O terror socialmente consciente

Get Out, 2018

Um dos livros que fez eu me inspirar e querer trabalhar com terror, desde o começo, foi Dança Macabra, do Stephen King (publicado pela Suma em 2013, com tradução de Louisa Ibañez). O livro tem várias passagens interessantes sobre o que é o terror e o que ele deveria ser, desde suas alegorias e simbologias até uma lista sobre os filmes e livros de terror que King considera os melhores de todos os tempos (no caso, até então, já que o livro foi escrito antes de 1981).

E, sendo publicado em 1981, teve algo ali que me deixou absolutamente incomodada:

O filme de terror é um convite para entregar-se a um comportamento delinquente, antissocial - cometer atos de violência gratuita, ter condescendência com nossos sonhos pueris de poder, nos render aos nossos medos mais covardes. Talvez, mais que qualquer outra coisa, as histórias ou filmes de terror dizem que não tem problema nos juntarmos à multidão, nos tornarmos seres completamente tribais, matar o forasteiro.

(P. 49)

e

Quando voltamos nossa atenção para o cinema de terror e a literatura de suspense, não estamos com a frase "tudo vai dar certo" na cabeça. Estamos esperando que nos digam aquilo que sempre suspeitamos - que está tudo indo para a puta que o pariu.

(P. 50)

O livro tem muita coisa para nos ensinar sobre o terror antigo, mas é necessário perceber que o terror mudou muito entre 1980 – 2018. Então, mesmo sem ter essa noção até o momento, comecei a separar o terror em dois tipos: o terror subversivo e o terror normativo.

King também afirmou, certa vez, que o escritor de terror era um agente da norma. A norma, no caso, é a normalidade americana de aceitar aquilo que lhes convém e destruir qualquer cultura diferente se não for conveniente. O perigo do Outro, do qual menciona Edward Said. E se falamos de Estados Unidos nesse período que Stephen King escreve, em 1980, podemos dizer Inglaterra e França antes deles - o berço do terror. Bram Stoker era agente da norma, assim como Lovecraft, assim como tantos outros. A ideia de que o monstro, na figura do Outro – aquele que não está inserido, aquele que vem de fora, o forasteiro – precisa ser derrotado, é tema de uma quantidade sem fim de histórias de terror.

Dois dos filmes que podem ilustrar bem essa ideia, e que talvez sejam interessantes de serem pensados, é Invasion of Body Snatchers (o original de 1956 e o remake de 1978). Assim como no Brasil (a partir da década de 1950 e, espantosamente, no momento atual), os EUA já tiveram seu medo do "fantasma do comunismo". A ameaça vermelha é o tema principal desse filme: alienígenas estão atacando uma cidadezinha no subúrbio e substituindo as pessoas por monstros.

É um terror normativo: ele entrega o problema, que no caso é o comunismo, de forma alegórica nesses alienígenas, e a solução é que todos vão morrer, então é melhor se proteger antes que isso aconteça. E, além desse, tem vários outros.

Invasion of Body Snatchers (1978)

Mas o terror também teve seus momentos subversivos.
Em 1818, Mary Shelley, filha de Mary Wollstonecraft, feminista, publicou Frankenstein (ou o Prometeu Moderno). O que é hoje um dos livros mais importantes da ficção de terror e da ficção científica, estamos falando de um dos livros de crítica pesada sobre o pensamento humano e sua tara com a ciência e o poder, e como ele pode ferrar tudo. E se você concorda com Victor Frankenstein e não com a Criatura é importante reler a obra, talvez você não tenha entendido.

Podemos pensar na perspectiva de que, quem escreve a história é quem vence a batalha. Said afirma, em Cultura e Imperialismo: "O poder de narrar, ou de impedir que se formem novas narrativas, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e constitui uma das principais conexões entre ambos." (P. 11, edição da Companhia das Letras, 2011, tradução de Denise Bottman). Podemos não estar falando do Imperialismo propriamente dito, mas estamos falando de locais que foram Imperialistas ou foram forjados por eles, como os Estados Unidos, principalmente. Nesse locais, nesses períodos, o medo massivo era essa invasão, esses forasteiros. O que não justifica de forma alguma a permanência desses temas conforme as informações e notícias começaram a ser globalizadas e distribuídas (mas, com espanto ou não, esses filmes normativos ainda são produzidos por aí).

