Fright Like a Girl

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Lendo textos e ensaios e livros sobre a história do terror (na literatura e no cinema), é impossível, praticamente, não encontrar menções ao livro Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson. Considerado um dos grandes clássicos do gênero do século XX, o livro inspirou uma série de outros autores e de tendências nos anos após seu lançamento. 

Quando tive que escolher um livro apocalíptico para o Desafio Fright das 5 às 7 de junho, eu logo pensei nele. Como vocês, fiéis seguidores, podem ter percebido, tenho escrito pouco aqui, porque, na verdade, tenho lido pouco. Tenho dormido mais cedo e lido menos, então pensei em escolher um livro que já estava há muitos anos na minha lista de leitura e que ainda não tinha tido a oportunidade.

Eu sou a Lenda (li na edição da Aleph, com tradução de Delfin) conta a história de Robert Neville, um homem que se vê sobrevivendo sozinho em um mundo assolado por uma praga que transformou a todos em mortos-vivos vampiros. Ao longo do livro, através da narração em terceira pessoa, descobrimos aos poucos o que aconteceu com o mundo que o fez chegar a esse ponto, como são esses vampiros, quais são suas características especiais e o que faz deles uma ameaça tão potente. 

Neville era um cara que tinha esposa, tinha uma filhinha, e tudo lhe foi tomado por essa terrível realidade que se abateu sobre ele. Nós acompanhamos o dia a dia de um homem alquebrado, mas espantosamente são (apesar de seus momentos de devaneios e raiva), visto que por muito menos outros teriam perdido completamente a cabeça (eu teria).


A narrativa de Eu Sou a Lenda também não pega leve com Neville. Ele não é exatamente um cara legal, ótimo, boa pinta. Ele é um cara que tem seus defeitos (e vários) e isso fica muito claro pela forma como ele pensa nas mulheres e seu instinto sexual diante de estar sozinho no mundo, na forma como ele lida com determinadas situações, na forma como ele se sente quando está completamente sozinho e afunda a cara na bebida. 

Se isso é bom ou ruim, aí vai do leitor. Mas é interessante ver como isso é colocado ao longo da história. Para mim, o fato de ele ser um cara extremamente humano diante de uma situação tão catastrófica e essas sensações extremamente humanas dele serem expostas da forma que estão conforme avançamos no livro deixa as coisas ainda mais críveis.

Em um mundo de horror monótono, não podia haver salvação, nem nos sonhos mais loucos. Ao horror, ele se ajustou.

Um dos pontos altos do livro de Matheson, para mim, foi o desespero que emana repetidamente dessas páginas. O começo é morno, mas conforme avançamos em direção ao final nosso próprio desânimo enquanto leitores, pessoas que acompanham essa história, aumenta junto ao do personagem. Há uma situação mais ou menos no meio do livro que leva esse sentimento doloroso ao ápice para que, no final, a gente solte um suspiro pesado de terror que ficou entalado na garganta desde aquele momento.

É bacana acompanhar essa derrocada. É uma descida ladeira abaixo com uma sensação de vazio constante que preenche a gente. É, um vazio que preenche, sim. A gente fica meio desacreditado, mas completamente ciente daquilo tudo. E uma coisa que o Matheson coloca ao longo da narrativa, mais de uma vez aliás, é essa capacidade do ser humano de se adaptar a quase qualquer coisa, por pior que seja. 

É bastante deprimente, sim, mas muito crível. Não crível do tipo "meu deus, os vampiros vão dominar o mundo". Mas crível do tipo "caramba, os seres humanos podem sim ser, e sempre que tiverem a chance serão, horríveis".

Não quero dar spoilers, mas também preciso mencionar que adorei a forma como ele quis lidar com a tradição dos vampiros. Nessa realidade de Eu Sou a Lenda, as histórias de vampiros existem. Ele cita Drácula e alguns outros, e essas histórias chegam a auxiliar nosso protagonista a entender o que pode estar acontecendo. Mas, na verdade, é tudo extremamente científico. É um toque bem bacana.

