ENTREVISTA: Karen Alvares



Dando continuidade às festas de Halloween e ao projeto #RainhasdoGrito, temos uma entrevista especial hoje!



Entre Julho e Agosto tivemos a participação de Germana VianaLarissa PradoBarbara Herdy e Jana Bianchi como entrevistadas, e os leitores do blog puderam conhecer melhor um pouquinho de mulheres que trabalham com diversos tipos de terror no Brasil atualmente. E, é com muita alegria, que trouxe a entrevista com a Karen Alvares! Sou muito fã do trabalho da Karen, já falei sobre Horror em Gotas e indiquei O Titereiro, me aventurando agora com o seu incrível Alameda dos Pesadelos.

A Karen é um dos grandes nomes do terror atual. Tem livros autopublicados e alguns livros publicados por editoras (Como a Cata-vento e a Editora Draco), conquistando vários prêmios durante sua carreira. É membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST) e, além disso, fez uma lista maravilhosa de Escritoras Brasileiras de Terror, reunindo quase 100 nomes de mulheres que escrevem e trabalham com esse gênero.
Sua produção são de variados temas: podem ser violentos, podem ser psicológicos, mas, independente do subgênero escolhido, Karen faz um trabalho incrível, que prende sua atenção. Além, é claro, de ser uma pessoa incrível e muito atenciosa com todos.




FRIGHT LIKE A GIRL (FLAG): Primeiro eu queria agradecer você por ter topado participar dessa entrevista. Seu trabalho é incrível e é um prazer e uma honra muito grande poder apresentá-la um pouquinho melhor pro pessoal que segue o blog.
KAREN ALVARES (KA): É um prazer ser entrevistada pelo Fright Like a Girl, um blog que eu admiro demais. Obrigada pelo convite, Jéssica!

FLAG: Pra começar, quais suas principais inspirações dentro do gênero do terror? Diretores, filmes…? E na escrita?
(KA): Na escrita, é claro, Stephen King, mas nem tanto por ele ser o “Mestre do Terror”, uma vez que eu o considero de fato um mestre por criar ótimos personagens. Apesar de saber que é importante ligar todas as pontas, com uma boa narrativa, uma trama instigante e um bom suspense e sustos, acredito de verdade que a parte mais importante em uma história são os personagens, e os personagens do King são vivos, reais, e me inspiro muito nisso. No Brasil, admiro muito as obras do Raphael Montes, do Gustavo Ávila, da Glau Kemp e da Cláudia Lemes, mas existem muitos nomes fortes aqui, especialmente no cenário independente e muitos desses nomes são mulheres, o que me deixa muito feliz.
Em outras mídias, gosto bastante de filmes com uma pegada de terror mais psicológico, como The Babadook, da diretora Jennifer Kent, e Alien – O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Também acompanho o cenário independente no cinema e as obras japonesas, que considero as mais assustadoras, como Audition, de Takashi Miike. Adoro os mangás de Junji Ito, sou apaixonada por Death Note e amo os games de terror japoneses, como os da série Silent Hill, minha favorita.

FLAG: Pelo seu trabalho em Horror Em Gotas, você parece ter uma facilidade muito grande em trabalhar com qualquer tema de terror, já que os temas ali são muito diferentes entre si. Quais os aspectos no terror que você mais gosta? Aquele elemento que te desperta e faz você pensar “caramba, isso aqui é muito bacana, gostaria de fazer algo desse tipo”.
KA:  Meu aspecto preferido no terror é o psicológico, aquele tipo de coisa perturbadora, às vezes simples, às vezes bizarra. É o tipo de coisa que me apavora como consumidora do gênero, então é o que eu mais gosto também de escrever. Mas acho importante trabalhar em todas as frentes, então sempre tento variar os temas e aspectos ao escrever. Horror em Gotas justamente tem tanta variedade porque escrevi esses contos em um exercício de escrita, criando um conto diferente a cada semana.