Mas o terror mudou. O gênero e o sentimento.
Se antes o Outro era o problema, o problema agora é diferente: estamos falando de medos reais que ameaçam nossa vida. Não estamos falando de um fantasma que não vai se concretizar, estamos falando de um perigo que ameaça a vida das pessoas de verdade. Desinformação, racismo, machismo, ataques desse tipo perturbam a vida de pessoas todos os dias. O Outro permanece um problema para quem não o aceita, para quem permanece querendo a norma.

Como eu tento apontar em todas as minhas postagens, nós estamos vivenciando uma época incrível no terror, uma época de subversão e com temáticas importantes a serem debatidas, que pode ser estabelecida desde de 2014, mais ou menos. Porém, isso se trata de um processo. Um processo longo que se deu principalmente a partir de alguns filmes da virada dos anos 1970 aos anos 1990.

They Live, 1988

Rosemary's Baby (1968), apesar de ser dirigido por Roman Polanski, um homem envolvido em uma série de abusos, é um filme que trata exatamente sobre o abuso contra a mulher e autonomia feminina. The Crazies (1973), dirigido por George A. Romero, trata de um Estado Militar, dos perigos das armas biológicas. Romero foi um diretor que se concentrou em tratar de temas políticos e dos excessos humanos, como em Night of the Living Dead (1968), que aborda o racismo, e o Dawn of the Living Dead (1978), abordando o consumismo.

Outro filme que trata tão bem, de forma escancarada o consumismo, é o filme They Live (1988), de John Carpenter. Viodeodrome (1983), de David Cronenberg, explora o consumo da mídia, do sexo e da violência de forma bastante prejudicial. The Dead Zone (1983), escrito por Stephen King e dirigido também por David Cronenberg nos mostra como políticos com sede de guerra e armas são um perigo para a sociedade. American Psycho (2000), dirigido por Mary Harron, trata abertamente do materialismo e da masculinidade tóxica de Patrick Bateman.

Em um movimento mais novo, temos It Follows (2014), de David Robert Mitchell, que trabalha com os perigos do sexo sem proteção e das possibilidades terríveis dos vírus; The Babadook (2014), de Jennifer Kent, sobre saúde mental na depressão pós parto da personagem principal; a franquia The Purge, talvez, ainda seja um dos maiores exemplos do que o ódio desenfreado, quando solto, pode causar. Get Out (2017), de Jordan Peele, que aborda o racismo de uma forma impressionante, rendendo o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Esse prêmio à Get Out diz um pouquinho do que estamos vivenciando no terror.

A produção cultural é política. Dificilmente você produz algo sem expor suas influências de alguma forma. Mais do que nunca vivemos um período assustador no mundo, com lideranças de governo deixando bem à mostra o que eles pensam das pessoas comuns, do que chamam "minorias", dos mais pobres, dos negros, das mulheres e do grupo LGBT+. O gênero do terror tem encontrado território fértil para essas produções. Mas, ao invés de permanecer como um gênero que pretende mostrar que estamos fodidos, que não tem solução, temos cada vez mais alternativas de finais. A diferença maior, talvez, entre esses filmes anteriores aos anos 2000 e aos posteriores aos anos 2010, é que temos a alternativa do final bom, a possibilidade de encarar o problema e resolvê-lo.

Apesar de tempos sombrios, as vítimas reais, contra os terrores reais – o homem que ataca mulheres "promíscuas", o consumismo, armas biológicas, o abuso sexual, o racismo, que são temas frequentes no terror das últimas décadas, e que demonstram as dimensões reais do medo – tem alternativas além da fuga eterna. Estamos falando de vencer, acima de fugir. Derrotar esse medo e superar essas situações.

Dei o exemplo de alguns filmes que tratam de temas sociais através do gênero de terror. São alguns, dentre tantos, talvez os que mais representem o que pretendi abordar com o texto: o terror pode ser utilizado a favor das lutas sociais, pra denunciar os abusos humanos, pra ser contra esses abusos; e, mais do nunca, devemos nos apegar nas produções culturais para tratar de assuntos sociais. O terror tem base e pode ser utilizado para isso, e agora principalmente devemos ser críticos ao que consumimos.

Fonte de apoio: 20 Socially Conscious Horror Movies

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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