Conforme os anos se passam eu fico mais interessada de ler algumas dessas histórias. Talvez, se eu tivesse lido esse livro há alguns anos, eu não teria gostado dele tanto quanto gostei hoje. Então acho que meu instinto de dar tempo ao tempo tem sido muito útil para mim.

Ainda não assisti o filme com o Will Smith de 2007. Na verdade, só vi a adaptação com o Vincent Price. Queria ter assistido ambas antes de fazer o texto, mas não tive tempo (passei meu final de semana inteiro assistindo Terrifier), então esse complemento vai ter que ficar para outra hora. Mas foi uma leitura que eu gostei bastante de fazer, e finalmente posso tirar esse livro da minha lista de leitura.

Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, está disponível na Amazon* em formato físico ou ebook.



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Eu acho sempre muito engraçado ver a reação das pessoas quando digo que meu Pânico favorito é o terceiro. Tenho plena consciência que, na maioria das vezes, meu filmes favoritos não são os favoritos da crítica ou melhores filmes, sei bem disso, mas é divertido porque as pessoas me olham com aquela cara de "meu deus, eca", como se eu tivesse, sei lá, lambido um corrimão.

Eu tenho um motivo muito simples e razoável (na minha cabeça) de ter Pânico 3 como favorito na franquia: eu amo ver o que a Sidney se tornou naquele momento. Pânico 3, pra mim, foi um dos primeiros filmes que eu vi a reação do que acontece depois do slasher, e do que a final girl resolve fazer depois de ter passado pelo trauma. Eu não levo o 2 tão em consideração porque ela ainda estava na faculdade, mas vejo Pânico 3 como uma Sidney mais madura, vivendo sozinha com seu cachorro, em sua casa afastada da cidade extremamente segura, ajudando outras vítimas de trauma a lidarem com o que passaram.

Veja bem, eu não acho que vítimas de traumas devem seguir pelo resto de suas vidas se dedicando a outras pessoas, as ajudando ou coisa do tipo. Mas eu vi aquela cena e algo tão profundo em mim aconteceu. Eu vi um caminho tão possível, algo tão bonito nesse destino. Sidney se encontra com o Ghostface várias vezes depois. Mas ali, naquele momento, eu vi uma heroína em quem eu queria me espelhar e queria pensar mais sobre ela.

Depois, claro, eu vi que a Sidney não era a única que havia trilhado outros caminhos em seus dias pós-slasher. E isso começou a me chamar atenção: o que essas final girls fazem depois que elas se encontram com seus vilões e "vencem"? Tirando o fato de que quando as vemos de novo elas acabam se encontrando novamente com seus assassinos mascarados, comecei a pensar sobre essas personagens, o que há para elas depois desse momento?

Pude pensar nisso melhor conforme fui assistindo a outras franquias de slasher mais tradicionais. Em A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos, Nancy aparece em um papel muito semelhante ao que Sidney faria 13 anos depois: ela quer ajudar jovens que estão passando pelo mesmo que ela. No caso de Nancy, entretanto, ela ajuda isso efetivamente tentando combater Freddy Krueger. 

Duas franquias menos regulares e que tiveram reboots mais significativos, como Halloween e O Massacre da Serra Elétrica, mudaram o destino de suas final girls originais algumas vezes. Laurie Strode, por exemplo, foi irmã de Michael em uma delas, tendo uma filha e morrendo em seguida. Em outra, fugindo para se proteger, também acaba tendo um filho e se torna diretora de um colégio, onde é forçada a lutar contra Michael de novo. No remake de Rob Zombie, Laurie é novamente irmã de Michael, mas a história do remake termina antes de sabermos o que ela fará a seguir. A mais interessante de certa forma, para mim, é na trilogia recente, quando Laurie se torna ciente da possibilidade de Michael Myers retornar. Seu interesse não é exatamente proteger alguém em específico, mas deter Michael Myers. Já Sally Hardesty, que teve um destino um pouco triste em sua franquia original — primeiro em estado catatônico em O Massacre da Serra Elétrica 2, e depois com o anúncio de que havia morrido, em Leatherface - O Massacre da Serra Elétrica 3 — acaba recebendo um destino semelhante ao de Laurie em O Massacre da Serra Elétrica de 2022, onde se prepara para uma vingança contra seu vilão. 

