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Anatomia de um julgamento, Janet Malcolm e hábitos de leitura

by - março 21, 2025



Certo dia, estava vagando pela Amazon, tentando decidir minha próxima leitura. Tenho optado por livros curtos. Desde que comecei a trabalhar efetivamente com livros, meu hábito de leitura tem se transformado constantemente. Não apenas o hábito, mas a forma e a relação que tenho com a leitura também.

Sou historiadora não praticante e revisora por profissão, e desenvolvi minha relação com o ato de ler desde muito cedo. Depois de todos esses anos, sinto que somos velhas amigas, as palavras e eu, e que tenho o mínimo de experiência necessária para falar sobre o assunto "ler". Li por lazer, li nos meus estudos, li por profissão, sigo lendo constantemente o que se coloque na minha frente — das placas nas ruas até as embalagens que ficam no banheiro. 

Desde que comecei a trabalhar, mesmo, como revisora, entretanto, percebi que nossa relação se alterou. De início ficou bem abalada, eu não queria saber se ler quando chegava ao final do dia. Depois, entendi que eu estava esperando algo dela que não me servia mais. Eu precisava trocar de expectativa. Eu não poderia competir com a Jéssica mais nova e com mais tempo, que lia de seis a dez livros por mês, que escrevia resenhas todas as semanas, que dava dicas de livros por aí. Essa Jéssica precisava se aposentar. A Jéssica que simplesmente curte ler, sem se cobrar, precisava entrar em ação.

Não me levem a mal, quando eu resenhava livros com constância eu amava ler e me divertia muito também. Também era uma leitura por prazer, mas era diferente. 

Então eu descobri que para manter essa relação eu precisava mudar meus hábitos e mudar minhas expectativas e mudar, também, minhas ações. Precisava me ouvir mais. O que, exatamente, eu quero ler nesse momento? O que vai me tirar o fôlego, me fazer virar as páginas? Descobri, recentemente, que em épocas de muito trabalho, não tem como, os livros curtos vão ser meus melhores aliados nessa tarefa. 

Comecei nessas escolhas com A Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói (trad. Lucas Simone, ed. Antofágica), e percebi que fluía muito bem. Então resolvi me aventurar pela não ficção, depois dele, porque tem sido uma das coisas que mais tem prendido minha atenção atualmente. A busca foi breve. 

Meses atrás li A Sangue Frio, do Truman Capote (trad. Sergio Flaksman), que faz parte da Coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras. Gosto de true crime e trabalho bastante com isso, então a leitura de A Sangue Frio me prendeu muito. Eu decidi percorrer os livros da Coleção e descobrir o que mais havia ali. Me deparei com a obra da Janet Malcolm. Eu já havia comprado A Mulher Calada, mas ainda não o li, porque tenho lido mais no kindle graças à sua luz embutida. O mais comum seria que eu começasse pelo livro mais conhecido e controverso dela, O Jornalista e o Assassino, mas comecei por Anatomia de um Julgamento (trad. Pedro Maia Soares).

Foi uma escolha muito acertada.

"A estranheza de Borukhova é sua característica definidora"

No livro, acompanhamos o julgamento de uma mulher chamada Mazoltuv Borukhova, acusada de estar envolvida na morte de seu ex-marido. Ambos judeus bucaranos, ambos imigrantes, ambos com uma condição econômica acima da realidade de muitos, uma classe média alta. O julgamento se desdobra com a condenação de Borukhova, e isso, em si, não é surpreendente. Conforme acompanhamos as jogadas da acusação e da defesa, fica bastante claro que a mulher será condenada.

O que nos interessa (e assombra, no meu caso) é a narrativa que Malcolm tece sobre esse julgamento. Com as transcrições do processo em mãos, indo ao tribunal e acompanhando em primeira mão o desenrolar dos fatos, Janet Malcolm destrincha diversos problemas na forma como esse julgamento foi conduzido, trazendo à luz os problemas da acusação, da defesa, do júri, do juiz, do sistema e dos jornalistas. Todos tiveram sua parcela ali. 

A questão, ao longo do livro, não é bem se Borukhova era culpada ou não, mas sim como o julgamento se precedeu. De um lado, a defesa tentava pintá-la como uma mulher respeitável, que havia construído sua vida nos Estados Unidos como médica; do outro, a acusação se recusando a chamá-la de doutora, pintando-a como uma megera; e ainda juiz e júri pendendo para o lado da acusação descaradamente, desde o princípio, colocando em prova um direito que deveria ter sido mantido, que a ré era inocente até prova em contrário (as provas eram circunstanciais).




Borukhova e seu ex-marido tinham uma filha, que se tornou um outro joguete de poder nas mãos desse sistema. Além de mulher fria e estranha, exótica e pouco respeitável, também quiseram taxá-la como uma mãe ruim. A mulher havia entrado diversas vezes com medidas protetivas e alertado às autoridades que seu marido tinha atitudes impróprias com a filha, e nunca foi levada a sério. Nesse ponto, o julgamento se assemelha perigosamente ao caso dos irmãos Menéndez. Porque o morto não estava presente para se defender, deixaram passar acusações graves que poderiam alterar para sempre os rumos das vidas envolvidas na questão.

No final, como bem diz Malcolm, "Ela se torna aquela que você imagina que ela é. O promotor levou os jurados a imaginá-la como uma pessoa totalmente má. O advogado de defesa não teve sucesso em substituir isso por uma caracterização diferente".

"Há uma espécie de buraco no centro do livro"

Malcolm não conseguiu entrevistar Borukhova. Presa desde o começo do julgamento, com visitas supervisionadas mensais de sua filha, Borukhova não falou sobre sua situação com Malcolm até o lançamento do livro, e não sei se falou depois. E não sei se era esse o ponto que importava.

Há mesmo, porém, um buraco na narrativa. Acompanhamos Borukhova pelos olhos de todos, menos por si mesma. Apesar de testemunhar em seu próprio julgamento, e apesar de muitos falarem sobre ela, vislumbramos apenas a sombra, a carapaça, da mulher que foi acusada de um conluio para matar seu marido. 

Nesse ponto, Borukhova me lembrou Rebecca. Ao longo do livro de Daphne du Maurier, vamos formando a imagem de Rebecca através dos personagens envolvidos na trama, mas a mulher já morreu. Não sabemos sua história, e todos os personagens são parciais em suas opiniões. Borukhova também me lembrou Bertha, que ao longo de Jane Eyre é apenas um ruído no sótão, e termina sua participação como uma incendiária — dela, mesmo, não ouvimos sequer uma palavra.

A literatura, seja ela qual for, e até mesmo a vida, afinal, é isso. Jamais vamos saber todas as partes de um todo. Qual narrador pode ser considerado confiável? Que histórias nós, quando vamos contar uma história, queremos contar?

As palavras são uma coisa impressionante, ricas e perigosas em igual medida. Ler é realmente um dos melhores passatempos que podemos ter. E acho que no final a questão é apenas essa: compreender como esse hábito pode ser transformador, como pode ser um abrigo e também um descampado enorme no meio de uma tempestade — em ambos os casos trazendo coisas boas. Fiquei feliz em reencontrar minha velha amiga, a leitura, sair pra tomar café e até mesmo escrever um texto sobre um livro, assim, depois de tanto tempo. 

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