FLAG: Tem algum tipo de segmento, subcategoria ou elemento que você fuja nessas obras? Que você não goste de assistir de jeito nenhum?
KA: Eu tenho medo (medo mesmo!) de ETs. Morro de pavor de filmes como Sinais, Fogo no Céu e Contatos de 4º Grau. Por isso, acabo evitando o tema ao escrever também, mas ultimamente ando tentando usar mais os alienígenas em minhas histórias; o meu conto que vai sair na coletânea Confinados – Contos de uma noite de terror, da Monomito Editorial em parceria com a ABERST (resultado do evento Ghost Story Challenge, que aconteceu em julho), é uma história sobre ETs com uma pegada do terror.

FLAG: Sobre o meio do terror e as mulheres, você já se sentiu hostilizada, em algum momento, seja como fã ou como mulher e autora com isso?
KA: Infelizmente, sim, várias vezes. Como fã e leitora, já ouvi de homem que eu não tinha gostado de uma história porque como mulher não era capaz de entendê-la. Como escritora, já tive trabalhos recusados apenas por ser mulher, já recebi várias avaliações agressivas, já tive leitores que desistiram de comprar meus livros ao ver que a autora era uma mulher. Também já aconteceu de um autor, em uma Bienal, cumprimentar outro amigo escritor e o meu marido, mas ignorar a mim e uma amiga escritora que estávamos ao lado, entrando junto com eles na feira; o cara não foi capaz nem de olhar na nossa cara e nos desejar bom dia.

FLAG: Sua lista de autoras de terror é um material muito importante atualmente. Principalmente vendo tantas coletâneas de terror que não tem uma única mulher participando, sendo que mulheres tem produção vasta no Brasil com esse tema. Como foi a experiência de reunir tantos nomes e montar um tipo de mapa com esses nomes? Como surgiu a ideia?
KA: A ideia de fazer a lista das escritoras de terror (e blogueiras, tradutoras e outras profissionais ligadas ao gênero) veio de uma discussão que ocorreu no Facebook; uma leitora questionou onde estavam as mulheres escritoras de terror, uma vez que, em um bate-papo do gênero na última Bienal, nenhuma mulher foi convidada, a mesa era toda formada por homens. Nesse post, várias mulheres começaram a se citar, e eu fui mencionada algumas vezes; ali, conheci outras mulheres que, como eu, estão lutando por algum espaço no mercado. Então, levei a discussão para o Twitter, citando as autoras mencionadas lá no post do Facebook e pedindo novas indicações; a partir dessas duas frentes, comecei a procurar informações das autoras na internet, através das redes sociais, Skoob, Goodreads, Amazon etc., e comecei a reunir na lista. Não foi uma tarefa fácil, mas foi emocionante encontrar tantas mulheres talentosas, se esforçando duas, três vezes mais que os homens para publicar suas obras e serem lidas e reconhecidas. Conheci várias autoras maravilhosas fazendo esse trabalho. Depois, publiquei a lista nas redes e foi tocante ver como as pessoas (especialmente as mulheres) se engajaram, compartilharam a lista, indicaram novas escritoras, enviaram e-mails para completar a lista. Foi um trabalho gratificante, uma semente para unir todas nós, mulheres do terror.

FLAG: Se fosse pra você dar uma dica para mulheres que estão trabalhando com terror, seja escrevendo ou desenhando ou buscando inspiração para dirigir filmes e etc, qual seria?
KA: Às vezes a gente cansa. Desanima se esforçar tanto, trabalhar tanto, e encontrar tantas barreiras e dificuldades apenas por sermos mulheres criando terror, um gênero que injustamente ainda é visto como muito masculino. Mas não desistam: mulheres, nós precisamos da sua garra e da sua arte. Vocês são boas. Vocês têm talento e, principalmente, um ponto de vista único para contar suas histórias. Ao mesmo tempo que apreciamos o trabalho de muitos homens, também estamos cansadas de esbarrar no mesmo ponto de vista masculino sobre o terror e o horror. O mundo precisa de mais obras criadas por mulheres.

Agradeço novamente a disponibilidade da Karen, que é uma mulher que admiro tanto.
Vocês podem encontrá-la nas redes sociais: Twitter | Instagram
Ou em seu canal do Youtube: Karen Alvares
Suas obras podem ser adquiridas diretamente com a autora, ou através desse link na Amazon: Karen Alvares

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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