Cada um lida com o luto de forma diferente, assim como lida com o trauma de forma diferente, e ver essas final girls, com seus destinos, me fez pensar. Não sendo ingênua de não pensar também, claro, que essas personagens foram chamadas de volta para suas franquias porque fizeram sucesso e os fãs queriam ver mais delas. Mas para além disso: o que há depois do seu próprio slasher?

Recentemente eu li The Final Girl Support Group, do Grady Hendrix, que levanta, na forma de ficção, questionamentos parecidos com os meus: usando analogias de final girls famosas, Hendrix meio que cria uma variedade interessante de personagens que estão lidando com seus pós-slasher cada uma de sua própria forma.


Nossa protagonista é Lynnette [sua história é um aceno à Denise, de Natal Sangrento (1984), interpretada por Linnea Quigley], que frequenta o grupo de apoio emocional às final girls há um tempo. Nós também temos Marilyn [baseada na Sally de Marilyn Burns, em O Massacre da Serra Elétrica (1974)]; Dani [baseada na Laurie de Jamie Lee Curtis, de Halloween (1978)]; Julia [baseada na Sidney de Neve Campbell, de Pânico (1996)]; Heather [baseada na Nancy de Heather Langenkamp, em A Hora do Pesadelo (1984)] e Adrienne [baseada na Alice de Adrienne King, em Sexta-Feira 13 (1980)]. Essas inspirações ficam bem claras nas histórias das personagens, mesmo que não tanto em suas personalidades. E, também, a psicóloga que acompanha as personagens, a dra. Carol [que faz referência a Carol J. Clover, que escreveu o livro Men, Women and Chain Saws].

No livro, Lynnette está desconfiada, depois da notícia de que Adrienne foi morta no acampamento para vítimas de traumas que ela comanda afastado da cidade, de que há alguém querendo dar cabo das final girls. Em uma trama cheia de possibilidade de quem poderia estar por trás disso, vamos tendo alguns vislumbres dessas personagens quebradas, cheias de problemas, que resolveram lidar com seus traumas da forma que elas encontraram.

Não vou dizer que concordo com a forma que Hendrix escolheu para lidar com algumas das personagens, até porque não é essa minha intenção aqui. Mas gosto muito dessa abordagem: e o depois? O que acontece com essas personagens depois que elas enfrentaram seus monstros, viram seus amigos morrerem, tiveram que lutar por sua sobrevivência? O que acontece com as final girls depois que o filme acaba e a TV é desligada? 

A gente sabe bem que um filme se encerra em si. Às vezes, é aquilo mesmo, e quando ele acaba ele deixa o espectador com seus questionamentos sozinho (ou sem questionamentos, tudo bem também). Mas imaginar o depois desse tipo de terror indescritível me acompanha muito quando penso em slashers e final girls. Talvez por isso esse tipo de filme, essas sequências que contam com as mesmas personagens seguindo suas vidas, e encontrando novamente seus terrores (ou mesmo novos terrores) me chame tanta atenção. Gosto de saber o que aconteceu com elas. 

The Final Girl Support Group valeu para mim dessa forma: como parte de um exercício que sempre fiz e sempre faço, nessa tentativa de ver os autores demonstrando como essas personagens lidam com o trauma. As final girls, apesar de não terem sido criadas com esse propósito, tecnicamente, acabaram se tornando um tipo de símbolo para algumas mulheres, principalmente as fãs de horror, de força e de coragem. Elas se transformaram ao longo dos anos, e os filmes mais recentes, que trazem essas personagens de volta à vida, acompanharam as mudanças do que é ser uma final girls. O livro tem seus altos e baixos, mas é uma leitura interessante para quem gosta desse tema, e para quem também gostaria de ver mais do que pode existir depois do slasher.

The Final Girl Support Group, de Grady Hendrix, ainda não tem tradução para o português; mas sua versão em inglês está disponível na Amazon,* em edição física ou em ebook.


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A Silvia Moreno-Garcia é uma das grandes autoras da atualidade quando falamos de horror e assuntos afins, e tem feito um sucesso considerável entre os fãs de histórias de mistério. Seu primeiro livro publicado em português, Gótico Mexicano, conta a história sobre uma jovem que viaja ao interior do México, para resgatar uma prima que está em um relacionamento fadado ao fracasso. 

