles não forem atendidos, se sentarão no coreto da praça e apodrecerão lá.



Isso nem poderia ser tão ruim, vá. O problema é que um dos mortos, o advogado Cícero Branco, decide expor todas as hipocrisias, crimes, idiossincrasias e pormenores da vida política, pessoal e social da cidade. Acompanhado dele estão os outros mortos, que conhecem bem demais as atrocidades e crueldades do local. 

E é aí que a coisa pega. E é aí que o negócio esquenta. Porque é essa exposição, é a hipocrisia dessa gente do fim do mundo de Antares, que escancara uma realidade do Brasil que é muito difícil de engolir: as pessoas são assim. Elas sabem da truculência policial, elas sabem da corrupção de certos empresários, e sabem também que há algo de muito errado na estrutura social brasileira que vem desde muito cedo, que faz com que a marginalização de grupos específicos seja feita a olhos vistos, e eles simplesmente não se importam. 

Abaixo, vou deixar um trecho do discurso de Cícero Branco, e vocês podem linkar com conhecidos de vocês.

Todos sabem que o Coronel Tibério é o presidente de honra dos Legionários da Cruz, cujo lema é Deus, Pátria, Família e Propriedade. Ora, as relações de nosso furibundo pró-homem com Deus são só de cumprimento, de longe, apenas um toque de dedo na aba do chapéu. O velho Vacariano não reza, não vai à missa e nem se confessa, e durante toda a sua gloriosa existência teve incontáveis oportunidades de transgredir os dez mandamentos. Pátria? A flor dos Vacarianos ama tanto a sua, que tem passado a vida a lesar os cofres públicos e a mamar nas tetas desta pobre República. Ah, mas com a família o caso é diferente! O Coronel Tibério preza tanto essa instituição, que em vez de uma mulher tem duas: a legítima, que vive no palacete que vemos ali na esquina, e a ilegítima, instalada numa outra casa e numa outra rua. Agora, acima de Deus, acima da Pátria, acima da Família, o nosso Tibério, imperador de Antares, adora a Propriedade, e é capaz de matar e até de arriscar-se a morrer para defender as suas propriedades, aumentando-as à custa da propriedade alheia. Daí o seu sagrado horror a qualquer mudança do presente status quo político, econômico e social que tanto lhe convém.

Extremamente cirúrgico, né? Escrito em 1971, Incidente em Antares foi publicado em plena Ditadura Militar que também é criticada por Verissimo. 

Agora, uma observação. A minha edição é de 1975, da antiga Círculo do Livro. De princípio, a linguagem que já caiu em desuso de diversos pontos do texto me chamou muito a atenção, e não sei como está em edições mais novas. O fato de serem falas vindas destes personagens da qual o autor chama tanto a atenção ao expor seus crimes, também há de se levar em consideração. Por isso, vários amigos que me perguntaram o que eu estava achando da leitura disse que isso tinha sido um ponto para mim, mas até aí também não posso dizer tanto sobre isso porque, como disse, minha edição é de 1975.

Acho que foi uma excelente leitura em um momento muito propício. Acompanhar as notícias de bloqueios nas estradas enquanto lia sobre as desventuras do povo antarense que, sem dúvida, seriam patriotas no para-choque de caminhões por aí, me fez refletir muito. Será que um dia vamos transpor essa barreira da necessidade da sociedade brasileira de manter esse abismo entre uma justiça social, algo que é bom para a população no geral, para que só uns poucos possam ter a possibilidade de viver dignamente com muito mais do que precisam, enquanto milhares passam necessidade todos os dias? 

Eu não sei. Incidente em Antares não me respondeu isso. Mas, de certa forma, me deu muito o que pensar, e me acalentou um pouco, também. O que nossos mortos diriam se eles se levantassem qualquer dia? Será que estamos vivendo de acordo? Tomara que sim. 

Em 1994 foi lançada uma minissérie que adapta o livro de Verissimo. Originalmente com 12 capítulos, ela também entrou naquela lista de minisséries que foram editadas em filmes e que estão disponíveis na GloboPlay. O elenco conta com Fernanda Montenegro, Paulo Betti, Diogo Vilela, Gianfrancesco Guarnieri, Marília Pera, e outros grandes nomes. Assisti ao filme, que ficou com duas horas de duração, e apesar de alguns cortes bruscos eu gostei bastante da adaptação. Não sei se gostei da resolução, que é pouco diferente da original, mas no geral é um bom filme. Menos cômico e menos crítico do que o livro, mas é um bom complemente da obra original. 


Incidente em Antares, de Erico Verissimo, pode ser comprado na Amazon*, em formato físico ou em formato digital. Mas há diversas outras edições por aí, e pode ser facilmente encontrado em sebos também. 

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Final do ano passado, quando fui rever minha lista de leitura para escolher os favoritos do ano, eu percebi que tinha lido poucos autores brasileiros, poucos autores não brancos e poucos livros de ensaios e afins. Foi algo que eu quis mudar imediatamente, então logo me vi tentando selecionar livros aqui da minha estante (física e do kindle) que pudessem me ajudar nessa tarefa — estou em uma intensa contenção de gastos por aqui (e se quiserem ajudar, comprem pelo meu link de afiliada da amazon, que já é um super apoio).
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Eu tenho um grande amor por ficção infanto juvenil e jovem adulta, que sejam descontraídos e que saibam construir tensões a partir de convenções de gêneros e estilos que estamos acostumados, mas que também conseguem subvertê-las tão bem, exatamente porque as conhecem. Atualmente, no Brasil, tem se produzido uma série dessas histórias. Autores como Felipe Castilho, Eric Novello e Jim Anotsu tem feito um trabalho interessantíssimo dentro da ficção especulativa, com histórias muito bem encaminhadas e deliciosas de ler. 
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Por vezes pegamos alguns livros que nos estapeiam com a realidade. Realidade que, muitas vezes, até conhecemos, mas que ou decidimos ignorar ou fogem de nossa mente e dificilmente pensamos nelas. Ignoramos muitas vezes as histórias de pessoas que, sem elas, não teríamos serviços básicos; ou, ainda, ignoramos as histórias de pessoas que simplesmente existem e empurramos para longe de nossa mente. 
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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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