É uma leitura tensa e cheia de características sobrenaturais e estranhas que torna a leitura um prato cheio. O repertório de Moreno-Garcia, quando falamos de terror, é excelente. Além disso, as origens latinas da autora aparecem em suas histórias e isso deixa tudo mais interessante. 

Este ano, a Editora Melhoramentos trouxe a tradução de um dos livros mais recentes de Moreno-Garcia, A Filha do Doutor Moreau (com tradução de Bruna Miranda) e carinhosamente me enviou o livro para resenha. Fiquei muito feliz com o envio, e agradeço muito a Editora Melhoramentos. 

Primeiro contexto: literário

Li A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells (na tradução de Laurent de Saes e na edição da Via Leitura) ano passado, alguns meses depois do lançamento do livro da Silvia. Já era um livro que eu queria ler há muito tempo, mas até então tinha adiado essa leitura. É um daqueles projetos que a gente inventa e que nunca consegue cumprir, do tipo "nossa, precisava ler mais coisas do H. G. Wells". Um dia vai dar certo.

Em A Ilha do Doutor Moreau, um náufrago acaba sendo resgatado por um navio onde conhece um homem estranho, chamado Montgomery, que tenta ajudá-lo mas se nega a dar abrigo a ele. Sem ter lugar pra onde ir e sem conseguir nenhum tipo de carona para o continente, esse náufrago vai parar na ilha para onde Montgomery está indo — muito a contragosto de Monty, devemos admitir. E logo a gente descobre o motivo: Montgomery trabalha para Dr. Moreau, um homem ainda mais estranho e isolado do mundo, e que faz experiências, criando híbridos de homens e animais.

O Dr. Moreau é um baita megalomaníaco que acha que a ciência pode explicar tudo e por ela vale tudo. Existem poucas pessoas vivendo na ilha, porque além de tudo ele é paranoico. Montgomery é seu braço direito e faz o trabalho sujo por ele. Um cara bem pocas ideias mesmo.

Nosso náufrago se vê em uma situação complicada quando começa a conviver com esse cenário, essas criaturas, e esses dois homens tão diferentes mas que carregam seus próprios demônios sobre os ombros. 

A releitura

Já em A Filha do Doutor Moreau, de Silvia Moreno-Garcia, as coisas são um pouco diferentes: Vivendo em um local isolado no México, em Yaxaktun, que fica em Iucatã, Carlota Moreau passa seus dias convivendo com seus amigos, Lupe e Cachito, com Ramona, uma mulher que vive na casa e lida com várias questões, para além da cozinha, e com seu pai, Dr. Moreau. Após a demissão de seu antigo ajudante, Moreau precisa de um novo trabalhador em sua propriedade. Montgomery chega até ele apresentado pelo sr. Lizalde, dono da propriedade. 

A propriedade de Yaxaktun é cedida a Moreau por Lizalde para que o homem faça seus experimentos longe de sua terra natal, Paris, pois as pessoas lá não reconheciam seus ideais científicos e ficavam alarmadas quanto a suas experiências. Então, em recompensa, Moreau realiza seus experimentos para Lizalde afirmando que irá recompensá-lo com o que ele precisa: trabalhadores.

E é aí que entra Montgomery e os híbridos. O experimento de Moreau nada mais é do que misturar os genes humanos e animais e criar criaturas a partir disso. Sua propriedade que, para o restante das pessoas, é um hospital para tuberculosos, na realidade é o centro científico de uma tarefa insana. 

Quando Montgomery chega ao local ele logo percebe a estranheza disso tudo, mas uma antiga dívida faz com que ele aceite o trabalho. Montgomery é um cara inglês, que viajou para as Honduras Britânicas atrás de serviço depois de ser abandonado pela esposa e do suicídio da irmã. Lá, ele ficou conhecido após um incidente em que esteve caçando uma onça. Gastando o que tinha e o que não tinha com bebida, acabou caindo nas (des)graças do jogo e devendo uma fortuna. Lizalde comprou sua dívida e, a partir desse momento, Monty trabalharia para onde ele o mandasse. 

A primeira parte do livro se passa em 1871, e a segunda e terceira em 1877, seis anos depois. Na primeira parte Carlota tem cerca de 14 anos, e na segunda próxima dos 20. Monty deve ter ali por volta dos 30, não sei dizer exatamente apesar de me recordar que, em algum momento, ele diga a idade dele. 

O grande ponto de ruptura do que se acredita ser uma vida pacífica em Yaxaktun se concentra na chegada de algumas pessoas estranhas: o filho de Lizalde, Eduardo, e seu primo, Isidro, com alguns homens, enquanto caçam indígenas que fugiram do trabalho escravizado que vinham realizando. Esses indígenas são considerados perigosos pelos herdeiros de Lizalde. Mas logo que veem Carlota, eles desistem das ideias de caça e se interessam pela moça.

Daí em diante, temos diversos pequenos problemas: a descoberta dos híbridos por essas pessoas estranhas, a paixão de Carlota por Eduardo, e as ameaças que Moreau vem recebendo do dono da propriedade pela falta de resultados em sua pesquisa. 


Segundo contexto: histórico

Aqui eu preciso fazer um mea culpa e aceitar minha ignorância sobre a história mexicana. Sei pouco dos conflitos internos e externos daquela parte do continente, e apesar de ter planejado aprender mais, ainda não cheguei nessa parte do planejamento. Adoro estudar, mas como eu disse esses dias no twitter, sou uma mistura difícil de curiosidade, impulsividade e despreparo. Meus planejamentos sempre vão por água a baixo, ou demoram aí seus anos pra acontecerem.

Mas, na edição da Melhoramentos, há uma breve contextualização do que estava ocorrendo no México nesse momento e logo podemos entender como isso foi incorporado na história. Apesar de ficar um pouco óbvio, porque, na base, o que aconteceu no México não é tão diferente do que aconteceu no Brasil, eu sugiro que o leitor leia primeiro esse contexto histórico, em formato de posfácio na página 277.

Em um resumo muito rápido e sem a profundidade que eu gostaria de trazer: o México foi um território disputado desde sua invasão pelos espanhóis em 1518. Com ilhas e territórios cheios de matéria-prima, os espanhóis dizimaram uma quantidade aterrorizante de povos com doenças que, até então, a população local desconhecia. Mesmo depois da suposta "independência" mexicana, com muitas aspas, que aconteceu tecnicamente entre 1810 e 1821, as disputas territoriais continuaram, e as disputas políticas avançaram de forma destrambelhada.

Vou reproduzir abaixo dois parágrafos do posfácio do livro que ajudam a entender melhor o cenário em que ele se passa:

A Guerra das Castas de Iucatã começou em 1847 e durou mais de cinquenta anos. Os maias, povos originários da península, se rebelaram contra os mexicanos, os descendentes de europeus e a população miscigenada. 
Os motivos do conflito foram complexos e ligados a hostilidades de longa data. Os donos das terras expandiram suas haciendas para criar gado e cultivar açúcar. O povo maia era sua principal mão de obra, e os donos das terras tinham sistemas violentos e dívidas e castigos para controlá-los. Outros aspectos de tensão eram os impostos, assim como a violência e a discriminação contra os maias.

Essa parte da principal mão de obra é um dos pontos mais importantes do texto: é graças a isso que Lizalde quer uma mão de obra dócil, e vê nos experimentos de Moreau uma forma de conseguir força e falta de inteligência para manter suas haciendas trabalhando. 

Já Moreau, assim como no livro original, se baseia no princípio científico tão presente no século XIX (e XVIII, também) da criação da vida. Como a vida aparece? O que acontece para criar vida? Frankenstein é um excelente objeto de comparação. Ambas as histórias se apoiam em experimentos científicos reais, ideias que levaram a outros experimentos e assim por diante. A vida, e a fagulha do que se criava vida, era constante objeto de discussão entre rodinhas acadêmicas. 

O que achei do livro (sem spoiler)

Para começar, já quero dizer a você, leitor, que não tá muito afim de ler A Ilha do Doutor Moreau agora, mas que quer muito ler o novo livro da Silvia: tudo bem. A história é uma releitura, e as ligações com o livro original são sempre explicadas (os experimentos, etc). Não há, realmente, nada que você vá perder muito em relação a referências. As obras podem ser lidas de maneira independente. 

Se você já leu A Ilha do Doutor Moreau: eu acho que, pra mim, esse livro se encaixa como um prequel. Tem até uma parte no final que eu diria que é pra se encaixar nessa ideia, mas não vou dizer aqui. Caso alguém queira discutir o final comigo, favor entrar em contato ali no formulário, que eu vou adorar falar um pouco sobre minhas ideias. 

No geral, gostei bastante. É um livro que te prende, te dá vontade de conhecer mais, de saber aonde essa história está indo. Os personagens são interessantes. Eu gostaria de conhecer mais sobre os híbridos. Minha única reclamação é sobre um tipo de interesse que há entre Monty e Carlota (de Monty em Carlota, na verdade), pela diferença de idade entre eles. Mas gostei muito em como a autora transformou o personagem entre o livro clássico e esse. Ele se tornou muito mais humano e muito mais interessante do que o Wells o fez.


Tenho que dizer, também, que a adição do contexto histórico na história original, também, me deixou muito feliz. Eu não sou a maior fã de dramas e romances históricos, mas amo quando outros tipos de narrativas (principalmente terror e mistério) conseguem inserir esses elementos reais ao longo de suas histórias. Isso é, na verdade, um atrativo para mim. E gosto muito quando essas histórias clássicas são recontadas adicionando esses elementos.

A Carlota é uma garota meio ingênua e inocente, até irritante às vezes, mas eu desculpo isso pelo isolamento em que ela vive, sendo paparicada desde cedo pelo pai, com sentimentos conflitantes pelo mundo lá fora. No livro original não temos uma presença feminina, e adicionar uma filha nessa ideia toda de geração de híbridos, isolamento em uma fazenda destinada a pesquisas científicas e como isso é parte da personalidade da personagem também é um ponto extremamente positivo do livro.

Eu gosto muito de ler o que a Moreno-Garcia escreve, e tenho vontade de ler tudo dela, porque gosto das ideias. Mas acho que ainda não encontrei meu favorito dela. Um sentimento de "Adorei isso aqui, mas ainda não é meu favorito, e tenho certeza que vai ter um favorito que vai desbancar todas as leituras"? Estranho né, mas eu tenho essas coisas de vez em quando. Acho que há grandes chances de ser Silver Nitrate, o novo novíssimo que ela lançou esse ano, e que tenho expectativas enormes para ele. 

Agora, uma recomendação. Se você se interessa pela história do México como eu mas conhece pouco e gostaria de ler outras coisas nesse tema, eu não posso deixar de recomendar o excelente As Lembranças do Porvir, livro de realismo mágico de Elena Garro (mesmo que ela, em si, não gostasse muito dessa denominação). É um livro que se apoia fortemente no contexto político pós-década de 1920 no México, um livro triste mas interessantíssimo. Fiz uma resenha dele aqui no blog, caso vocês tenham curiosidade.
 
Tanto A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells, quanto A Filha do Doutor Moreau, de Silvia Moreno-Garcia, podem ser comprados na Amazon*, tanto em formato físico quanto em ebook. 

Gostaria de agradecer novamente o envio do exemplar à Editora Melhoramentos. Muito obrigada. 

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Há uma recomendação de que a gente não deve comprar livros (ou julgá-los, tá) pela capa. Eu não ligo tanto para recomendações ou ditados populares. Ainda mais depois de ver a capa de Não Toque No Gato, de Mary Stewart, lançado pelo Círculo do Livro (com tradução de A.B. Pinheiro de Lemos), e ser completamente arrebatada por ele. (A melhor curiosidade sobre essa capa, sem dúvida, é que ela foi usada também para uma edição de Amityville, do Jay Anson.)

Quando vi essa capa pensei "que horror! parece péssimo. vou comprar". A Michelle já tinha comprado, então comprei também e decidimos pagar para ver — eu, no caso, paguei 7 reais. Eu já tinha visto alguns exemplares dele em sebos por aí. Pode se pensar que um livro com tantos exemplares disponíveis no sebo, sendo da década de 1970, não fosse lá grandes coisas. Mas eu estava tremendamente enganada. Eu devorei o livro. É uma delícia de leitura. 

Na história, narrada em primeira pessoa, conhecemos Bryony Ashley, uma jovem de 22 anos que descende de uma antiga família que chegou à Inglaterra há muitos anos. No momento em que o livro começa, Bryony está morando e trabalhando em Portugal, enquanto seu pai, Jon Ashley, está hospedado em um hospital. Logo então Bryony recebe a notícia que seu pai está gravemente ferido.

Mas nossa personagem não recebe essa mensagem por meio convencionais, como um fax ou um telefonema (o livro se passa nos anos 1970). Não, ela recebe essa mensagem telepaticamente. É nesse ponto, logo no início da narrativa, que descobrimos que Bryony possui esse dom especial, herdado há gerações pela família Ashley. O ponto, entretanto, é que Bryony não faz ideia quem seja seu interlocutor, que fala com ela desde que ela era criança. O perigo!


Bryony desconfia que seja algum de seus primos, ou os gêmeos, James ou Emory, ou o mais novo, Francis. Todos cresceram juntos em Ashley Court, uma imensa propriedade que era de Jon Ashley. Ao lado deles, Rob Granger, que se tornou o zelador (e faz tudo) do local, as crianças cresceram e cada um seguiu para seu canto.

Com a morte de Jon, entretanto, por causa de um documento assinado há tantos anos antes, não é Bryony quem herda a propriedade, mas sim Emory, que é o rapaz mais velho na família. A propriedade está arrendada pra uma família norte-americana — que tem uma passagem rápida mas importante pela história. 

Intrigas, picuinhas familiares, tretas, romance, breguice, figuras encapuzadas, mistérios, registros alterados, uma carta no leito de morte que leva a mais mistérios, Romeu e Julieta, livros antigos, mansão velha e decadente tal qual a vida aristocrática inglesa já na década de 1970, e uma narrativa que se liga ao passado conforme é contada, um cheirinho de história gótica... Tudo que a gente mais gosta, reunidos em um só livro! Eu não conseguia parar de ler. Se não fosse uma pessoa responsável, eu teria passado pelo menos duas noites até a madrugada agarrada ao livro. Mas resisti, e consegui terminá-lo sem prejudicar meu sono.

O título do livro é um show a parte, e foi um detalhe que eu amei. Tem uma ligação profunda com a história sim, mas a parte que mais me chamou a atenção é que Stewart usou um lema real de um clã escocês das highlands, o clã Chattan (que é uma união de doze famílias), para inserir na história da família Ashley. No original, o lema é "Touch not the cat bot a glove", algo como "não toque no gato sem uma luva", que tem várias interpretações. A insígnia do Clã, a mesma que Stewart usou para a família Ashley, mencionada no livro, com o gato selvagem, é essa abaixo:


Eu fiquei encantada com a história que Mary Stewart escreveu. Às vezes, a única coisa que precisamos é de uma aventura neo-gótica com uma jovem em busca daquele que ela ama e com quem consegue conversar telepaticamente. 

Adoraria ler mais livros desse tipo da autora. Já parti em pesquisas na Estante Virtual e espero conseguir adquirir outras obras dela em breve. Além do mais, soube pelo amigo e escritor Fabio Fernandes que a Stewart tem trilogia de histórias arturianas, e fiquei empolgadíssima para conhecer. Descobri, também, que ela escreveu um livro que foi adaptado em filme pela Disney. O filme se chama O segredo das esmeraldas negras, em português, e o livro recebeu o nome de Terror a Meia-Noite.

Não Toque no Gato, de Mary Stewart, pode ser encontrado em edição física na Estante Virtual ou em vários outros sebos por aí. 


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Jéssica Reinaldo

Formada em História, editora, gasta todo seu tempo pensando em livros e filmes de terror. Gosta muito de um bom café, cozinhar, trabalhos manuais e fazer carinho em bichinhos. Atualmente esta entidade habita a área de SP, onde reside com seu esposo e quatro gatinhos.

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